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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Filipe Luís dá a dimensão sobre quem é Messi e o que é esportividade

Thiago Ribeiro/AGIF
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

22/02/2021 17h21

Filipe Luís deu uma entrevista simplesmente espetacular ao jornal "The Guardian", através do jornalista inglês Sid Lowe - Sid é um grande amigo, mora em Madri há muitos e muitos anos e é uma referência no futebol europeu.

Mandei uma mensagem parabenizando pela entrevista, e Sid me contou algumas coisas que não cabem nas páginas do jornal em que ele trabalha. Foi uma entrevista de mais de uma hora e logicamente o Flamengo não foi a pauta principal, pois o tema da conversa girou em torno de Atlético de Madrid e Chelsea, os dois times onde Filipe Luís jogou na Europa e que se enfrentarão nesta terça, pela Champions League.

"Quando conversamos sobre as finais da Champions, que o Atlético perdeu para o Real Madrid, Filipe me contou uma coisa muito interessante. O Flamengo venceu o River Plate daquela maneira, e ele diz que a primeira coisa que pensou foi nas derrotas que teve pelo Atlético. Sua primeira reação foi cumprimentar os atletas do River, pois ele sabia como os caras estavam se sentindo", me contou Sid Lowe.

Ontem, no Flamengo x Inter, quando Raphael Claus mostra o cartão vermelho a Rodinei, Filipe Luís abaixa a cabeça e sua expressão foi de quem não considerava correta a expulsão. Ele não precisa confirmar nem se explicar. Segundo o repórter Eric Faria, Filipe lamentou por Rodinei ser um amigo que tem no futebol, não gostaria de vê-lo expulso. O que também é bacana de se ver.

Filipe Luís é um enorme exemplo de esportividade. Em uma sociedade mal educada, como a nossa, com a grosseria das pessoas que trabalham em um campo de futebol mais do que evidente (a ausência de torcida nos permite ouvir tudo o que é falado), esse cara deveria ser tratado como alguém a ser copiado, exaltado, vangloriado. O futebol brasileiro precisa de outras dezenas de jogadores como Filipe Luís.

Estou falando de atitude. Mas podemos falar de jogo também, de bola. Um lateral que não é daqueles que os brasileiros se acostumam a amar. Porque Filipe Luís não é o portento ofensivo que vai lá participar de todas as jogadas de ataque. Ele é um jogador tático, um lateral de enorme capacidade defensiva e que participa da construção do jogo, mais do que dar profundidade.

Na entrevista, ele deixa claro que vai virar técnico de futebol e que seu sonho é ganhar a Champions League, que escapou duas vezes. Sabe que não o fará mais jogando bola, mas mostra que pretende seguir a carreira de técnico lá fora - espero que consiga sair dessa espiral de mediocridade em que nos metemos aqui no Brasil.

Em sua conta no Twitter, Sid Lowe disponibilizou a transcrição de um trecho da entrevista que não saiu no Guardian. Filipe Luís fala de como tratava os duelos contra Messi nos tempos de Atlético x Barcelona. É muito bom ouvir um jogador falar de futebol mostrando conhecimento do jogo - muitos sabem jogar, mas não "entendem" o que fazem. Filipe consegue dar a exata dimensão do que é enfrentar Lionel Messi.

"Um dia eu gostaria de perguntar ao Messi como ele se sentia quando jogava contra mim. Eu tratava cada um como o jogo mais importante da minha vida, porque ele era o melhor que eu havia visto jogar. Eu estudei muito o Messi, estudava cada toque dele na bola, parava o vídeo, começava de novo, via de novo, depois de novo. E ele tinha uma coisa muito importante no jogo dele: o improviso. Ele não havia pensado antes no que ia fazer, ele não tinha o drible já pensado. Ele olhava para o defensor e, dependendo do movimento de corpo, ia para um lado ou para o outro. O que eu fazia, então? Primeiro, tentava não deixá-lo receber a bola. Se recebesse de costas, contato imediato nele ou na bola. Como ele era muito forte, resistente, não fica se jogando, eu sabia que não ia conceder faltas gratuitas. Se ele recebe a bola de frente para você, é impossível. Pelo menos era assim, cinco anos atrás, hoje talvez isso tenha mudado".

"Por que era impossível?", perguntou Sid Lowe. E Filipe continua:

"Porque ele improvisava, não havia como planejar. Ele te olhava e mudava. O que eu fazia? Eu fingia que iria combatê-lo por um lado, para tentar fazê-lo ir para o outro lado, onde eu realmente queria que ele fosse. E aí poderia dar o carrinho, acertar a bola ou ele ou então ter tempo de a ajuda chegar. Houve jogos em que fui longe demais em termos de agressividade, fui expulso. Mas ele nunca revidou ou falou qualquer coisa. Eu acho que ele gostava desse tipo de desafio. Me chamaram para ir para o Barcelona, então acho que ele gostava do meu futebol! Eu adoraria saber a opinião dele um dia. Meus melhores jogos foram sempre contra Messi. Houve jogos em que não encostei na bola, mas tentava não deixá-lo recebê-la."

Imaginem o desafio de tentar ludibriar Messi e de enfrentar um jogador que simplesmente fazia coisas diferentes a cada jogada, sem nenhum tipo de previsibilidade. Um desafio mental que deve esgotar qualquer um.

Na entrevista ao Guardian, Filipe Luís fala muito sobre Simeone e como o técnico argentino exige o máximo dos jogadores o tempo todo. "Nào é fácil jogar para ele". Fala também sobre a relação com Mourinho no Chelsea, admitindo que, apesar de ter se sentido "traído" na época, por não ter os minutos que queria, hoje consegue enxergar que Mou fez o que precisava mesmo fazer - o time estava encaixado com Azpilicueta. Mas também deixa claro que Mou errou ao não perceber o craque que era Mo Salah ("nos treinos, era como o Messi. Mas saiu porque precisava jogar").

A entrevista na íntegra está aqui, em inglês. Se você gosta de futebol, leia. E palmas para um dos raros ótimos esportistas que habitam nossos gramados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL