PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Julio Gomes


Se não tem Ronaldo, então quem está no Olimpo do futebol?

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

16/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Olimpo da bola tem 7 nomes que precisam estar em qualquer lista dos melhores
  • Pelé será eternamente o primeiro colocado da lista
  • O Ronaldo que está entre os melhores não é o Fenômeno

O meu "Sincerão" gerou polêmica (vídeo acima), quando disse que Ronaldo Fenômeno era um jogador superestimado. Eu expliquei aqui no blog, em um post ontem, o que quis dizer com isso. E acabei o texto com uma frase: "Acho que muitos o colocam em um Olimpo da bola ao qual ele não pertence". O grande amigo e craque do poker Victão Marques me mandou uma mensagem. "Quem está então no teu Olimpo, Julio?".

Achei justa a pergunta. E resolvi responder para ele e todo mundo. Meu Olimpo está aqui mais abaixo, resolvi fazer uma graça e montar um ranking. São apenas sete nomes.

Qual o meu critério? Como sempre, não é um só. São alguns. Precisa ter jogado muita bola, muita mesmo. Por bastante tempo, de forma consistente. Precisa ser considerado por seus pares. Precisa ser considerado gênio em qualquer lugar do mundo, por qualquer torcedor, não só em seu país de nascimento ou onde triunfou jogando. Precisa ter conquistado muitos títulos relevantes - o jogo é coletivo, mas o indivíduo é fundamental. E precisa, de alguma forma, ter mudado o jogo, ter sido uma influência (até mesmo depois de parar). O futebol sofre grande ou alguma alteração depois da passagem desse cara pelo esporte.

Tem um monte de gente ao longo da história que se encaixa em vários desses critérios, não em todos. Mas, em qualquer top 10 que se faça, em qualquer lugar, os meus 7 estarão.

Ronaldo Fenômeno pode entrar em um monte de top 10, mas não está nesse Olimpo. Para muita gente, está. E é por isso, exatamente por isso, que eu o considero superestimado. É um craque, foi genial, mas, para mim, o descaso com o jogo na segunda metade da carreira e a falta de consistência e títulos de expressão nos clubes, o tiram deste Olimpo. Ele não entra no meu petit comitê de maiores da história.

Está em uma segunda estante, a meu ver. Ao lado de gente enorme. Vou citar alguns por nacionalidade, não por ordem: Romário, Ronaldinho, Garrincha, Zico, Eusébio, Best, Charlton, Henry, Platini, Zidane, Matthaus, Rummenigge, Muller, Batistuta, Puskas, Kocsis, Baggio, Baresi, Maldini, Buffon, Meazza, Van Basten, Bergkamp, Gullit, Neeskens, Xavi, Iniesta, Yashin.

Enfim, tem gente para todos os gostos e faltam vários, apenas puxei pela memória. E puxei a partir do pós-Guerra, meio do século. Tenho perfeita consciência de que, aqui no Brasil, Ronaldo e Zidane seriam destacados desta lista que eu chamei de "segundo patamar" para entrar na lista principal, a do Olimpo. Muitos colocariam Garrincha e Zico também. Muitos colocariam outros tantos brasileiros na listagem acima, afinal, nosso futebol foi realmente dominante entre os anos 50 e 70.

Eu acho que completaria meu top 10 com Romário (memória afetiva?), Zidane e um elemento que não existe: o "zagueiro italiano". Basta escolher um que represente todos.

Gosto de lembrar também que o futebol mudou com a globalização. No século passado, a Copa do Mundo tinha, de fato, um peso maior. Era praticamente o único momento em que estilos e culturas se enfrentavam. Neste século, a Copa e competições de seleções em geral perderam peso e há um torneio que reúne tudo o que há de melhor no futebol (técnicos, jogadores, etc): a Champions League. O futebol era uma coisa meio que amadora, jogado em poucos países, até os anos 70, se expandiu por 20/30 anos e, nos últimos 20/30 se transformou em uma coisa global e que movimenta bilhões.

Zico não precisou ter jogado na Europa para estar em um top 10 mundial. Mas, neste século, a coisa mudou. É preciso, sim, se provar no supra sumo da bola, no mundo de clubes europeus.

O Olimpo, para mim, é este aqui:

Schirner/ullstein bild via Getty Images
Imagem: Schirner/ullstein bild via Getty Images

1- PELÉ

Acho que não preciso falar muito. Pelé é o maior brasileiro de todos os tempos, basta pisar fora do país para entender do que estou falando. Foi o maior jogador de todos no período único da história em que um país dominou completamente o esporte mais popular do planeta. Nunca haverá um domínio como o do Brasil, portanto não há nem margem para haver outro Pelé. O homem que mudou o jogo com seu atleticismo. que parou guerras, que mudou o destino de uma cidade, que determina a imagem do país no mundo. E que ganhou tudo. Não é à toa que, a cada gênio que aparece, falamos que é "o Pelé do seu tempo" ou "o Pelé de tal esporte" ou "o Pelé do violino", etc.

LLUIS GENE / AFP
Imagem: LLUIS GENE / AFP

2- MESSI

Não, ele não precisa de uma Copa do Mundo. Seria bom, claro. Mas não rolou, bateu na trave. Levem em conta que todos nós vimos praticamente todos os jogos da vida de Messi, o que não foi possível com a enorme maioria dos outros nomes citados mais acima ou abaixo. Quantos jogos ruins de Messi vocês viram? O cara é simplesmente um ET e o jogo de pressão passou a ser outro para os atacantes depois de verem o melhor do mundo fazer todo o trabalho tático demandado por seus técnicos. Respeito os argentinos que irão me xingar, mas Messi passou Maradona faz tempo.

3- CRUYFF

What? Aqui estou dando um peso extraordinário para a influência que Hendrik Johannes Cruyff exerceu e exerce no futebol mundial. Vamos nos lembrar que ele se encaixa nos critérios todos ali, jogava muita bola, foi multicampeão, é reconhecido mundialmente, etc. Não ganhou a Copa, assim como Messi. Mas é um símbolo da entrada da Holanda no jogo, e esta é a escola mais influente que o mundo já viu - a catalã, por exemplo, é um desdobramento. Cruyff é o futebol total. O jogo que se joga hoje... é o total. Cruyff é o nome invisível por trás de quase tudo o que vemos dentro de campo hoje em dia.

4- MARADONA

Não preciso criticar nada em Maradona para justificar a quarta posição, em vez da tradicional segunda. O ranking aqui importa pouco, na real. Estamos falando do Olimpo da bola, da nata da história do jogo mais fundamental do planeta. Maradona ganhou uma Copa de uma maneira que nunca ninguém havia feito e possivelmente fará. Sua influência no esporte não é determinante, como a de Cruyff e Messi, mas a inspiração que sua figura gera é a alma do futebol. Maradona é, de longe, mas de muito longe, a figura futebolística mais endeusada e romantizada da história do jogo. É para poucos. É para ele, apenas.

5- BECKENBAUER

Este homem não é somente um ex-jogador brilhante ou ex-técnico vencedor. Ele é a personificação de uma escola que consegue simplesmente atravessar a história ganhando e se adaptando. Se alguém falar que a Alemanha é que é, na verdade, o país do futebol, será difícil contestar. Dá umas cinco horas de debate na mesa de bar. Beckenbauer, que jogou muita bola, ganhou muita coisa, etc, simboliza a perseverança alemã, a qualidade de jogo aliada ao foco, ao comprometimento com o esporte e com a vitória. Assim como Cruyff, tornou-se posteriormente uma figura influente demais nos destinos do esporte.

6- DI STÉFANO

Antes do futebol total, havia o jogador total: Alfredo Di Stéfano, mezzo argentino, mezzo espanhol. A peça fundamental que transformou o Real Madrid no que é hoje: o maior clube de futebol do mundo. Como já disse - e repito -, para estar no Olimpo é necessário extrapolar os limites normais de um jogador de futebol. Quem viu Di Stéfano, o coloca no topo do topo do topo do topo, incluindo Pelé. Eu não vi, mas respeito a história.

7- CRISTIANO RONALDO

É claro que este será o nome mais contestado da lista. Porque o português se considera o dono do talento. Se o cara não sabe fazer embaixadinha com as costas, com uma venda nos olhos e as pernas amarradas em uma árvore, ele não presta. Bem. Eu escolhi uma foto representativa de Cristiano Ronaldo, para acabar desde já com o debate sobre ser ou não ser talentoso. CR7 é simplesmente um monstro do esporte, o maior goleador da era global do jogo. Sabem o que ele tem que os outros desta lista não tiveram? Marcou, goleou e ganhou em lugares diferentes, ligas diferentes, times diferentes, estilos diferentes. Ele não é o único jogador da história a se adaptar e mudar o posicionamento ao longo dos anos. Mas fazer isso e se manter no altíssimo nível é para pouquíssimos. Ele é a definição de máquina. Tem quem veja como um problema. Eu, não.

Se o nosso Ronaldo tivesse tido o mesmo comprometimento com o jogo e com o corpo que tem o portuga Ronaldo, ele certamente estaria no Olimpo. Mas não teve. Quem está no Olimpo é quem está há 17 anos ajudando seus times, companheiros e treinadores a ganhar títulos. Lembrem-se, longevidade é um critério. Ele é o mister consistência. Cristiano Ronaldo elevou o patamar de uma palavrinha: profissionalismo.

Bons comentários a todos!

Errata: o texto foi atualizado
Diferente do que foi informado, Cristiano Ronaldo é português, e não brasileiro. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Julio Gomes