PUBLICIDADE
Topo

Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Renato, de 'selecionável' a dispensável, se perdeu no próprio personagem

Renato Gaúcho deixa o campo após derrota do Grêmio para o Palmeiras, na final da Copa do Brasil - Ettore Chiereguini/AGIF
Renato Gaúcho deixa o campo após derrota do Grêmio para o Palmeiras, na final da Copa do Brasil Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

15/04/2021 18h45

Em quase cinco anos como técnico do Grêmio, Renato Gaúcho foi de homem mais desejado do futebol brasileiro a dispensável. De certeza a dúvida. Enquanto o futebol melhorou no Brasil, principalmente com o ar fresco trazido pelos técnicos estrangeiros, Renato foi ficando para trás.

Ele chega ao Grêmio, é campeão da Copa do Brasil em 2016, da Libertadores em 17 e faz seu time jogar bem o futebol por algum tempo. Claro que não foi tão bom quanto ele falava que era e nem durou tanto tempo como as declarações dele fazem parecer. Mas sim, a Renato o que é de Renato. O Grêmio ficou mais forte com ele.

Neste momento, Renato era o sonho de consumo do Flamengo, mas preferiu ficar no Grêmio. Após a Copa de 2018, quando muitos pediam a cabeça de Tite, Renato era o primeiro da fila para assumir a seleção brasileira caso houvesse uma troca. Ele era a bola da vez.

Mas, a partir de 2019, as coisas começaram a mudar. Chegaram Jorge Jesus ao Flamengo, Sampaoli ao Atlético, depois vieram outros. E começamos a ver algo diferente aqui. É claro que o futebol brasileiro se esforça para seu produto ser pior, principalmente em termos de calendário. Mas o fato é que o jogo melhorou.

E Renato não acompanhou. O Grêmio seguiu sendo competitivo nos mata-matas, mas no caminho levou 5 do Flamengo, 4 do Santos...

Quando "quis" jogar os pontos corridos, a limitação ficou evidente. Era um bom álibi não "ter que" priorizar os pontos corridos quando o Grêmio tinha, efetivamente, chances de ganhar o Brasileiro, não é mesmo? Mas, isso, só vimos depois. Antes, o mito Renato alimentava a imagem de que, "se quisesse", o Grêmio chegaria. Estava escolhendo outros caminhos, mas, bola por bola, era "quem melhor jogava".

Ele é bom de lábia. Convenceu muita gente. E, como bom "malandro", outra imagem que gosta de cultivar, sempre arrumava boas desculpas pelos fracassos. A principal, lógico, apontar para as arbitragens. O fato é que, enquanto o futebol brasileiro ia dando passos adiante, Renato se perdia no personagem que criou.

No discurso externo, Renato é o típico "eu ganho, eles perdem". Detestável. Nunca concede méritos aos adversários. Flerta com o desrespeito constante. Um péssimo exemplo.

No discurso interno, parece óbvio que Renato é outro bicho. Muito mais inteligente e coletivo, soube tomar conta do vestiário gremista, ajudar o clube a fazer dinheiro (chegando longe em competições) e trazer atletas da base para o time de cima. Apesar do discurso sempre em primeira pessoa, as informações dão conta de que ele é um bom "team player" e nunca abriu mão do conhecimento trazido pelos outros departamentos do clube.

E agora, qual será o futuro?

No Flamengo, portas fechadas depois das negativas da parte dele. Pensar em seleção brasileira é um devaneio, até porque este papo ficou para 2023. Dos maiores clubes do país, só o Corinthians parece ter uma porta aberta - e nem parece ser uma boa. Se pensarmos em orçamentos, temos de lembrar que ele recusou pegar o Atlético Mineiro - um erro de julgamento grave, pois era claríssimo que o ciclo no Grêmio estava terminando.

Renato fará falta para o futebol brasileiro? Para quem gosta das bravatas dele, sim. Para quem está preocupado com o nível de futebol, a resposta é "não". Seria diferente dois anos atrás, mas a última imagem foi bem feia. De "selecionável", Renato desceu a ladeira e hoje é "dispensável".

E para o Grêmio? Creio que era a hora da troca. A queda técnica não apaga o que ele é: o maior ídolo da história do clube. Olhando o conjunto da obra, talvez o maior ídolo que qualquer clube possa ter no futebol brasileiro. Não é pouco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL