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Julio Gomes

Há coisas mais nobres que troféus. As ironias a Alves e Diniz são tristes

Daniel Alves e Fernando Diniz em treino do São Paulo no CT da Barra Funda - Divulgação/São Paulo
Daniel Alves e Fernando Diniz em treino do São Paulo no CT da Barra Funda Imagem: Divulgação/São Paulo
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

22/01/2021 11h47

"O trabalho do Diniz não se resume em criar grandes jogadores, mas grandes humanos, conceitualmente, em vários aspectos. O Diniz, no dia que não estiver mais aqui, vai deixar uma grande base, não só monetária, mas em termos pessoais para a equipe do São Paulo (...) Os resultados não são apenas uma análise de jogo, mas o que você vai criar. Você não está aqui para ser apenas jogador de futebol que ganha, perde ou empata, mas criar pessoas que vão ter influência social importante, vão influenciar outras a não serem omissas e reféns de um sistema que massacra".

A frase de Daniel Alves deveria ser enquadrada (a entrevista inteira está aqui). Eu aplaudo de pé e seguirei aplaudindo a vida toda.

Mas o que ela virou? Ironia. Desprezo. O São Paulo é um clube de futebol profissional, dizem, não uma ONG! No Twitter, chovem ataques. Algumas brincadeiras são até engraçadas, como a da thread abaixo. É rir para não chorar. Tudo é justificável porque o São Paulo está na fila e a única prioridade tem que ser acabar com ela.

O futebol cada vez me surpreende mais. Como é possível, em um país como o Brasil, cheio de injustiças e com um imenso vácuo onde milhões e milhões estão largados à própria sorte, não amar e respeitar iniciativas e atitudes que minimamente tentem ocupar esse espaço?

Na Alemanha, que deveria ser o exemplo seguido, os clubes de futebol são elementos fundamentais na política de integração do país. Através do futebol, os filhos, netos, bisnetos de turcos, albaneses, ex-iugoslavos, africanos e outros tantos imigrantes e refugiados do mundo todo são integrados à vida do país. Criam identidade própria, deixam de ser párias. E quem convive com eles, especialmente os da primeira idade, recebem de cara uma espécie de vacina contra a xenofobia, o racismo, o desprezo.

Imaginem se a comunidade do Eintracht Frankfurt vai criticar o clube por investir nisso, em vez de ganhar títulos?

Outro dia escrevi sobre o Athletic Bilbao e o senso de comunidade que é o motor do clube. O pertencimento, o futebol como elemento agregador e social.

O São Paulo é, sim, um clube social, não é um clube empresa. E mesmo empresas, em um país como o Brasil, deveriam ter muito mais senso e obrigações para com uma sociedade tão desigual, injusta e agressiva.

Não sou um grande especialista em Cotia, mas da última vez que estive lá e conversei sobre, alguns anos atrás, conheci o projeto de formação de jogadores e a parceria com escolas da região. É óbvio que é pouco. É quase para inglês ver. Mas está lá. E certamente ajuda muita gente, muitas famílias. Antes outros clubes brasileiros fizessem algo parecido, ajudassem o ineficaz poder público a criar um ambiente educacional melhor.

Que o clube faça isso e que um treinador de futebol deste clube, quase em uma coincidência, também exerça um papel na formação de seres humanos são coisas a serem aplaudidas, não ironizadas.

Vamos imaginar, por exemplo, o chefe de uma equipe de vendedores em uma loja popular. É claro que o papel dele é vender, é fazer números, é organizar, etc. Mas ele não tem nenhuma função de liderança e formação?

É claro que tem. Assim como Diniz tem a função de treinar o time, ganhar jogos E TAMBËM ajudar na formação cívica de seus comandados. E até Daniel Alves, pela experiência, salário e status, tem essa responsabilidade.

É incrível como o desespero do torcedor de futebol para ganhar um título cegue tanta gente. Na verdade, nem mesmo é aceitável. O sentimento do torcedor apaixonado é uma caixa de Pandora, desperta os piores instintos. Por trás do que chamamos de "amor", o mais lindo dos sentimentos, estão o ódio, a raiva, o desprezo, a insanidade.

"Ah Julio, entendo tudo isso, mas um time de futebol é um time de futebol, o que eu quero é que ele ganhe, não que faça caridade".

OK, podemos seguir vivendo em nossas redomas buscando nossas vontades e desejos, dando uma grande "dane-se" para tudo o que está em volta. Na verdade já é a regra na nossa sociedade. Cada um por si, sem papinhos. É mais o menos o equivalente a dizer "que se dane tanto pobre por aí, o que me importa é minha conta bancária".

Não soa tão bonito o amor pelo extrato como soa o amor pelo clube de futebol, não é mesmo?

Há coisas muito mais nobres do que um troféu. Antes de torcedores, somos seres humanos. Em um contexto horroroso e triste. Podemos debater a vida toda o que joga o Daniel Alves, os erros do Fernando Diniz treinador. Mas ironizar e massacrar algo tão louvável? Estou fora.