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Reportagem sobre 'caso Robinho' deveria deixar Santos sem saída

Robinho assiste à partida Santos x Atlético-GO, na Vila Belmiro - Ettore Chiereguini/AGIF
Robinho assiste à partida Santos x Atlético-GO, na Vila Belmiro Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

16/10/2020 14h56

O Santos está cometendo um erro e insistindo nele. Não há lugar para a contratação de Robinho. O clube vai aprender isso por bem (olhando o que está acontecendo em volta) ou por mal (perdendo patrocinadores, sendo "obrigado" a fazê-lo, etc).

Eu não havia me manifestado sobre o tema ainda porque simplesmente não me sentia com informações suficientes para tal. Em casos tão complexos, acho irresponsável emitir julgamentos ou até opiniões. É muito fácil rotular um inocente ou um culpado pelo que não são. E, muitas vezes, na grande maioria das vezes, há muito cinza entre o preto e o branco.

Recentemente, tivemos o caso Neymar-Najila. As poucas imagens disponíveis acabaram gerando uma noção de inocência de Neymar. Porém, é incrível como todo o resto de informações em torno daquele caso foi simplesmente jogado no lixo. As acusações do que havia acontecido antes foram simplesmente descartadas. Uma vez conquistada a opinião pública, caso encerrado. Deixamos para lá um debate que é tão importante quanto o do estupro ou não estupro. O modus operandis, o linguajar, as relações, as intenções, a fragilidade das relações humanas.

Nos últimos dias, os microfones estiveram disponíveis para uma das advogadas de Robinho combater ferozmente o que ela chamou de "lacração" usando o artifício da... lacração. A defesa de seu cliente era o ataque. A imprensa toda foi colocada no mesmo barco, somos todos acusadores, irresponsáveis, lacradores.

Mas o tempo é o senhor da razão. Irresponsável é quem trata todo mundo, para bem ou para mal, como "imprensa", como se fosse uma coisa uniforme. Foi o repórter Lucas Ferraz, do Globoesporte.com, quem deu a resposta à altura. E a resposta veio da forma como melhor um jornalista pode fazer: com apuração. A reportagem publicada hoje traz informações detalhadas sobre o processo e diálogos capturados pela polícia italiana que são, de fato, incriminadores.

Sugiro leitura e cada um terá o próprio veredicto.

Eu começo a construir o meu. Não entrarei em julgamentos sobre o estilo de vida. Cada um faz o que quer, desde que não fira a liberdade do outro e/ou a lei.

Os diálogos entre Robinho e algumas das pessoas envolvidas deixam claro que um limite bastante grave foi cruzado ali. Será difícil sair dessa. Está fácil para o Santos tomar a decisão que precisa ser tomada.

O caso é um retrato fiel do modus operandis do homem que atua como verdadeiro dono de um mundo paralelo, em que nada o atinge. Isso é especialmente fácil de notar aqui no Brasil. O poder, o dinheiro, a posição na sociedade compram essa "liberdade".

Quantos casos de estupro ou violência contra a mulher temos diariamente no Brasil? Quantos casos conhecemos de polícia realmente investigando, indo a fundo, grampeando até, como fizeram na Itália? No Brasil, estamos acostumados a culpar apenas a lei e a justiça pela impunidade. Mas temos de olhar mais atentamente ao trabalho da polícia. Pouco, muito pouco, quase nada é investigado por aqui.

O que sim, já ouvimos aos montes, são casos de mulheres com medo de denunciar qualquer tipo de violência sofrida. Medo porque não se sentem amparadas. Não se sentem amparadas pela polícia, pela justiça e, o pior, pelos familiares, amigos, vizinhos, por quem está em volta. Não raro, a vítima é tratada como culpada. O famoso "também, foi lá porque quis, usou roupa sensual porque quis, provocou, pediu", etc, etc, etc.

É a cultura do estupro. Que muitos insistem em negar. A cultura do estupro está no "fiu fiu", no concurso de beleza, na objetificação da mulher, no linguajar, nas piadas. Ela está impregnada, inclusive no próprio universo feminino. Muitos de nós, homens, somos até "vítimas" desta cultura quando somos obrigados a submergir nela desde a infância. Depois, no entanto, nos transformamos em vilões, porque já temos informação suficiente e capacidade para sair dela, em vez de negá-la ou conviver pacificamente com ela.

A construção das sociedades sempre foi patriarcal e machista. A reconstrução levará gerações. Estamos no meio disso, talvez no início ainda.

Eu entendo que um cara tenha dificuldade em entender que "fez merda" quando tenha passado a vida inteira achando que aquilo era normal. Mas, quando certos limites são cruzados, a ignorância não poderá servir como justificativa (e estou sendo para lá de condescendente aqui).

A reportagem do Globoesporte é praticamente uma cartilha. Os diálogos mostram perfeitamente o que é a cultura do estupro. Precisamos redefinir limites, redefinir os papéis, redefinir o que é ou não é aceitável. Estamos ainda engatinhando. Este é um combate que precisa ser travado com força e com urgência. Um bom início é tratar estuprador pelo que é.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL