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Julio Gomes


Por que técnicos brasileiros não passam nem perto de clubes como o Benfica?

Luiz Felipe Scolari, o Felipão, ex-técnico do Palmeiras - Cesar Greco/SE Palmeiras
Luiz Felipe Scolari, o Felipão, ex-técnico do Palmeiras Imagem: Cesar Greco/SE Palmeiras
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

01/07/2020 04h00

O Benfica está sem técnico. Não é exatamente uma potência atual do futebol europeu, ainda que esteja nas páginas principais da história. Mas não seria um belíssimo lugar para um técnico brasileiro?

O Benfica é um gigante em Portugal e estará sempre na disputa dos títulos domésticos com o Porto. Joga para estádios lotados. Está quase sempre classificado para disputar a Champions League, onde a Europa inteira está vendo tudo o que é feito. Estamos falando da elite da elite. O idioma é o mesmo que o nosso, apesar das pequenas diferenças, o que facilita a comunicação. Lisboa é uma cidade de primeiro mundo, de clima ameno e culinária variada.

Quem não pega esse pacote?

Mas o problema para os técnicos brasileiros é outro: ninguém os quer por aqui.

Após a demissão de Bruno Lage, os canais esportivos de Portugal passaram praticamente o dia inteiro com a tarja na tela: "Quem será o próximo técnico do Benfica?".

Olha, é difícil até puxar pela memória a quantidade de nomes que ouvi. O preferido é Jorge Jesus, mas todos sabem que é impossível tirá-lo do Flamengo no momento. Como há muitos técnicos portugueses espalhados pelos grandes centros europeus, muitos nomes "locais" estão sendo ventilados, como Marco Silva, Leonardo Jardim ou Vítor Pereira. Argentinos? Falam de Pochettino, de Gallardo, até de Bielsa.

Mas brasileiros... nada!

Luiz Felipe Scolari até que poderia aparecer nas listas, mas apurei que o nome não passa pela cabeça do Benfica. Felipão toparia na hora um convite. Além de retornar a Portugal, onde brilhou, é respeitado e tem filhos e netos vivendo, seria também mais uma chance de trabalhar no alto nível europeu.

Scolari não é citado nos debates por aqui. Nenhum brasileiro é.

E, por mais que isso não seja surpreendente, não podemos conviver com essa informação considerando-a "normal". Não é normal. Como a escola brasileira chegou a este ponto? Não digo que todos os treinadores brasileiros são uma porcaria. Não é assim. Como já disse e repito, a classe é ao mesmo tempo vítima e vilã, dentro da nefasta roda que gira nosso futebol.

Tem gente boa, sim. Mas para nível europeu?

Só saberíamos se eles viessem. E não será o Benfica a sair arriscando. Os treinadores brasileiros só desbravarão o mercado da elite quando toparem começar de baixo. Quanto toparem ganhar menos do que ganham no Brasil (aliás, nem todos ganham de fato, certo?), quanto fizerem os cursos que precisam ser feitos, quando aprenderem idiomas, quando entenderem que é preciso dar um passo, digamos, para trás, para tentar dar alguns para frente. E para estar entre os melhores, oras bolas!

Faltam ambição e coragem, mais do que oportunidades. Faltam demonstrações de qualidade. Quando estão desempregados, nossos treinadores vêm aqui para passar uma semana vendo treino do Zidane, bater papo com o Ancelotti e tomar cafezinho com o Guardiola, mas não para estudar de fato, para investir na carreira e fazerem cursos da Uefa. Não inspiram confiança ou admiração.

Até mesmo nossos jogadores estão começando a sofrer mais do que no passado, pois chegam aqui com defasagens grotescas na formação. Mas são talentos incríveis, então valem o investimento. Alguns dão certo, outros vão ficando pelo caminho.

De técnico brasileiro, ninguém quer saber. Nem em Portugal.

Julio Gomes