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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

PSG, Real Madrid e Jorge Jesus: os perdedores da temporada europeia

Neymar perde pênalti em jogo entre PSG e Brest, pelo Campeonato Francês - FRANCK FIFE / AFP
Neymar perde pênalti em jogo entre PSG e Brest, pelo Campeonato Francês Imagem: FRANCK FIFE / AFP
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

25/05/2021 04h00

A temporada do futebol europeu chega ao fim nesta semana, com as finais da Champions League e da Europa League. São decisões. Alguns sairão consagrados, mas os eventuais perdedores estarão longe de terem uma temporada de terra arrasada.

Ruim mesmo foi a temporada pandêmica de Paris Saint-Germain, Real Madrid e Benfica, os grandes perdedores do ano.

O PSG dominou a França desde que o dinheiro do Catar começou a jorrar, em 2011. O clube, que tinha só dois títulos nacionais em sua existência, passou a contratar estrelas internacionais, como Ibrahimovic, Thiago Silva, Cavani, Di María e, claro, chegou ao auge do investimento em 2017, com as chegadas de Neymar e Mbappé, os dois mais caros da história.

Fez quatro temporadas perfeitas, o que nunca havia sido conseguido na França (título do campeonato, Copa, Copa da Liga e Supercopa). Ganhou sete de oito campeonatos - só havia perdido em 2017, e a consequência foi tirar Mbappé do Monaco. Ou seja, domesticamente não houve ninguém que desse para o cheiro.

Mas, em 20/21, logo depois de chegar a sua primeira final de Champions League na história, o PSG perdeu o campeonato para o pequenino Lille. Algo muito difícil de acreditar que pudesse acontecer.

Na Champions, até que o Paris foi bem. Eliminou o Barcelona e o todo-poderoso Bayern de Munique, antes de cair na semifinal para o Manchester City. A Copa da França foi conquistada. Mas é um prêmio muito pequeno para um clube que tem os dois jogadores mais caros do mundo.

Importante lembrar que a temporada começa com uma escolha do diretor Leonardo: deixou Thiago Silva e Cavani irem embora, saindo pela porta dos fundos. Thiago está na final da Champions com o Chelsea, e Cavani fez uma temporada bastante digna pelo Manchester United. No meio do campeonato, o Paris resolveu mandar o técnico alemão Thomas Tuchel para a rua. Trouxe um ex-atleta do clube, o argentino Mauricio Pochettino, para o lugar dele.

Tuchel, que teria "perdido o vestiário", assumiu o Chelsea em janeiro, classificou o clube londrino para a final da Champions League e garantiu o Chelsea entre os quatro primeiros da Premier League inglesa. Pochettino pegou o PSG em terceiro na França e entregou em segundo.

Os dedos são apontados para a gestão esportiva de Leonardo, mas não é possível tirar Neymar da conta. Foi mais uma temporada de lesões, indisciplina e pouco brilho do brasileiro, que teve o contrato renovado. Mbappé ainda teve um ano melhor, mas dá pinta de que vai sair. A dúvida é: o PSG conseguirá se levantar do baque trazendo Messi? Ou será que o dinheiro do Catar vai pingar com menos força?

Messi ainda não anunciou se fica ou sai do Barça, mas a probabilidade maior é que fique. O clube deve anunciar no próximo domingo a contratação de Kun Aguero, que chegaria para atuar ao lado do amigo de seleção argentina.

Após o catastrófico ano de 2020, o Barça conseguiu respirar em 2021. Um presidente novo assumiu, a Copa do Rei foi conquistada de maneira quase épica (pelas viradas) e Messi voltou a sorrir e acreditar no clube. O Real Madrid, por sua vez, ficou de mãos vazias.

É preciso voltar a 2009/2010 para encontrar uma temporada em que o Real Madrid não ganhou nadica de nada - ao fim daquela temporada, Florentino Pérez "apelou" e trouxe José Mourinho, então técnico mais cobiçado da Europa.

Zidane não teve contratações e precisou se virar com o que tinha. O Real chegou à semifinal da Champions League, mas não conseguiu competir com o Chelsea. Na Copa do Rei, foi eliminado de forma vexatória por um time de divisão inferior. No Espanhol, acabou a dois pontos do campeão Atlético. Mas a impressão geral é que só houve disputa até a última rodada porque o Atlético deixou que houvesse.

A temporada surreal de Benzema e a ausência de Sergio Ramos talvez tenham mascarado um time que está envelhecido e abaixo de outras potências europeias. Quando é assim, a imprensa local começa a falar de "fim de ciclo" e Florentino Pérez bota a mão no bolso. O fato é que o Real Madrid atual não bota medo em ninguém. O plano é trazer Mbappé e não se sabe se Zidane fica ou sai.

Por fim, a terceira grande decepção da temporada é o Benfica. De um dos grandes vendedores do mercado europeu, o Benfica passou a comprador no meio de 2020. Em ano eleitoral, trouxe Jorge Jesus, ultracobiçado após o sucesso no Flamengo, e atuou no mercado trazendo, por exemplo, Éverton Cebolinha, jogador de seleção brasileira.

No campo, o Benfica teve sua temporada mais deprimente desde 2003. Foi a primeira temporada em branco do Benfica desde 2013, mas naquele ano, justamente com Jesus no comando, o clube ainda fez final de Europa League.

Acabou em terceiro o Campeonato Português, sem nunca ter estado perto de competir pelo título. Foi eliminado na fase preliminar da Champions League, que era a grande vitrine que Jesus queria para expor seu trabalho a outros mercados maiores. E acabou a temporada perdendo a final da Taça de Portugal para o Braga.

Jorge Jesus saiu do Brasil falando como se fosse técnico para Premier League, Real Madrid ou Barcelona. Hoje, na realidade europeia, parece que até o Benfica seja mais do que ele merece. Passou a temporada inteira destilando arrogância, tentando encontrar desculpas esfarrapadas para o fracasso e mostrando pouco trabalho.

A única nota boa para o torcedor encarnado foi ter evitado, na penúltima rodada, que o Sporting conseguisse ser campeão invicto em Portugal. É pouco para um clube como o Benfica.

Outros clubes chegaram perto de decepcionar de forma categórica no ano europeu, mas acabaram, de alguma forma, salvando a temporada. Notadamente Liverpool, Juventus e Borussia Dortmund, que estiveram a ponto de ficar fora da próxima Champions League, mas arrancaram no final em suas ligas.

O Bayern, que passou a temporada sendo chamado de melhor time do planeta, ganhou, de fato, o Mundial da Fifa e reafirmou seu domínio na Alemanha, com a nona taça seguida - fica a sensação de que o destino na Champions seria diferente, não fosse a lesão de Lewandowski.

Tottenham e Arsenal fizeram temporadas medíocres, mas tampouco se espera muito da dupla londrina. O Lyon, de Juninho Pernambucano, parecia pronto para dar um passo adiante na França, mas acabou amargando a quarta posição e ficou fora da Champions. O Napoli, na Itália, desapontou seus torcedores ao empatar na última rodada e ficar fora da Champions, permitindo a entrada da Juventus no G4.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL