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Julio Gomes


Como Klopp construiu um time multicampeão e devolveu o Liverpool à elite

Torcedores tomam as ruas de Liverpool para comemorar o título do Campeonato Inglês - Peter Byrne/PA Images via Getty Images
Torcedores tomam as ruas de Liverpool para comemorar o título do Campeonato Inglês Imagem: Peter Byrne/PA Images via Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

26/06/2020 04h00

Walk on, walk on
With hope in your heart
And you'll never walk alone
You'll never walk alone

"Caminhe, com esperança no coração. Você nunca caminhará sozinho."

A música, regravada pela banda "Gerry and the Pacemakers", chegou ao número 1 na Inglaterra e passou a ser cantada pelos torcedores do Liverpool no início dos anos 60. Hoje é um hino do clube, que muitos copiam mundo afora.

Alguém lerá o título deste post e rebaterá. O Liverpool deixou de ser elite? Um clube com uma torcida dessas?

Deixou. Ô se deixou. Grandes clubes podem, sim, deixar um passado glorioso para trás e nunca mais resgatá-lo. Outros podem não ter um passado tão brilhante, mas, por um caminho ou outro, chegar à elite. No caso do Liverpool, um gigante inglês e europeu, a queda veio junto com uma nova era do futebol: globalizado, movimentando bilhões, capital internacional, desenhado para entreter pela TV nos quatro cantos do planeta.

Foram 30 anos na fila. Neste período, somente cinco vice-campeonatos. Não é que o Liverpool tenha, digamos, batido na trave seguidas vezes. Foram bons campeonatos aleatórios, como aleatória foi a conquista da Champions League em 2005. Não foi um período que tirou do Liverpool o respeito adquirido nos anos 70 e 80. Mas foi um período que tirou o Liverpool da elite.

Na era Champions League, os Reds nunca fizeram parte daquele grupelho de clubes favoritos ao título só por estarem lá (Real Madrid, Barcelona, Bayern, Manchester United...).

Foi a chegada de Jurgen Klopp que mudou tudo. Com ele, o Liverpool deixou de ter uma camisa só respeitada, voltou a ser temida. O "You'll Never Walk Alone" ganhou ares de intimidação, não só de musiquinha bonitinha cantada por uma torcida simpática e fiel. São trocentos jogos sem perder em Anfield.

Agora sim, pela primeira vez em três décadas, o Liverpool se transformou em uma força consistente do presente, não do passado. Voltou a ocupar o lugar na elite, voltou a ser considerado candidato a qualquer título que dispute. Os vice-campeonatos de Europa League, Champions e Premier, que precederam os títulos das duas competições mais importantes, podem até ter servido para o deleite dos rivais. Mas eram, na verdade, sinais.

Quando um time começa a chegar em finais toda hora, podem apostar que título é questão de tempo. Três, quatro, cinco vice-campeonatos em um certo período de tempo são menos agradáveis para os fãs, mas são um sinal mais importante do que um título aleatório em uma temporada em que as coisas deram certo.

A reconstrução do Liverpool campeão passou pela montagem de um time com a cara de Klopp: intenso. Essa é melhor definição.

Klopp não é Guardiola. Ele não monta times ultracriativos, não inventa. A história com Klopp é a pressão, intensidade máxima o tempo todo. Para times funcionarem assim, é necessário um nível altíssimo de comprometimento, um jogar pelo outro, um saber que vale à pena correr como se não houvesse amanhã porque o cara do lado com a mesma camiseta certamente estará fazendo o mesmo.

Já há tempos eu digo que técnicos dos grandes clubes, com muitos jogadores importantes em mãos, precisam de um desenvolvimento forte no gerenciamento de pessoas. É o que vemos com Zidane no Real Madrid, por exemplo. Treinadores precisam ter o grupo realmente nas mãos, para que possam contar com máxima dedicação e também para que suas decisões não sejam constantemente questionadas, dentro e fora do vestiário.

Klopp é o técnico que qualquer jogador ama ter. É paizão, mas não o paizão que passa a mão na cabeça e que gosta mais de um filho do que de outro. É ultraprofissional, mas entende que sorrir e se divertir são necessidades naturais de qualquer ser humano. É o cara que sofre junto, que comemora junto, é o cara que respeita e conhece os adversários, é um cara confiável.

Quando todas essas premissas funcionam, tudo fica mais fácil. Teve dinheiro para contratar Van Dijk e Alisson? Sim, teve. Porque abriu mão de Coutinho. Para que insistir no cara que não quer ficar? E mais: quantos clubes que conhecemos já não gastaram os tubos em jogadores que não deram certo? Com Klopp, isso é muito difícil acontecer. Porque o jogador já sabe para onde está indo e, se o Liverpool está atrás dele, é porque Klopp quer trabalhar com ele. As características já foram levantadas e estudadas.

Vamos pegar o caso de Fabinho. O brasileiro havia feito temporadas ótimas no Monaco, estava no radar do PSG. Quando chegou ao Liverpool, ficou sem jogar por um bom tempo. Klopp pedia calma. Era outro país, outro futebol, Fabinho precisava de tempo. Não vimos o jogador fazer bico nem pedir transferência. O que vimos foi ele ganhar espaço e compreensão do jogo pouco a pouco, até se transformar em titular indiscutível e peça fundamental.

Isso é confiança mútua de que as coisas darão certo. E adivinhem? Elas dão.

O time de Klopp gosta de imprimir um ritmo alto o tempo todo, do minuto 1 ao 90, independente do resultado. "Manter a mentalidade", o pedido que o alemão já fez publicamente. "Nunca se sabe o que pode acontecer em um jogo de futebol, então tem que fazer as coisas com convicção sempre".

Ele foi buscar jogadores que se adaptassem a isso. A defesa se consolidou com o melhor goleiro e o melhor zagueiro do mundo. Os laterais, Alexander-Arnold e Robertson, são a chave do fluxo de jogo ofensivo. O primeiro, caiu do céu para Klopp, um rapaz de só 21 anos e da base. O segundo, escocês, ele foi buscar no Hull City.

O meio de campo não é de criação, é de pressão e jogo de velocidade. Henderson é um dos pouquíssimos remanescentes desde a chegada de Klopp, é o capitão, é quem pode falar (e fala) sobre a mudança de atitude imposta pelo treinador. Fabinho encaixou perfeitamente, pois adicionou qualidade de passe e alguma criatividade. E aí, claro, o trio de frente. Quando você lê os nomes de Salah, Mané e Firmino e compara com outras linhas de frente poderosas na Europa, talvez cometa o erro de subestimá-los.

Ou talvez nem seja um erro subestimá-los. O erro maior é analisar futebol de forma individual quando o jogo é coletivo. E coletivamente o trio se encaixa de forma brilhante entre eles e com o resto do time. São jogadores de muita velocidade, muita versatilidade, todos capazes de pressionar em busca da bola e, claro, os três são bons fazedores de gols. Assim, o sistema não depende apenas de um ou de outro.

É um sistema que funciona e que não é refém deste ou daquele jogador. Nunca haverá fulano-dependência nos times de Klopp. Há, sim, uma estrutura de trabalho que depende demais do próprio alemão.

O que será do Liverpool depois dele? No mínimo no mínimo, um clube sem o peso das décadas sem ser campeão inglês. Habituado novamente aos grandes palcos, aos títulos, às taças. Uma instituição de volta ao clube do bolinha, à tal elite. E a realidade nem é pensar na saída de Klopp, que ocorrerá um dia. O presente é agora. Klopp está no Liverpool. E a Premier é dos Reds. Vem mais coisa boa pela frente.

Julio Gomes