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Julio Gomes


Julio Gomes

Saída de Jorge Jesus reacende a arrogância típica do futebol brasileiro

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

19/07/2020 04h00

Estou em Portugal há um mês. A primeira vez que escrevi sobre a pressão por aqui para que o Benfica fosse buscar Jorge Jesus foi em 29 de junho. Sinais. Em 6 de julho, relatei que um amigo próximo de Jesus, que jogou com ele, que foi levado por ele ao Sporting, estava dizendo na TV que o técnico "não havia dito não" ao chamado do Benfica. Sinais. Dois dias depois, escrevi no blog sobre meu espanto por muitos estarem espantados com a possível volta do técnico. Anteontem, veio a confirmação.

Eu e muitos outros colegas estávamos apenas dando informações e fazendo observações. Mas, claro, nas redes sociais somos tratados como "antis", "torcida contra", "mídia paulista", esse monte de baboseira. Está aí o resultado. Para quem gosta de viver na mentira das versões e discursos oficiais, os tombos e surpresas são grandes.

Enquanto aqui em Portugal foram duas semanas tratando a volta de Jesus ao Benfica como "favas contadas", no Brasil a ficha demorou a cair. E, para muita gente, a ficha ainda não caiu.

Muitos seguem sem entender que o lugar do Flamengo no mapa mundial da bola é um, o do Benfica é outro. O lugar do Brasil no mapa mundial da bola é um, o de Portugal, outro. O Flamengo pode até estar em "outro patamar". Mas dentro do quintal dele. O Benfica está em outro quintal, bastante mais rico e relevante.

Talvez isso mude. O mais provável é que não.

A saída de Jorge Jesus despertou novamente aquela arrogância típica do brasileiro, que realmente se acha a última bolacha do pacote quando o assunto é futebol. É curioso, é até paradoxal. Porque a passagem de JJ deveria representar (mais) um banho de humildade. Veio um cara que não é um dos tops europeus e mostrou em poucos meses que ele, sim, é que estava em "outro patamar".

Tem muito técnico brasileiro bom, tem muito técnico ruim. Pouco a pouco, vamos entendendo como ficamos para trás. E como profissionais que vêm de fora podem contribuir para a melhora do nosso futebol.

Mas, quando o assunto é clube, volta com tudo o "complexo do pitbull", que é o inverso do "complexo do vira-lata". E muito torcedor fica simplesmente indignado com uma decisão que nem é assim tão difícil de compreender.

Jorge Jesus tinha descido um degrau ao assumir o Sporting. Outro ao partir para a Arábia. Andou de lado e veio parar no Brasil. Conseguiu ser visto. Reconquistou respeito. Ganhou quase tudo. E voltou para a elite na primeira oportunidade. Como era de se esperar.

O Flamengo e muitos flamenguistas podem se considerar a maior coisa que existe no mundo. Mas não são. E serem preteridos por um clube de Portugal talvez seja um tapa na cara, um choque de realidade. Somos hoje, no máximo, um trampolim.

O futebol brasileiro tem que comer muito arroz e feijão para voltar a ter a relevância que merece. E o Flamengo tem um papel fundamental nisso, diga-se. É uma potência incrível, com uma massa de torcedores e simpatizantes também incrível. Seria muito importante que o clube olhasse para o todo e não apenas para o próprio umbigo.

Neste momento, após um ano de sonhos, parte da nação e do clube parecem embriagados em arrogância e prepotência. Talvez a decisão de Jorge Jesus traga muitos pés, rubro-negros ou não, de volta à terra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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