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Julio Gomes


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Barcelona precisa de uma versão rara de Messi hoje: a de milagreiro

Lionel Messi em partida do Barcelona - Albert Gea
Lionel Messi em partida do Barcelona Imagem: Albert Gea
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

14/08/2020 04h00

Este Barcelona x Bayern de Munique de hoje (16h de Brasília) pode gerar muitas opiniões e análises. É um superclássico, duas das camisas mais pesadas e famosas do mundo, portanto, sem favoritos. Mas não é essa a leitura das casas de apostas e de quem tem acompanhado de perto os clubes dentro e fora de campo: para os especialistas, o Bayern é o favorito.

Estou com o segundo grupo. O Bayern é muito favorito, não é pouco, não. Voa em 2020, não teve pandemia que alterasse o ritmo de vitórias do time e o ritmo de gols de Lewandowski. Hansi Flick, um técnico que nunca tinha tido uma experiência assim, ganhou 30 de 33 jogos desde que assumiu. Tudo está funcionando.

Do outro lado tem Messi, dirão os do primeiro grupo. E nunca o time de Messi pode ser considerado azarão.

Bem, do outro lado "só" tem Messi. Junto com ele, um técnico que não tem a confiança de ninguém, um Suárez fora de ritmo, um Griezmann fora de órbita, uma diretoria sem rumo nem futuro. É um caos político e gerencial que pode acabar até mesmo na saída de Messi ano que vem.

Griezmann nem deve ser titular, para que o Barça reforce o meio de campo com Vidal e tente diminuir a velocidade do jogo. O Bayern estará sem Pavard (o francês do grande gol da Copa-18, justo contra a Argentina de Messi), assim Thiago deve entrar no meio e Kimmich ir para a lateral.

O Barça não jogou na temporada nem metade da bola que o Bayern joga. Para vermos uma classificação catalã, teremos de ver o Messi em uma versão "milagreiro". Bota a bola embaixo do braço e resolve, meu filho.

Um colunista de um jornal catalão definiu assim: "Chegou a hora da verdade, ou seja, a hora de Messi. A magia do craque argentino é o único argumento objetivo em que o Barça pode se agarrar. Os alemães são melhores".

Mas aí me flagrei tentando lembrar quando esta versão milagreira de Messi apareceu. E olha, não foram muitas vezes não...

O time de Messi costuma não precisar de milagres. Vai, ganha e pronto. Ou seja, quando ele está em campo, o melhor time costuma ser o dele, são os outros que precisam buscar milagres.

No futebol, no entanto, as coisas podem dar errado. Algumas vezes, muitas vezes ao longo de 15 anos, o time de Messi se encontrou no buraco. Ele apareceu para tirar? É difícil lembrar de uma situação péssima para o Barcelona ou para a Argentina, com jogadores lesionados, gols abaixo, expulsões, coisas assim, em que Messi tenha operado milagres. Quando tudo vai bem, ele é o ET que conhecemos. Quando tudo vai mal, Messi tende a se desinteressar e afundar junto.

É por isso, inclusive, que Maradona é o que é para o argentino, e Messi, não.

Estou falando dos jogos enormes, não me venham com aquele gol no último minuto contra o Villarreal, pela rodada X de uma liga qualquer.

O Barcelona conseguiu um milagre naqueles 6 a 1 sobre o PSG, mas ali o milagreiro foi Neymar. Fora isso, o Barça na era Messi foi mais vítima de outros milagreiros (Inter-10, Chelsea-12, Roma-18 e Liverpool-19) do que autor de grandes vitórias "in extremis". Com a camisa da seleção argentina, não teve milagres nem títulos até agora.

Exceção àquela última rodada das eliminatórias da Copa, os gols sobre o Equador. Lembro do Messi milagreiro naquela vitória no Bernabéu em 2017, ano em que o Barça era pior que o Real Madrid, em que ele faz um golaço nos acréscimos e mostra a camisa para a torcida do Real.

Vocês lembram de mais eventos assim? O Barça no buraco e Messi mudando o curso natural das coisas?

Messi e o Barça entram em campo hoje em uma situação quase desconhecida nos últimos 15 anos. A situação de inferioridade, em que o argentino precisa encontrar uma maneira de decidir, superar o rival e os próprios problemas. E operar, talvez, seu maior milagre.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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