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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Juventus, em crise, desintegra; Inter vai iniciar novo domínio histórico?

Lukaku e Lautaro Martínez comemoram gol da Inter de Milão - Ina Fassbender / various sources / AFP
Lukaku e Lautaro Martínez comemoram gol da Inter de Milão Imagem: Ina Fassbender / various sources / AFP
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

04/04/2021 13h44

A última da Juventus? Um empate por 2 a 2 com o Torino, primeiro time fora da zona de rebaixamento na Itália, com apenas 4 vitórias em 27 jogos quando chegou ao dérbi. A penúltima? McKennie, Dybala e Arthur ficaram fora deste jogo porque haviam participado de uma festinha na semana - interrompida pela polícia por quebrar as normas anti-Covid que o país impõe. A antepenúltima? Derrota para o pequeno Benevento. Antes disso? Eliminação na Champions League para o Porto.

E assim, de capítulo em capítulo, a Juventus do novato técnico Andrea Pirlo vai desintegrando na temporada 2020/2021. O clube contratou Cristiano Ronaldo três anos atrás para ser campeão da Europa. Não só não foi como ainda vai perder o domínio histórico que conseguiu construir na Itália. Culpa de CR7? Bem, pelos números, Cristiano talvez pareça o único inocente da história.

Dez anos atrás, a Juventus começava a caminhada da recuperação. Seria campeã da temporada 11/12 de forma invicta, apenas o segundo time a conseguir tal feito na Itália (o outro foi o Milan, em 91/92). Quebrava, assim, nove anos de jejum (já que os títulos de 2005 e 2006 foram retirados na justiça e o escândalo de armação de resultados jogou o clube à Série B pela primeira vez em sua história).

Quem se aproveitou foi a Inter. Vamos voltar um pouquinho no tempo para entender o contexto.

Em 1971, a Inter conquistava o Scudetto número 11 (a Juve tinha 13, o Milan tinha 9). De 1971 até 2005, a Inter ganharia apenas mais dois títulos, em 80 e 89 - mesmo tendo Ronaldo e outros tantos craques com a camisa do clube no período. A Juve? 14. O Milan? 8. E todos eles entremeados por sucesso europeu. Mas, depois do "calciopoli", a Inter conseguiu aproveitar o vácuo para se reerguer. Ganhou um título no tribunal, outro no campo (sem os principais adversários) e outros três, digamos, com domínio menos questionável.

Os cinco Scudettos seguidos igualavam feitos da Juve dos anos 30 e do Torino dos 40 e o ápice disso tudo veio com 2010, quando o título italiano foi acompanhado da Liga dos Campeões - o time de Mourinho conseguiu algo que a Inter não tinha desde o bi em 64 e 65.

Mas, a partir de 2011, a Juventus resolveu mostrar que, quem mandava, era ela. Com aquele título invicto, começou a caminhada história de nove Scudettos consecutivos - algo impensável. Quem foi o técnico campeão dos três primeiros? Um certo Antonio Conte.

E é justamente Conte quem vai encerrar a série juventina. O atual técnico da Internazionale chegou ao clube em 2019 com uma única missão: derrotar a Juventus.

No primeiro ano, chegou a ameaçar. Mas a Inter degringolou na reta final do campeonato. Ainda chegou à decisão da Europa League, mas caiu diante do Sevilla. Conte brigou com meio mundo dentro do clube, como sempre faz, e parecia que não duraria mais tempo em Milão. Mas durou. Ficou. E a manutenção da aliança será recompensada.

A Série A teve um primeiro turno estranho, dominado por um time muito jovem do Milan, que não parecia que ia aguentar o tranco - e, de fato, não aguentou. Inter e Juventus começaram derrapando. A Juve continuou derrapando. A Inter, não.

Com a vitória de ontem sobre o Bologna, por 1 a 0, o time de Conte chegou à nona vitória consecutiva. O único contratempo em 2021 foi ser eliminada pela Juventus na Coppa Itália - mas era um objetivo menor na temporada. O que importa mesmo é a Série A.

A Inter vai reconquistar a Itália, 11 anos depois, com a velha e eficiente mescla entre veteranos e jovens. Um goleiro muito experiente, o esloveno Handanovic, as revelações Bastoni (zaga), Barella e Sensi (meio). A aposta em Hakimi, o lateral que não triunfou no Real Madrid. Jogadores já com alguma rodagem, como De Vrij, Skriniar, Brozovic, Vidal, Perisic.

Mas, claro, a grande chave é a dupla Lukaku-Lautaro Martínez. Uma dupla que se complementa de forma perfeita e que encaixa como luva na proposta de jogo que sempre foi a marca dos times de Conte - segurança defensiva, contra ataques de alta velocidade.

Lukaku é um trator. Carrega zagueiros pendurados atrás dele, ninguém consegue pará-lo. Mas é mais do que isso. É um jogador inteligente, que abre espaços e que vive um monte extraordinário nas finalizações. O belga é, sem dúvida, um dos cinco melhores jogadores da temporada europeia.

E Lautaro Martínez é o complemento ideal. Veloz, também inteligente e também grande finalizador. Além de muita vitalidade (23 anos apenas) e muito futuro.

Neste momento, a Inter tem 8 pontos de vantagem para o Milan e 10 para a Atalanta, ambos com um jogo a mais. A Juventus está em quarto lugar, 12 atrás. A questão não é mais "se" a Inter será campeã, é apenas "quando".

Outra questão: Será que é um novo domínio na Itália que está só começando?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL