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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Negacionismo em Flamengo x Palmeiras. Viraram arquirrivais, mas não admitem

Diego tenta bicicleta durante Flamengo x Palmeiras, jogo do Brasileirão 2020 - Andre Borges/AGIF
Diego tenta bicicleta durante Flamengo x Palmeiras, jogo do Brasileirão 2020 Imagem: Andre Borges/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

09/04/2021 04h00

Qual a maior rivalidade do Brasil no momento? Qualquer resposta que não seja Palmeiras x Flamengo estará distante da vida real. E é natural que seja assim. São os dois clubes mais saudáveis financeiramente, com os melhores jogadores, que dominaram os últimos anos e possivelmente dominem os próximos.

As duas torcidas já se ligaram disso há algum tempo. E as redes sociais mostram a preocupação de um com o outro perfeitamente. Querem um exemplo bobo? Procurem os comentários em cima de Vinícius Jr no Real Madrid e Gabriel Jesus no Manchester City. A massa de cornetadas gratuitas a Vini vêm de perfis palmeirenses. A massa de cornetadas a Gabriel Jesus vêm de perfis flamenguistas. É a rivalidade cruzando o oceano e chegando a ex-pupilos dos dois clubes.

Curiosamente, flamenguistas e palmeirenses costumam negar que o outro seja o grande rival do momento. E o negacionismo é relativamente fácil de ser explicado. Um não quer dar moral para o outro.

Um só fala do outro. É VARmengo pra cá, VARmeiras pra lá, é um "se o Gabigol fosse palmeirense, queria ver o que iam falar quando fosse pego no cassino" pra cá, um "queria ver se o Luiz Adriano fosse jogador do Flamengo pra lá"...

Mas ai de quem falar que o grande rival do Flamengo hoje é o Palmeiras, o grande rival do Palmeiras é o Flamengo. "Nunca!", eles bradam.

Recopa Sul-Americana e Supercopa do Brasil são troféus absolutamente equivalentes. Não são torneios. São Copas. Na Europa, não valem nada. Como aqui somos meio paranóicos com quantidade de troféus, essas Copas serão ultravalorizadas pelos torcedores. Apesar de equivalentes, é óbvio que o palmeirense prefere ganhar a Supercopa do que a Recopa.

Muitos dirão o contrário! É lógico que vão. Tática antiga. Argumenta-se que um é internacional e o outro não. Aproveita-se a chance para dar uma menosprezada no rival, uma diminuída. E, claro, prepara-se o ânimo e o discurso para uma eventual derrota. Mas é óbvio que a Supercopa é a preferida das duas.

Do mesmo jeito, outro dia questionei se, para o flamenguista, seria mais bacana ganhar do Palmeiras na Supercopa ou de um Vasco ou Fluminense ou Botafogo na final do Carioca. A enquete que fiz no Twitter, sem qualquer valor científico, mostrou que 80% dos flamenguistas preferem ganhar do Palmeiras. Mas eles imediatamente já dão a razão: "é por causa da Supercopa, não por causa do Palmeiras!", dizem. "Tanto faz o adversário, é um torneio nacional!".

Sei. Se fosse, sei lá, a Portuguesa na final da Supercopa eu queria ver se iam dar o mesmo peso. De repente, a Supercopa, recém-resgatada pela CBF porque, claro, o calendário estava com sobra de datas, virou um "torneio importante". Contem outra.

E assim vamos. O futebol brasileiro está deixando pelo caminho a sua essência, que era ser regional. De 20 anos para cá, com os pontos corridos e a ampliação da Libertadores, os grandes ficaram maiores, os médios ficaram pequenos, muitos pequenos estão sumindo. É uma concentração de poder. E o futebol brasileiro virou nacional.

As rivalidades regionais são centenárias, mas elas perderão peso à medida que as disputas principais são com os outros. Não deixarão de existir, claro, mas se dissiparão.

Lógico que o palmeirense ainda vai se divertir muito e também sofrer muito ganhando ou perdendo de Corinthians, São Paulo e Santos. A história do futebol brasileiro mostra que os quatro grandes paulistas sempre foram fortíssimos nas competições nacionais e internacionais. Os quatro realmente não precisam do Paulistão para se desafiarem e esbarrarem o tempo todo.

A realidade do Flamengo é outra. O Flamengo não tem mais adversários no Rio de Janeiro. Vasco e Botafogo precisam se preocupar com a própria existência antes de se preocupar com o Flamengo. E o Fluminense, que encontrou a vocação de formar jogadores e tentar se manter economicamente saudável neste modelo, pode incomodar aqui e ali, mas está a léguas de distância.

O palmeirense ainda tem um álibi, pois seus rivais regionais são mais fortes. O flamenguista, não. É lógico que ganhar do Palmeiras, hoje, é o objeto de desejo. Se isso vai ser assim por 10, 15, 20 anos? Teremos de esperar para ver. Talvez seja efêmero.

Até porque, curiosamente, são dois clubes que nunca rivalizaram tanto no campo. As torcidas, sim. Nunca se gostaram, até porque o Palmeiras tem uma espécie de "irmandade" com o Vasco. Mas em termos de disputas, nunca se esbarraram tanto, como ocorreu com outros clubes de estados diferentes.

Quando o Palmeiras voou com as duas academias, nos anos 60 e 70, o Flamengo não tinha força além do Rio de Janeiro. Quando o Flamengo explodiu, nos anos 80, o Palmeiras vivia seu maior período de fila e não passava perto de ganhar nada. Nos anos 90, quando Palmeiras retoma os títulos com a era Parmalat, o Flamengo não teve grandes desempenhos - não representava um obstáculo.

Sem nunca terem se enfrentado em final de Copa do Brasil, algum mata-mata decisivo de Libertadores e sequer uma semifinal de Brasileiro, o grande duelo histórico entre eles foi a final da Mercosul de 99. E a Mercosul não era nada perto de uma prioridade na temporada.

Para se ter uma ideia, somente 13 mil pessoas foram ao Maracanã para a primeira final, vencida pelo Flamengo por 4 a 3 (imaginem se fosse nos dias de hoje?). O clube havia feito um segundo semestre pífio, a torcida protestava e Romário tinha ido embora, de volta para o Vasco.

O jogo de volta, no antigo Palestra Itália, teve casa cheia. O Palmeiras poderia acabar bem um ano que já tinha sido marcado pela conquista da Libertadores. E o time de Scolari era muito superior ao de Carlinhos. Mas, no campo, o empate por 3 a 3 deu um título inesquecível ao Fla em pleno Palestra.

Nos 15 anos seguintes, nenhum dos dois foi protagonista do futebol brasileiro. Até disputaram o título brasileiro de 2009, que acabou com o Flamengo, mas não houve grandes confrontos entre eles. O Palmeiras cai duas vezes no período, o Flamengo bate na trave algumas vezes. Deram muito mais bola fora do que dentro.

A partir de 2016, tudo muda. Já começava a se desenhar o domínio econômico que vemos agora e isso virou rivalidade esportiva. O Palmeiras ganhou dois Brasileiros, em 16 e 18, em que o Flamengo foi seu principal adversário. Em 19, o Flamengo conquistou Brasileiro e Libertadores. O Palmeiras mandou embora dois técnicos (Felipão e Mano) após derrotas para o Flamengo, o que mostra bem o peso dos confrontos. Em 20, consegue recuperar terreno ganhando Libertadores e Copa do Brasil, mas os cariocas ficam com o bi nacional.

Então uma Supercopa, que não deveria valer nada, vale. E muito. E vale especialmente porque é um contra o outro. E assim é, mesmo que muitos torcedores não queiram admitir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL