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Sobre Neymar e agressões no Brasil: tuitadas e braços cruzados são pouco

Neymar discute com Alvaro Gonzalez - Gonzalo Fuentes/Reuters
Neymar discute com Alvaro Gonzalez Imagem: Gonzalo Fuentes/Reuters
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

14/09/2020 08h17

Tivemos, no fim de semana, dois casos lamentáveis no futebol. Na França, jogadores do Olympique de Marselha e do Paris Saint-Germain protagonizaram cenas feias, e Neymar acusou o espanhol Álvaro González de tê-lo chamado de macaco. No Brasil, alguns torcedores do Corinthians foram ao aeroporto receber o time com xingamentos e agressões.

Os dois casos, por mais diferentes que possam parecer, têm uma coisa em comum: servirão para pouca coisa ser mudada - pelo menos se conduzidos como estão e devem seguir sendo conduzidos.

Estamos falando de racismo na Europa e da banalização da violência no Brasil. Dois problemas que, talvez, sejam os maiores de cada um desses locais. Eles precisam ser enfrentados de forma mais firme, gerando prejuízos e chacoalhando o sistema. Só os jogadores podem ser os catalisadores de mudanças.

Recentemente, tivemos a invasão do vestiário do Figueirense e os jogadores da primeira divisão, Brasil afora, resolveram protestar cruzando os braços antes dos jogos. Chamar a atenção ao problema não é necessário. Isso nós mesmos, jornalistas, já fazemos. O que os jogadores precisam é tomar uma atitude mais drástica.

O cancelamento de uma rodada, por exemplo? Um mês sem campeonatos, que tal? Ou a suspensão para o ano inteiro do clube envolvido nas agressões? Isso mesmo, um clube inteiro pagando pelo que poucos fazem. Até porque esses poucos são geralmente encobertos e protegidos por mais gente.

Cruzar os braços antes dos jogos serve para quase nada. É necessário ir além.

Sobre Neymar, dar o cascudo no espanhol e agredir via Twitter não servirá para muito. É necessário ir além.

A acusação é muito grave. E não podemos nos esquecer que estamos falando de dois caras que falam idiomas diferentes em um país onde é falado um terceiro idioma. Tampouco podemos nos esquecer que era um clássico, o jogo mais quente do país. Pode ter havido uma falha de comunicação ali? Ou seja, um falou uma coisa, o outro entendeu outra e por aí vai? Pode sim.

Não estou falando que ninguém está mentindo nem que ninguém é santo. Possivelmente nunca saberemos e talvez ambos achem que têm razão. Aliás, o cara tinha acabado de levar uma cusparada no rosto de Di María, o que é também algo para lá de lamentável. Di María vai se safar com essa, porque a confusão toda que veio depois encobriu a cusparada.

Se, como Leonardo disse, houver gravações ou mesmo outros jogadores que possam testemunhar a agressão racista, espero que o tal González sofra uma punição exemplar. Suspenso para a temporada toda, por que não? Não podemos dar um centímetro sequer de espaço para racistas.

Eu gostaria que Neymar tivesse parado o jogo no exato momento em que ele entendeu ter sofrido a agressão. Gosto mais da atitude de Marega, do Porto, no começo do ano. Foi insultado por torcedores, se revoltou, saiu de campo. Neymar devia ter saído de campo, chamado a polícia, sei lá. O que acho que não tem muito sentido é esperar até o fim do jogo para dar um cascudo no cara. E o fala fala do Twitter tampouco é interessante.

Neymar é uma dessas figuras, como Lewis Hamilton, com a capacidade de mudar o mundo. O tal do González é pequeno perto disso tudo. Neymar pode abraçar a causa para valer, financiar e apoiar instituições de combate ao racismo, que prezem pela igualdade racial e protejam negros de abusos, por exemplo, policiais.

Até hoje, os posicionamentos políticos de Neymar sempre foram direcionados a ajudar pessoas que nada fazem nesse sentido - muito pelo contrário, políticos que relativizam ou minimizam o racismo. Uma mudança de rumo seria uma mensagem importantíssima.

E, se depois, dirigentes e cartolas minimizarem as punições - como foi feito em Portugal após o caso Marega -, espero de jogadores como Neymar uma reação muito mais firme.

É aí é que os casos de racismo juntam-se aos de violência que vimos no aeroporto, ontem. É a reação dos jogadores que vai mandar. Quando eles tiverem a coragem e a união necessárias para desafiar o sistema, para trazer prejuízo econômico grande aos que negligenciam tudo isso o que acontece, aí sim as coisas vão mudar.

Estou do lado de quem cruza os braços e até do cascudo do Neymar (sempre à espera de alguma comprovação sobre o xingamento racista). Mas o que espero de todos os agredidos é um passo além. O mundo está abrindo as portas para mudanças, é preciso usar a cabeça, apertar o real calo dos agressores (o bolso) e ir até o fim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL