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Julio Gomes

Após maior humilhação, é difícil visualizar a reconstrução do Barcelona

Messi lamenta um dos gols sofridos pelo Barcelona contra o Bayern de Munique, em jogo na Liga dos Campeões - Manu Fernandez/Pool via Getty Images
Messi lamenta um dos gols sofridos pelo Barcelona contra o Bayern de Munique, em jogo na Liga dos Campeões Imagem: Manu Fernandez/Pool via Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

15/08/2020 07h30

O Barcelona sofreu na sexta-feira a maior humilhação de sua história. O mundo inteiro viu o todo poderoso time catalão, o time de Messi, levar 8 gols do Bayern de Munique na Liga dos Campeões da Europa. E agora? O presidente Josep Bartomeu promete "medidas". Piqué, um histórico do clube, se ofereceu para sair. O técnico Quique Setién, que chegou em janeiro, não passa de hoje. Vem limpa e caça às bruxas por aí.

Mas como reconstruir o Barcelona?

Desde que contratou Ronaldinho, em 2003, e logo depois subiu ao time de cima um tal Lionel Messi, o Barcelona tornou-se a maior potência futebolística mundial, o time a ser batido. Este período todo já teve momentos ruins e "fins de ciclos". Mas em todos eles havia perspectiva. Não exatamente um plano, mas havia ferramentas para voltar a ganhar.

Quando o ciclo de Ronaldinho, Deco e Eto'o se esgota, em 2008, pediam passagem Messi, Xavi e Iniesta. E o clube ainda acerta em cheio ao efetivar Guardiola como treinador principal. Este novo ciclo vitorioso se exaure em 2013, como fica claro justamente após uma eliminação dura para o Bayern de Munique (não tanto como a de ontem, logicamente). Aí chega Neymar, a grande contratação do Barça, ganhando o braço de ferro contra o Real Madrid com muito jogo de bastidores e movimentos financeiros, digamos, discutíveis. Chega também Suárez, e o trio destrói com muita bola e química entre eles.

Agora, ao contrário de 2008 e 2013, não há no horizonte do Barcelona algo que dê grandes esperanças para que a reconstrução seja rápida e gere um novo ciclo vitorioso.

O grande erro foi perder Neymar em 2017, ele é quem passaria a capitanear, a partir de agora, o novo Barça. Mas a diretoria foi muito mal ao perdê-lo para o PSG e, no ano passado, pior ainda ao não fazer os movimentos certos para trazê-lo de volta. Ainda gastou mal o dinheiro de Neymar, pagando caro por Philippe Coutinho, Dembélé e outros jogadores.

O clube não tem dinheiro no cofre, e a situação de mercado não é animadora, devido à pandemia. Ou seja, vai ter que se virar com o que tem.

O Barcelona tem um abacaxi nas mãos chamado Messi. É o maior jogador da história do clube, talvez da Europa, talvez do mundo, mas já tem 33 anos e está na fase descendente da carreira. Tudo gira em torno dele, no campo e fora de campo. É uma diretoria pressionada a chamar eleições antes do tempo, senão Messi vai embora de graça ao fim da próxima temporada. É um presidente que não tem como vendê-lo, por falta de moral e de mercado - ao contrário do que pôde fazer o Real Madrid com Cristiano Ronaldo.

Eu falei sobre isso aqui no blog mais de três anos atrás, se não seria a hora de o Barça vender Messi. Parece um sacrilégio, mas creio que teria sido o movimento correto pensando no longo prazo - desde então, o clube ganhou duas ligas espanholas, o que não muda sua história, e sofreu três eliminações humilhantes na Champions League (viradas para Roma, Liverpool e, agora, o 8 a 2). A culpa é de Messi? Não. Mas Messi não consegue mais evitar essas coisas e ir além. O show precisa continuar (de outra forma, com outros atores).

Claro que esta não seria uma decisão fácil e é apenas uma opinião minha. Mas o fato é que os dirigentes do Barça tampouco parecem ter as condições para tomá-la.

O Barcelona pode olhar para o elenco atual e encontrar Ter Stegen, De Jong, Ansu Fati, Griezmann, Dembélé, pode resgatar Coutinho. Mas não há química alguma dos últimos três nomes com o clã Messi-Suárez. O meio de campo é todo envelhecido, os laterais já eram, há realmente muito o que mudar. O novo técnico, quem quer que seja, vai ter de encontrar algo que é muito difícil no futebol: a mudança de ciclo com peças antigas e novas e que não se gostam mutuamente.

O presidente Bartomeu, que caiu de paraquedas no cargo e que não parece entender muito do riscado, pode convocar eleições em janeiro ou março. O ideal para o Barça seria uma renúncia imediata, para que as coisas se acalmassem um pouco e um nome de consenso fizesse as mudanças necessárias.

Xavi é o cara óbvio para assumir o comando técnico. Não tem experiência, é sempre uma aposta, mas, tal como Zidane, conhece as entranhas do clube e tem o respeito de quem joga. Só que Xavi não se sente pronto e parece não estar a fim de trabalhar com a atual diretoria, o que já faria tudo começar mal. Mauricio Pochettino é o principal nome solto no mercado, mas tampouco é possível saber se ele será capaz de comandar uma reconstrução assim.

A verdade é que as águas estão agitadas, no horizonte só é possível ver nuvens e, desta vez, não está fácil visualizar uma recuperação rápida do Barcelona.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL