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Julio Gomes

O olhar argentino: Por que Maradona é D10S

25.11.2020 - Criança posiciona flores na entrada do estádio La Bombonera, do Boca Juniors, em Buenos Aires, como homenagem a Maradona - Alejandro Pagni/AFP
25.11.2020 - Criança posiciona flores na entrada do estádio La Bombonera, do Boca Juniors, em Buenos Aires, como homenagem a Maradona Imagem: Alejandro Pagni/AFP
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

25/11/2020 19h37

O texto abaixo foi escrito por um grande amigo. Diego Molina é argentino de Buenos Aires, torcedor do Boca Juniors, doutor em Literatura pela USP, pesquisador, tradutor e escritor. Morou por mais de 15 anos em São Paulo e, desde janeiro, está de volta a sua terra. Ele quis escrever sobre Diego Maradona. E o blog não poderia privá-los desta maravilha.

A visão de quem viveu, nas ruas de Buenos Aires, o 25 de novembro de 2020. O dia da morte de Diego Armando Maradona.

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Adeus ao melhor jogador de todos os tempos

Estava andando pelas estranhas ruas de Buenos Aires quando ouvi o estertor da freada de um ônibus. O motorista, notavelmente emocionado, buzinava. Pela avenida, alguns gritavam, outros seguravam o pranto. Meu celular começou a tocar, eram mensagens de amigos de cá e de lá, então eu soube, Maradona, o melhor jogador de todos os tempos, acabava de partir.

Amanhã, talvez até antes, aparecerão os refutadores, os falsos moralistas, os abutres que se alimentam dos restos, para declarar os defeitos de Maradona. Eu preciso deixar em poucas palavras o semblante deste gigante do futebol.

Existe uma estranha mania das sociedades do desempenho em que tudo se quantifica e se contabiliza. O melhor livro seria o que mais vende (best-seller), o melhor restaurante o que mais likes obtiver, o melhor jogador de um esporte, aquele que mais títulos conseguiu. Para quem, como eu, gosta de futebol, do jogo e não do espetáculo montado em torno do esporte, entenderá que essa lógica não pode ser admitida.

O futebol é técnica e criação, como na arte. Ninguém afirmaria que o melhor pintor de todos os tempos é aquele que mais quadros pintou, ou, ainda, aquele cuja obra arrecadou mais dinheiro num leilão. Essa lógica do sucesso material e econômico, a quantificação e a lista de dados e estatísticas, é apenas um elemento para julgar o bom futebol. Para mim, Maradona foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos, dentro do campo foi um herói, fora do campo, um incompreendido. Sua vida e a sua obra se (con) fundem. Eis minha humilde homenagem em tom de exéquias.

Diego Armando Maradona nasceu no dia 30 de outubro de 1960, em Villa Fiorito, uma favela da zona Sul da grande Buenos Aires. Começou a se destacar de moleque no potrero (várzea), onde jogava até cair a noite. Em dezembro de 1970, com 10 anos, foi com um amigo mais velho para fazer teste no Argentinos Juniors. O técnico não conseguia acreditar que aquele baixinho jogasse tanta bola. Colocou a camisa 10 e nunca mais tirou. Nas divisões de base do Argentinos Juniors, ficou 136 jogos invicto, nascia o craque.

Dois anos depois, temos o primeiro registro em vídeo de Maradona, que já chamava a atenção de todo mundo dentro do campo. Nele, o garoto de 12 anos responde ao jornalista: "Meu sonho é jogar na seleção e ser campeão". Esse caminho do sonho à realização é mítico. Maradona parte da origem humilde e forja o seu destino num depoimento aos 12 anos.

Para juntar argumentos, eu poderia falar de sua passagem por Boca Juniors, o clube de seus amores, dos jogos no Barcelona, ou dos dois épicos scudettos que conseguiu, os únicos da história do time, o Napoli, quando o sul pobre se consagrou contra o norte rico da Itália. Ou poderia falar de seus gols, que suscitaram relatos de um fanatismo assombroso, pois cada um deles levava a marca do "gênio", a assinatura do autor, do artista.

Mas vou me limitar a um único jogo em que se condensam todos os feitios do Maradona. Sim, o jogo da Copa de 1986 contra os ingleses. É nesse jogo que Maradona atinge o ápice. A Argentina acabava de passar (1982) pela Guerra das Malvinas contra a Inglaterra, conflito bélico atroz e infame (de ambos os lados, que fique claro). O jogo, pelas quartas de final da Copa do México-1986, os colocou em outro campo e tudo ganhou uma dimensão dramática.

É nesse jogo que Maradona faz o gol mais bonito que eu já tenha visto e produz os relatos mais insólitos já ouvidos! O jornalista e narrador Victor Hugo Morales, por exemplo, saindo de todo protocolo, inventa uma nova forma de narrar. Vale a pena ouvir essa narração.

Não bastasse marcar o gol mais belo, Maradona faz uma pirueta e, com a "viveza criolla" (versão argentina da malandragem), mostra o outro lado de sua genialidade - andar por fora dos limites da legalidade sem ser descoberto, para inglês (não) ver! A Copa, o velo de ouro, já estava ao alcance das mãos.

A partir desse jogo, começa também uma canonização laica do mito chamado Maradona. Embora os jogos semânticos e sintáticos com o nome e sobrenome de Diego Maradona já tivessem começado em Nápoles, quando a torcida gritava "Santa Maradona", pela semelhança com "Santa Madona" (a virgem), houve outro episódio após o jogo com a Inglaterra. Um jornalista quis saber se Maradona tinha feito o gol de forma irregular, com a mão, e a resposta é famosa: "foi a mão de Deus", disse ele. Assim nasce a concreta poesia dessa épica: Diego começa em espanhol com as mesmas letras que 10 (diez), daí o D10S (Deus).

Pois é, Maradona era um entusiasta do futebol, ou seja, estava possuído por alguma divindade dentro do campo, não conheço outro jogador que tenha gerado numa equipe tanto fervor, dentro e fora do gramado.

Claro que depois teve lugar o ocaso do D10S, o flerte com o mundo das drogas e doping positivo que o deixou fora do calcio italiano e paralisou a cidade de Nápoles. Enquanto Diego conhecia as sombras, os napolitanos levavam até o absurdo a canonização, pois por esses anos, em Nápoles, se vendia uma imagem de Maradona para colocar junto ao Menino Jesus no presépio. Começaram a juntar assinaturas para beatificá-lo em vida.

Esse escárnio das drogas foi também um trampolim, porque Maradona sempre que caiu, se levantou, aportando outro lado simbólico a sua própria mitologia. Quase atinge a glória novamente, mas um pênalti mal cobrado, acabou no vice-campeonato na Copa da Itália em 1990. Quatro anos depois, Maradona teve que sair da Copa de Estados Unidos de 1994 pela porta dos fundos por um caso positivo de doping, foi nesse dia que deixou outra de suas frases memoráveis: "cortaram minhas pernas", disse, abalado, depois de ter se preparado e treinado duramente um ano para chegar inteiro na copa do mundo.

Maradona foi o melhor jogador de todos os tempos. Não pela quantidade, mas pela beleza de seus gols; não pelo número de títulos, mas pelos caminhos trilhados para consegui-los; não pelos jogos jogados, mas pela forma em que os jogou.

O seu futebol não tem fronteiras, conheci maradonianos no mundo todo e, ao longo de meus quase 16 anos de vida em São Paulo, eu até tinha inventado uma saída para a eterna pergunta dos amantes do futebol: "Quem é o melhor jogador do mundo: Maradona ou Pelé?" Sabia que a lógica dos números sempre viria como desculpa, então eu costumava dizer: "O melhor jogador do mundo é Pelé (e fazia uma pausa para arrematar)... porque Maradona é o melhor jogador do universo!". A deus lhe corresponde a obra toda...

Eu acho que a pátria do futebol, parafraseando o Rilke sobre a poesia, é a infância. E, por isso, termino citando o meu querido amigo Marcos Rusev, que, ao saber da notícia, emocionado, aos prantos, me disse: "o resto de infância que havia em mim, morreu com ele". Até sempre, moleque, gênio, mestre de barro e sangue, até sempre, Diego.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL