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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Pelé' resgata memórias que não podem ser esquecidas no Brasil e no mundo

O jogador Pelé, campeão mundial pela Seleção Brasileira aos 17 anos (Reprodução/Netflix) - Reprodução / Internet
O jogador Pelé, campeão mundial pela Seleção Brasileira aos 17 anos (Reprodução/Netflix) Imagem: Reprodução / Internet
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

03/03/2021 04h00

Todos nós que nascemos dos anos 70 para frente e crescemos ouvindo falar sobre Pelé. Todos nós que nascemos entre 1964 e 1985 sabemos que fomos paridos enquanto alguém era assassinado. Mas, de alguma forma, essas coisas nunca se conectaram. É o que faz o documentário "Pelé", lançado recentemente pelo Netflix, com direção dos britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas.

O documentário é um espetáculo. Traz incríveis imagens de bastidores, resgata entrevistas, declarações de Pelé na época e é muito rico ao colher depoimentos de gente que esteve ao lado do Rei em campo e também gente que viveu a "era Pelé" de perto, seja fazendo música ou jornalismo ou política.

Talvez o mundo esteja se esquecendo do que foi Pelé - até mesmos seus mais de 1000 gols têm sido relativizados e "diminuídos". E talvez o Brasil tenha feito um esforço exitoso demais para se esquecer do que acontecia em volta enquanto o Rei destruía seus adversários em campo. O documentário, portanto, é fundamental para evitar estes dois lapsos.

Por mais de uma década, o futebol brasileiro girou em torno de Pelé. E acontece que este período foi o de maior domínio de um país na história do futebol mundial. Nunca houve nada igual ao que o Brasil fez do final dos anos 50 até o início dos 70. E nunca haverá, pois hoje o jogo é globalizado, disseminado, estudado e é altamente improvável que haja um tipo de dominação como a que houve. Portanto, o próprio futebol mundial girou em torno de Pelé justamente no momento em que chegava a televisão à casa das pessoas e a revolução da comunicação, que ainda vivemos, teve seu primeiro grande boom planetário.

Nós já sabemos de cor e salteado o que fez Pelé nos campos. Talvez o documentário preencha uma lacuna internacional - se tem gente em algum canto do planeta não colocando Pelé no topo de qualquer lista de maior de todos os tempos, talvez seja por falta de imagens e informações, e a penetração da Netflix pode ajudar a corrigir tal distorção.

Ainda que saibamos de cor, desde que nascemos, como eu disse, é sempre muito bom ver a compilação de feitos monumentais em uma espécie de linha do tempo documentada.

Pelé foi tão grande que o Brasil era um antes dele e outro depois dele. Isso é inegável, basta viajar para fora do Brasil para notar como seremos automaticamente conectados ao futebol. Isso se dá no Canadá ou no Marrocos, na Nova Zelândia ou na Noruega. O nosso passaporte não deveria ter um Cruzeiro do Sul e, sim, uma imagem de Pelé com a bola de futebol. Ele é o que somos. Pelo menos à primeira vista. Logo, depois, naturalmente construímos nossas próprias histórias ao nos relacionarmos com o mundo lá fora.

O documentário não passa por essa percepção exatamente, mas ele dá a dimensão de um país que estava se transformando. Depois da ditadura do Estado Novo, o Brasil parecia consolidar sua democracia. Viveu anos de desenvolvimento econômico, urbanização e industrialização. Transformava-se, enfim. E os dois primeiros títulos mundiais, construídos sobre as profundas cicatrizes de 1950, eram a cereja no bolo em um ambiente de otimismo e progresso.

Mas aí veio o Golpe Militar, em um contexto de Guerra Fria e intervenções externas. O Brasil tem sua democracia amassada por duas décadas, cresce desordenadamente, sucateia os serviços públicos e começa a construir a herança nefasta da dívida externa e da dependência econômica - o país que temos hoje é consequência direta de tudo isso e, como escolhemos não extirpar fantasmas e, sim, normalizá-los, seremos assombrados por muito tempo.

O começo de tudo isso e o endurecimento do regime ocorrem justamente nos anos 60 e início dos 70. Pelé é tão grande e seus feitos tão gigantescos que simplesmente não conectamos as coisas aqui no Brasil. As histórias são contadas de forma absolutamente separadas, como se não se misturassem de forma alguma. Como se tivessem transcorrido em tempos e dimensões diferentes.

O documentário "Pelé" não é um panfleto político e nem pretende crucificar Edson Arantes do Nascimento por sua relação, digamos, superficial com a ditadura. Mas um bom trecho dele trata deste tema e são feitas perguntas a ele sobre esta relação.

Em 2020, em pleno início de confinamento, tivemos a chance de assistir ao "Last Dance" (a tradução para o português é tão ridícula que sempre chamarei o documentário sobre a última dança de Michael Jordan nos Bulls por seu título em inglês). E Jordan também é questionado por uma espécie de "alienação política". É claro que o contexto é outro.

Mas o fato é que observamos em Pelé, o maior do futebol, e Michael Jordan, o maior do basquete e também responsável pela globalização de uma modalidade, algo em comum: esses caras queriam jogar e ganhar. A obsessão deles era esta. Consequentemente, fatores externos, como política ou regimes ou disputa por poder, não estavam na lista de prioridades deles. Aliás, Pelé fala sobre isso no documentário de forma clara - em uma declaração dada ainda na época.

Não há como culpá-los por qualquer coisa. É claro que o tamanho deles lhes dava condições para desafiarem sistemas. Mas também é claro que é muito mais fácil ver isso hoje, com o devido distanciamento histórico. Viver na pele são outros 500. E é perfeitamente compreensível ouvir Pelé dizer que "era difícil saber o que era verdade e o que era mentira". Se hoje, com a comunicação a todo vapor, tem gente distorcendo, mentindo, disseminando, ganhando eleições criando fake news, imaginem na época, quando a capacidade de comunicar era limitada a um grupelho e havia censura a todo vapor?

Será que podemos criticar Pelé por não estar a fim de ver um familiar ser misteriosamente sequestrado ou morrer em um acidente de carro não explicado? Desafiar a ditadura era se colocar em uma situação assim.

Eu não vejo nesta produção do Netflix qualquer tentativa em constranger ou manchar a imagem de Pelé. 'É claro que pessoas podem fazer uma leitura dessas, assim como podem fazer a leitura oposta e compreender as razões de Edson. Não vejo qualquer tipo de desserviço. Muito pelo contrário. Vejo um enorme serviço histórico.

"Pelé" mostra ao mundo um Rei que, talvez, com o passar dos anos, muitos não conheçam. "Pelé" mostra ao mundo e a todos nós um homem que envelhece, mas está lúcido e é capaz de contar a mais impactante das histórias já escritas em um campo de futebol. E "Pelé" mostra a todos nós que, enquanto aquilo tudo acontecia nos campos, havia um mundo que girava fora dos estádios. As pessoas deixavam as arquibancadas para viver a vida dentro de um contexto nefasto e inaceitável.

Pelé pode ter sido útil à ditadura. Mas ele serviu a muito mais gente. É o maior brasileiro de todos os tempos e o maior jogador de todos os tempos do maior dos esportes. Pelé é eterno,

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL