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Julio Gomes

Maradona não foi o melhor, mas é o maior personagem da história do futebol

Diego Maradona comemora conquista da Copa do Mundo 1986, no México - © Gary Hershorn / Reuters/Folhapress
Diego Maradona comemora conquista da Copa do Mundo 1986, no México Imagem: © Gary Hershorn / Reuters/Folhapress
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

25/11/2020 13h44

Diego Armando Maradona morreu. 2020 não acaba. É uma tristeza após a outra. O ano em que o mundo pirou.

Para os argentinos, Maradona não é um ex-jogador. É Deus. Já era mito antes mesmo de morrer. Nenhum atleta adquiriu tal status em vida em qualquer lugar do mundo.

Maradona não jogou mais que Pelé. Possivelmente nem mais que Messi. Não influenciou o futebol como Cruyff. Carreira em clubes? Tirando os anos de Napoli, pouco fez.

Só que ele sempre vai estar em qualquer lista dos melhores. Aparece no topo de algumas porque jogava muito futebol e porque extrapolou o futebol. O significado dele foi muito além das quatro linhas. Engana-se quem acha que Messi "alcançaria" Maradona se ganhasse uma Copa. Nem se ganhasse cinco!

Nenhum outro atleta da história ganhou uma Copa do Mundo sozinho, como ele fez em 86. Nenhum outro atleta fez ou fará o maior gol da história das Copas.

A esmagadora maioria das pessoas que fala que "Maradona foi o maior que vi jogar" não viu mais do aquela Copa e meia dúzia de jogos do Napoli. Só que aquela Copa não foi pouco. E meia dúzia de jogos no Napoli são mais do que alguns fizeram a vida toda. Ele entrou no imaginário popular pelo que fez e pelo que era.

Maradona teve uma vida pessoal errática e polêmica. Errática, segundo quem define o que é certo e errado. Polêmica, porque convencionamos o que é normal ou não tão normal.

Maradona tinha um posicionamento político claro, o que também incomodava a maioria conservadora. Tinha amigos que muitos convencionaram chamar de inimigos. Aliás, Diego morreu no mesmo dia de Fidel Castro, um 25 de novembro.

Maradona fez muita merda. Como eu. Como você. Como todo mundo. Ao fazer muita merda, Maradona nos mostrava que era gente, não Deus. E, por isso, virou Deus. Porque jogava bola como ninguém, mas era um ser humano como qualquer outro.

Maradona é o Che do futebol. O herói idealizado que estava longe do ideal, mas cheio de ideais.

Para um amigo argentino, que logicamente se chama Diego, mandei um whatsapp: "Lo siento, amigo". Todos que conheçam um argentino deveriam fazer o mesmo, porque Diego, lá, é família.

Nenhum outro atleta do mundo atingiu tal tamanho no imaginário popular mundo afora. Não, ele não foi o melhor. Mas foi o maior personagem que o maior dos esportes já teve.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL