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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dez anos sem Champions: Guardiola, o gênio, tem errado demais na hora H

Pep Guardiola lamenta chance perdida pelo Manchester City na final da Champions - Carl Recine - Pool/Getty Images
Pep Guardiola lamenta chance perdida pelo Manchester City na final da Champions Imagem: Carl Recine - Pool/Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

30/05/2021 04h00

Pep Guardiola voltou a inventar na hora H. E voltou a ficar sem a Champions League.

O homem é um gênio. O futebol é outro desde que ele apareceu, 13 anos atrás. É campeão por onde passa, e não é campeão com sorte ou de qualquer jeito. Guardiola fez o futebol virar algo mais que um fim - o meio passou a importar.

Mas e a Champions League? Lá se vão 10 anos da última conquista, com aquele Barcelona. Depois da final de Wembley, já são nove torneios sem título para Guardiola - um com o Barça (12), três com o Bayern (14-16) e cinco com o City (17-21).

É claro que a Champions é um torneio de mata-mata, o mais forte do mundo, e o técnico não bota a bola para dentro - os caras têm de executar. Mas já está começando a virar uma passada de pano monumental creditarmos os insucessos à sorte, aos jogadores ou à aleatoriedade do futebol.

Contra o Chelsea, as decisões de Guardiola diminuíram as chances de seu time ganhar, em vez de aumentarem.

Uma coisa é testar e fazer experimentos ao longo de uma temporada, no campeonato de pontos corridos. Guardiola acerta muito mais do que erra. Outra coisa é inventar a roda no mata-mata.

Guardiola inventou no ano passado, ao "espelhar" o City para um jogo contra o Lyon, sétimo colocado na França. E, na final deste sábado, contra o Chelsea, voltou a errar feio.

Depois de jogar o ano todo com um volante, decidiu jogar sem um jogador da posição. Isso afetou Gundogan (que precisou recuar, em vez de atuar mais adiante, como fez muito bem na temporada). Ao lado de Gundogan, Bernardo Silva, que não estava exatamente onde pode render mais. No time titular, Sterling, que simplesmente fez uma má temporada e havia perdido espaço no time pela queda técnica.

Foi uma troca, em tese, ofensiva (um volante por Sterling). Que, na prática, não gerou volume ofensivo por parte do City e ainda deixou buracos no meio de campo que o Chelsea aproveitou perfeitamente no primeiro tempo - chegando ao justo gol com Havertz.

No segundo tempo, Guardiola fez a correção, colocando Fernandinho em campo e deixando o time mais consistente. Ainda assim, não conseguiu criar muita coisa diante da muralha do Chelsea.

Guardiola pode ter tentado deslocar alguns jogadores do Chelsea de seu posicionamento original. Uma proposta arriscada, que exigia uma atuação perfeita do time.

Nada contra arriscar. Nada contra a coragem, a genialidade. Mas é como tudo na vida. Há momentos que nos permitem arriscar mais, e eu sempre elogiarei quem o faz. Há outros momentos em que você só precisa colocar em prática tudo o que construiu antes, após acertar e errar.

Guardiola parece ter um bloqueio em alguns momentos. Sente-se obrigado a arriscar. O tempo passa, e lá se vão 10 anos, que serão 11, sem ganhar o troféu mais importante.

Ele não é menos gênio por causa disso. Mas é um gênio que é humano demais na hora mais importante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL