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Como Portugal conseguiu salvar a Champions League para a Uefa

Estádio da Luz, casa do Benfica, em Lisboa - Gualter Fatia/Getty Images
Estádio da Luz, casa do Benfica, em Lisboa Imagem: Gualter Fatia/Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

11/08/2020 06h49

Visão, ação, parcerias. Como Portugal, um país pequeno, de um cantinho da Europa, conseguiu se transformar no centro do mundo? É o que acontecerá nesta semana, quando as partidas finais da Liga dos Campeões forem todas realizadas em Lisboa. Entre os dias 12 (quarta) e 23 de agosto, serão disputados sete jogos que terão a atenção do planeta: quartas de final, semifinais e final, formato de Copa do Mundo.

A resposta passa pelas conexões estabelecidas pelos homens fortes do futebol português, que navegam entre a Uefa, a entidade que controla o jogo na Europa, e o governo local. Mais do que ganhar dinheiro, era a oportunidade de mostrar ao mundo que coisas estão sendo bem feitas no país. Portugal quer ser protagonista no futebol e, paralelamente, o país não pode deixar cair a peteca do turismo, que hoje responde por parte significativa do PIB (8,7% em 2019).

O governo português quis e quer fazer chegar aos quatro cantos do mundo a notícia de que Portugal havia feito um grande trabalho na pandemia, salvando milhares e milhares de vidas. E que os turistas sintam-se seguros para vir ao país no atual verão.

Mas o governo, apesar de tentar ficar com os créditos, como é esperado, é coadjuvante na ação. Os nomes próprios são os de Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol desde 2011, e Tiago Craveiro, o CEO.

Craveiro, jornalista de formação e há muitos anos envolvido com políticas públicas e entidades esportivas, é daqueles homens que ficam na sombra, sem aparecer, mas com enorme influência em tudo o que acontece no futebol europeu.

Um dos braços direitos de Aleksander Ceferin, o esloveno que preside a Uefa, foi dele a ideia de realizar a Champions em Portugal. Se a competição fosse cancelada, a Uefa teria de arcar com um prejuízo de 1,8 bilhão de euros (mais de 11 bilhões de reais). Com o formato encontrado, o prejuízo cairá para 400 milhões de euros - dinheiro que a Uefa espera recuperar na próxima negociação de direitos de TV.

"Portugal acordou para isso antes. Quando alemães e espanhóis se aproximaram da Uefa para propor algo parecido, o plano de Craveiro já estava apresentado a Ceferin", contou ao blog uma pessoa com acesso direto ao CEO da Federação Portuguesa.

A Alemanha acabou ficando com a Liga Europa, e, a Espanha, com a Champions League feminina.

A Federação Portuguesa foi a primeira relevante a apoiar a candidatura de Gianni Infantino, que acabaria eleito presidente da Fifa. O país também foi dos primeiros a usar o VAR na liga local, agradando os dirigentes. São exemplos do nível profundo de articulação dos dirigentes atuais.

O processo de decisão passava por convencer a Uefa de que seguir com o torneio não significaria gerar um enorme surto de contágios em Lisboa. Foram organizados os protocolos sanitários com as instituições públicas portuguesas e o isolamento dos clubes envolvidos para acomodação e treinamentos com as instituições privadas da região.

Havia, dois meses atrás, quando foi anunciada a Champions em Lisboa, a remota possibilidade de receber torcedores no estádios e girar a economia local. No fim, os estádios estarão fechados e as viagens a Portugal acabarão acontecendo, mas estão sendo inibidas. Ninguém pode impedir um torcedor do Barcelona, digamos, de entrar em um avião e vir a Lisboa, mas não há, entre Uefa e clubes, incentivos, pacotes, etc, para que as pessoas o façam.

O blog apurou, no entanto, que haverá convidados de patrocinadores e clubes dentro dos estádios, nos camarotes. E não será obrigatório o uso de máscaras dentro destes ambientes na Luz e Alvalade, as casas alugadas por Benfica e Sporting para os jogos. Outra decisão que agradou a Uefa foi a articulação com o governo português para que sejam isentos de impostos os premiados na Champions League - clubes e jogadores pagarão impostos em seus países.

Um estudo aponta que a Champions em Lisboa trará aproximadamente 50 milhões de euros para Portugal - número parecido aos ganhos obtidos quando a capital recebeu a final, em 2014. Mas esse dinheiro, que daquela vez ficou com hotéis, restaurantes, transportes, lojas, etc, desta vez ficará essencialmente nas mãos dos clubes que cedem seus estádios e CTs para as sete partidas e para os treinamentos dos oito clubes envolvidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL