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Julio Gomes


Sincerão: Por que eu prefiro tomar umas com Klopp do que com Guardiola?

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

23/04/2020 04h00

A pergunta para o quadro Sincerão era: "com quem você gostaria de sentar no bar para tomar umas e outras?". Puxa, tem tanta gente! Tanta gente interessante no futebol, com coisas para contar e compreensão de que há mais (muito mais) no mundo que sua bolha. Assim como tem muita gente com quem não vale perder nem cinco minutos.

A primeira pessoa que me veio na cabeça foi Guardiola. Ato seguido, pensei em Klopp. No vídeo (acima), eu "penso alto": "será que eu iria me decepcionar com Klopp?". E emendo: "Com Guardiola, certamente iria me decepcionar".

Por que?

Bem, conhecer ídolos pessoalmente pode não ser a melhor experiência do mundo. Ídolos são ídolos pelo que fazem, não pelo que são. Podem se tornar ainda mais ídolos pelo que "parecem ser". O que é diferente de "ser". A imagem raramente é um espelho total da realidade, pois há dezenas, centenas de filtros no meio do caminho.

Minha profissão me permitiu conhecer muita gente. Teve gente de quem eu esperava mais. Teve gente de quem eu não esperava nada e tive gratas surpresas. Isso é normal.

Nunca encontrei Klopp nem Guardiola pessoalmente. Vejo o trabalho deles. Vejo reações, expressões corporais, comportamento durante os jogos. E já vi dezenas de entrevistas, algumas delas exclusivas.

Guardiola é o maior treinador que eu já vi, desde que acompanho futebol. O cara é realmente genial, revolucionário, fora da caixa. Mas não vou negar que muitas vezes ele me passa a impressão de falso humilde. Outras vezes, de alguém acima do bem e do mal um tiquinho além da conta.

Será que, na mesa de bar, com umas cervejas na cabeça e outra na mão, ele seria um cara agradável? Ou um egocêntrico que falaria só dele mesmo e do mundo que gira em torno dele? Iria falar palavrão? Por o dedo do nariz? Contar algum segredo?

Não sei. Simplesmente não consigo imaginar Pep na mesa de bar. Assim sendo, rapidamente penso em uma potencial decepção, caso essa possibilidade impossível se tornasse real.

Klopp me parece ser outro cara. Um cara mais "normal", mais gente como a gente, que não estaria preocupado com o cabelo desarrumado ou a cerveja que alguém deixou cair na mesa e escorreu para o colo dele. Consigo visualizar Klopp em uma mesa de bar falando de seus times, de suas alegrias e tristezas, momentos mágicos e decepções, soltando uma gargalhada, contando piadas, ouvindo as histórias dos outros com o mesmo interesse com que vive os jogos de seus times.

Além do mais, Klopp já expressou algumas opiniões que ele tem sobre política e sociedade que são bastante similares às minhas, ou seja, compartilhamos muita coisa em nossas visões de mundo - acho eu.

Klopp parece ser um livro mais aberto, enquanto de Guardiola, na real, sabemos pouco. Muito menos do que o tanto que falamos dos times dele. Me parece uma figura mais enigmática. Vai que a gente descobre o que não quer...

Julio Gomes