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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dez anos depois, um Guardiola diferente está, de novo, no lugar que merece

Pep Guardiola aparece no gramado antes de Manchester City x PSG pela Champions League  - REUTERS/Phil Noble
Pep Guardiola aparece no gramado antes de Manchester City x PSG pela Champions League Imagem: REUTERS/Phil Noble
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

05/05/2021 04h00

O lançamento de Éderson a Zinchenko, no lance que originou o primeiro gol do Manchester City, ontem, contra o PSG, não poderia ter ocorrido dez anos atrás, quando Pep Guardiola era técnico do Barcelona.

O lance talvez seja um símbolo de como o melhor técnico de futebol do mundo foi mudando sua forma de encontrar caminhos dentro do campo de jogo.

Guardiola é bom demais para ter ficado dez anos longe de uma final de Liga dos Campeões da Europa. Mas, talvez, a ausência fale menos sobre o técnico e mais sobre a aleatoriedade do jogo em um torneio de mata-mata reunindo as grandes forças do futebol mundial.

Nas ligas de pontos corridos, Guardiola foi dominador desde que teve a primeira chance em um time profissional, em 2008. No Barcelona, ganhou três de quatro. No Bayern, três de três, com todos os recordes imagináveis. No Manchester City, onde desembarcou em 2016, deve confirmar neste próximo fim de semana o terceiro título em cinco temporadas. No total, serão 9 conquistas em 12 possíveis.

"As ligas são o que te fazem viver bem", diz Guardiola. "E logo se você perde um jogo eliminatório, fica chateado, claro. Mas, se perder, perdeu, no ano que vem tentamos de novo".

Desdém? Possivelmente, não. Autodefesa? Pode ser. Talvez Guardiola prefira mesmo as ligas corridas, que duram meses. Mas a Champions, lógico, é o mais importante que se tem para ganhar no futebol europeu.

Depois de ganhar duas das três primeiras que disputou como treinador, Guardiola disputou oito sem chegar à decisão. Agora, ele está de volta.

Dez anos atrás, o Barcelona trucidou o Manchester United, em Wembley, e eternizou-se como o grande time de uma geração. Sim, era o Barça de Messi. Mas era também o Barça de Guardiola. Um time com um jogo posicional que poucos conheciam - e muitos nem entendem até hoje -, que privilegiava a posse de bola, os passes curtos, as associações e a construção de jogadas de gol de um lado a outro do campo. Um time que pressionava a saída de bola do adversário de forma revolucionária - hoje, todos sabem fazê-lo. Um time que não dava chutão nem por decreto.

Os anos foram passando e, no Bayern e no City, Guardiola foi incorporando novos conceitos, novas formas de ver o futebol, incluindo armas a seu repertório em função do material humano que tinha em mãos.

"Um campo de futebol é muito grande. Os espaços estão lá, é uma questão de encontrá-los. Eles existem", fala o treinador.

E a vitória por 2 a 0 do City sobre o PSG, na semifinal da Champions, foi aberta com um lançamento de Éderson que é fruto desta busca pelos espaços. Uma jogada treinada, não aleatória. "Não é a primeira vez. A gente tem um goleiro que tem essa qualidade fantástica, talvez o melhor do nosso time para passes longos", declarou Guardiola após a partida.

Em uma entrevista longa que concedeu em 2019, o catalão admite que, no fim, talvez fosse um pouco "fundamentalista" no início da carreira. "Sim, há princípios intocáveis. Mas me dei conta que a grande equação é se reajustar continuamente. Este jogo depende dos jogadores, de como interpretá-los, de como fazer ajustes".

Guardiola sempre teve os melhores times nas mãos, dirão os detratores. Uma meia verdade, é claro. Não foi o caso no início no Barcelona e nem na trajetória no City. Sim, havia material humano de primeira em mãos. Mas outros conseguiriam os mesmos feitos? Os jogadores evoluíram "sozinhos" ou porque foram liderados por um técnico genial?

Pep Guardiola agrada gregos e troianos. Porque mostra que o futebol precisa ser sentido e trabalhado de acordo com os princípios de cada líder. E ao mesmo tempo mostra resultados. É herói dos resultadistas e também dos idealistas.

É claro que ele erra. É claro que estaríamos sendo extremamente benevolentes se o isentássemos e encontrássemos desculpas e vilões para cada uma das oito campanhas de Champions League que acabaram antes da final. Mas, no fim, o trabalho esteve sempre tão perto do sucesso que era óbvio que esta hora chegaria.

A hora do reencontro de Pep com a maior das finais do mundo de clubes de futebol. Dez anos depois de Wembley, Pep e a "orelhuda" têm data marcada para se verem novamente: dia 29 de maio, em Istambul. Se eles só se verão à distância ou se acabarão a noite abraçados, só saberemos daqui a algumas semanas.

Independente disso, creio que os que gostamos do esporte (não só de ganhar) temos de ficar felizes quando ideal e resultado se encontram novamente. O resultado é o grande validador das ideias. Quanto mais tempo durar esta dinâmica, mais ramificações o trabalho de Guardiola terá, mais inspiração ele vai gerar.

Pep está na final da Champions League de novo, o lugar em que o melhor de todos merece estar. E isso é bom.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL