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Julio Gomes

Barcelona x Real Madrid: Apenas outra crise ou já não são tão gigantes?

Real Madrid foi derrotado em casa - GettyImages
Real Madrid foi derrotado em casa Imagem: GettyImages
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

23/10/2020 04h00

Um Barcelona que vive uma das maiores crises institucionais de sua história contra um Real Madrid com um dos piores times de sua história.

Sim, há certo exagero aqui. Talvez até muito exagero. Mas é o que encontramos nas páginas dos jornais e nas vozes de rádios e TVs espanholas às vésperas de mais um superclássico. Os dois maiores clubes do mundo se enfrentam neste sábado (11h de Brasília) pela sétima rodada do Campeonato Espanhol.

Os dois maiores clubes do mundo?

Pois é. Até isso pode ser colocado em xeque.

O último clássico, em fevereiro, justo antes da paralisação geral pela pandemia do coronavírus, já era um enfrentamento entre dois clubes em crise. Se dominaram a Europa ao longo da década, nos últimos dois anos nenhum deles esteve sequer na semifinal da Liga dos Campeões.

Será que ambos vivem somente uma crise? Ou o fato de estarem mal ao mesmo tempo mostra, na verdade, um declínio mais profundo?

Enquanto a Espanha se fartava de duelos entre Messi e Cristiano Ronaldo, com títulos do Barça, do Real e até mesmo de Atlético de Madrid e Sevilla no cenário europeu, o mundo ia se movendo.

Na Inglaterra, mais e mais clubes foram sendo comprados, o que ampliou investimentos, valorizou o campeonato, gerou mais receita por direitos de transmissão e por aí vai. Dinheiro grosso foi injetado também no clube de uma das principais cidades do continente e que sempre foi sedenta por futebol: Paris. O principal clube da Alemanha e o principal da Itália se mexeram, tanto que dominam suas ligas de forma nunca vista antes.

E na Espanha o bonde foi passando...

Apesar da recente redistribuição de dinheiro, La Liga ficou um campeonato menos competitivo. Se o país queria ver seus dois principais clubes dominando o mundo, esquece-se que, domingo sim, domingo também, era na Espanha que eles jogavam. A história de "um empurra o outro" serve para os dois lados. Pode ser para cima, pode ser para baixo.

O Barcelona teve ex-presidente preso; fez contratações bizarras e bem suspeitas, de jogadores que nunca vestiriam a camisa do clube; teve o maior jogador de sua história exposto, tendo de explicar seus impostos em um tribunal; perdeu seu jogador que era garantia de futuro por não saber conduzir a situação; e, a cereja do bolo, viu de forma passiva a guerra entre seu presidente e sua figura histórica transformar-se em uma disputa grandiosa e pública.

A mais nova crise no Barcelona é um racha entre os próprios jogadores. Um grupo, onde logicamente está Messi, não aceita qualquer redução salarial em nome de uma readequação do clube. Outro grupo, onde surpreendentemente está Piqué, já assinou renovações de contrato com uma nova estrutura de pagamento ao longo dos anos. O elenco nega o racha, mas...

Griezmann, um jogador campeão do mundo e que custou uma grana preta, não se encaixa no time, com quem quer que seja o treinador. Ficou no banco no meio de semana, pela Champions League, mas é capaz que seja titular amanhã. Neto, no gol, e Philippe Coutinho, no meio, devem ser os dois brasileiros titulares no Camp Nou. Apesar de supostamente estar apostando na juventude, o Barça agradece aos céus pela volta do veterano Jordi Alba à lateral esquerda.

De um jeito ou de outro, o Barcelona ainda tem Messi. O Real Madrid não tem ninguém nem perto disso.

A ponto de o desespero total vir da possível ausência de Sergio Ramos, o grande líder. Sem ele, o Real só apanha. Em menos de uma semana, perdeu em casa para o Cádiz e para o Shakhtar Donetsk. E ninguém sabe para quem apontar o dedo, já que Zidane é praticamente intocável.

Enquanto a France Football colocou Marcelo na lista de 10 melhores laterais esquerdos do mundo, o que considerei um exagero, os jornais de Madri massacram o brasileiro pelos últimos resultados - também um exagero. É a busca frenética por culpados.

A oposição ao presidente Florentino Pérez vocifera que o clube esconde uma dívida impagável. De fato, o Real Madrid não contratou qualquer jogador para a temporada, o que é algo mais do que raro. Justifica-se dizendo que a pandemia mudou o cenário e que muito dinheiro está sendo gasto na reforma do estádio Santiago Bernabéu.

Enquanto isso, na Alemanha, o Bayern de Munique tem estádio, tem elenco e tem paz institucional... isso para citar apenas o atual campeão da Champions.

Sim, existe um declínio técnico nítido neste Barça e neste Real. Mas não acredito que eles estejam deixando de fazer parte da elite do futebol europeu. São simplesmente grandes demais, com um apelo global relevante demais. Cabe a eles, no entanto, não deixar que as seguidas crises, dentro ou fora de campo, ganhem tanto corpo. Está o Milan aí para nos provar que gigantes podem, sim, perder relevância.

O sucesso do passado não é e nem nunca foi garantia alguma de futuro. Se não trabalhar bem, fica pelo caminho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL