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Julio Gomes


Sincerão: Castrilli Day. Hoje é aniversário do maior roubo da história

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

26/04/2020 04h00

Hoje é 26 de abril. É o Castrilli Day! A cada ano, é importante lembrar do maior roubo da história do futebol. O dia em que um cidadão veio lá da Argentina para estuprar a Portuguesa na semifinal do Paulistão de 98, inventando um pênalti bizarro para o Corinthians aos 48min do segundo tempo.

No "Sincerão", eu chamei de "maior roubo da história" e, claro, isso virou polêmica. Os corintianos ficaram bravos, torcedores de tantos times lembraram outros assaltos.

Gente, nunca haverá acordo em relação a isso e, nestas horas, a paixão vai ser falar muito, muito, muito mais alto do que a razão. Dois anos atrás, eu escrevi uma carta ao "señor" Javier Castrilli. E publiquei aqui no blog: "Lá se foram 20 anos. E eu te odeio, senhor Castrilli". Recomendo a leitura. Expressei os sentimentos que estavam guardados comigo havia 20 anos, do dia que fiquei mais P... em minha vida. Aquele jogo, eu conto, foi quase que uma despedida minha, saindo do mundo em que eu era 1000% torcedor para o mundo profissional do jornalismo esportivo. Comigo, ter entrado neste mundo teve o efeito paulatino de distanciamento da paixão.

Para minha surpresa, Javier Castrilli respondeu à minha carta. E eu também publiquei a respeitosa resposta aqui no blog: "Javier Castrilli me acordou hoje. E acho que acredito nele". Sigo achando a mesma coisa: Castrilli era o típico árbitro que gostava de ser mais realista que o rei, que gostava de causar, de ser o maior protagonista em campo. Talvez não estivesse no Morumbi determinado a classificar o Corinthians. Mas estava em campo determinado a aparecer. Como sempre.

E acabou operando a Portuguesa, no que se tornou, sim, a arbitragem que gerou maior comoção na história do futebol brasileiro. Porque foi contra um clube que tinha zero rejeição, muito pelo contrário, em benefício de outro que tem, por ser tão popular, uma enorme rejeição. As pessoas "neutras", nem torcedores do Corinthians nem da Portuguesa, ficaram verdadeiramente indignadas.

É claro que já teve muito roubo no futebol. Roubo no sentido metafórico e roubo de verdade mesmo. Mas todos tiveram uma segunda (ou terceira ou quarta ou quinta) chance. O Galo, que lembra daquele jogo contra o Flamengo, seria campeão da Libertadores mais tarde. Itália e Espanha, roubados contra a Coreia em 2002, seriam campeãs das duas Copas seguintes. O próprio Corinthians, prejudicado por Amarilla contra o Boca, vai longe na Libertadores novamente. O Inter, prejudicado em 2005, ganharia duas Libertadores depois daquilo. O Santos, roubado em 95, seria campeão brasileiro duas vezes depois. A Alemanha, prejudicada em 66, ganhou três Copas depois daquilo. Só usando um punhado de exemplos.

Enfim, clubes grandes vão sempre continuar jogando por títulos. Vão perder roubado aqui, ganhar roubado ali. Vão chorar um dia, sorrir no outro.

A Portuguesa, não. O roubo de Castrilli não foi o roubo de um jogo, de uma final. Foi o roubo para sempre. Um roubo sem chance de recuperação, pois era último o lance da partida. E sem chance de redenção do lesado. Foi um roubo definitivo, absoluto. Foi o roubo que selou o destino do clube. Ele tirou da Lusa e dos lusitanos uma chance que eles nunca mais teriam, nunca mais tiveram e nunca mais terão.

Nunca um árbitro prejudicou tanto um time. Na história.

Julio Gomes