PUBLICIDADE
Topo

Julio Gomes

Seleção histórica da France Football tem um problema: onde está Cruyff?

Pele Cruyff FIFA -
Pele Cruyff FIFA
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

14/12/2020 20h14

A France Football decidiu não dar a Bola de Ouro neste ano pandêmico - um erro, no meu ponto de vista. No lugar, resolveu fazer uma eleição entre 140 jornalistas, os mesmos que votam na Bola de Ouro, para escolher o "dream team" de todos os tempos.

O time ficou assim: Lev Yashin (goleiro); Cafu (lateral direito), Franz Beckenbauer (defensor) e Paolo Maldini (lateral esquerdo); Xavi (meia defensivo), Lothar Matthaus (meia defensivo), Diego Maradona (meia) e Pelé (meia); Lionel Messi (atacante), Cristiano Ronaldo (atacante) e Ronaldo (atacante).

Qualquer lista seria polêmica. Tem quem não goste deste, tem quem não goste daquele. Tem quem não goste de uma seleção com linha de três atrás, ainda mais sendo dois deles laterais. Tem quem não goste de dois "volantes". Tem quem considere inaceitável uma ausência ou uma presença. É sempre assim.

No meu ponto de vista, o problema desse time é a ausência de Cruyff.

Porque o time ideal, o dream team, acaba, de alguma forma, representando o que foi o futebol ao longo destas décadas todas. Goleiro, sinceramente, qualquer um serviria. Foram vários os gênios da posição.

Lateral brasileiro (ninguém teve laterais como o Brasil), zagueiro italiano (idem), Beckenbauer, a polivalência alemã. Talvez alguma redundância com a presença de Matthaeus, mas é justo que a competitividade alemã esteja presente em uma seleção do mundo. Xavi, representante da revolução mais recente do jogo e de time e seleção históricos (Barcelona e Espanha). Pelé, o domínio que nunca mais será visto (Brasil por mais de década). Meia argentino (Maradona), atacante brasileiro (Ronaldo). Por fim, os dois grandes gênios do nosso século, os devoradores de recordes, Messi e Cristiano.

O que faltou? A Holanda, oras. O Carrossel Holandês não está representado. E Cruyff fez mais do que isso, ele influenciou a própria criação da escola catalã, que influenciou e segue influenciando o futebol globalmente.

Podemos argumentar que faltaram Puskas, Di Stéfano, Zidane. Também influenciadores, representantes de momentos ou escolas que ficaram de fora. O Real Madrid, maior clube do mundo, não foi exatamente representado em seu esplendor. Pelo menos estão lá Cristiano e Ronaldo (se bem este pode estar na lista por X outros motivos e camisas, os anos de Real não são parte disso).

Mas nenhum deles teve, no meu ponto de vista, o tamanho de Cruyff.

Além do mais, ele era tão inteligente, tão cerebral, que talvez não precisasse aparecer na lista de atacantes (onde perdeu a votação para Ronaldo). Poderíamos ter aberto uma licença poética para que ele aparecesse ali pelo meio, talvez no lugar de Matthaeus.

Ou então, como uma brincadeira, que coloquem Cruyff como o técnico deste time fictício. Se alguém se cansar, ele entra no lugar, em qualquer que seja a posição. Um técnico-jogador, que tal?

É claro que France Football e a lista de especialistas com direito a voto merecem todo o respeito do mundo. Mas uma seleção de todos os tempos sem Cruyff? É como se esquecêssemos de contar uma parte (enorme) da história do futebol. É um time maravilhoso. Mas não tão brilhante como seria se estivesse nele o cérebro mais importante da história do jogo.