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Julio Gomes

Palmeiras na final! Idealizamos uma consistência que não existe por aqui

Abel Ferreira acompanha Palmeiras x River Plate, jogo da semifinal da Copa Libertadores - AMANDA PEROBELLI / POOL / AFP
Abel Ferreira acompanha Palmeiras x River Plate, jogo da semifinal da Copa Libertadores Imagem: AMANDA PEROBELLI / POOL / AFP
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

12/01/2021 23h42

O Palmeiras conseguiu sobreviver ao desastre. Depois de fazer 3 a 0 no River Plate na ida, na Argentina, levou 2 a 0 no Allianz, na volta, e acabou a partida encurralado na área por um time com um jogador a menos. Ninguém esperava o placar da ida. Ninguém esperava o drama da volta.

Assim como ninguém esperava que um time dominasse o futebol brasileiro, como fez o Flamengo em 2019. E ninguém esperava pela queda enorme do mesmo Flamengo logo em 2020.

Parece que "dinastias" são proibidas no Brasil. Sempre que alguém dá indícios de que vá criar um domínio, o ato seguido é desastroso. Idealizamos uma consistência que simplesmente não existe, e duvido que existirá.

Porque as bases do futebol brasileiro, seja dos grandes clubes ou dos médios e pequenos, é tão sólida quanto uma gelatina quente. O calendário é uma porcaria, os dirigentes atuam como amadores, há o desequilíbrio financeiro do país e dos próprios clubes, a maior parte dos técnicos ficou presa a um futebol que mudou, há uma empáfia generalizada por causa das cinco estrelas no peito.

Há quanto tempo jogam juntos esses jogadores do Palmeiras? Por quanto tempo jogarão os do Flamengo? (ainda mais depois dos protestos lamentáveis desta terça). Como foi formado o time do Santos, que também pode chegar à final sul-americana? Aliás, qual é mesmo o time do Santos?

Mesmo o River Plate, que caiu bravamente da Libertadores, vive problemas similares. Sim, Gallardo está lá há seis anos, o River tem chegado longe em todas as Libertadores. Mas sabem quantas vezes Gallardo foi campeão argentino com o River? Zero. Entra ano, sai ano, o time muda, perde jogadores, vai buscar outros. Não há consistência nem no Brasil nem na América do Sul.

O torcedor adoraria ver seu time dominando tudo. A imprensa clama por consistência e estabilidade, às vezes porque acredita na importância disso conceitualmente, às vezes apenas porque o lado torcedor está falando mais alto. Talvez o grande segredo do futebol brasileiro despertar interesse seja justamente a falta de um clube dominante, o excesso de equilíbrio e imprevisibilidade.

Nesta noite de Libertadores, tivemos mais um capítulo dessa inconsistência. O Palmeiras é forte, mas está longe de ser um time pronto e que já tenha passado por todas as situações possíveis. Na partida de ida, o primeiro tempo já tinha sido do River. Mas os argentinos derreteram emocionalmente no segundo, o que permitiu ao Palmeiras, em uma noite inspirada, fazer o resultado que fez.

Um grande resultado não pode servir para cravarmos que um time é fortíssimo. Assim como um péssimo resultado ou atuação não podem servir para detonarmos uma equipe. O Palmeiras está longe, repito, de ser confiável. Mas está perto do que o torcedor realmente quer, a única coisa que quer: o título.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL