PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Julio Gomes


Por que o futebol e outros esportes devem e vão voltar

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

03/04/2020 10h08

Resumo da notícia

  • Europa e EUA ainda viverão picos devido ao coronavírus
  • Mas é possível que em junho a coisa esteja mais controlada
  • O futebol será uma importante ferramenta de tranquilidade social
  • A casca de banana será convencer os jogadores a se sacrificarem

Tentar prever quando o futebol será retomado mundo afora é um chute. Mas vou dar o meu, baseado em tudo o que tenho lido, as declarações de dirigentes e as curvas de contágio e morte devido ao coronavírus.

A Europa seguirá em lockdown durante abril e boa parte de maio. As curvas vão baixar. Em junho, já com calor e populações psicologicamente abatidas, os governantes tentarão, pouco a pouco, retomar várias atividades. Entre elas, o futebol. Lá para o meio/fim de junho, as Ligas são retomadas e, até o fim de julho, saem os campeões. Tudo isso com portões fechados. Acho que um calendário parecido será colocado em prática na NBA.

E lá para frente, quando recomeçar o futebol europeu e quando tivermos o início da NFL, estamos falando de setembro/outubro, acredito que não haverá estádios nem cheios nem vazios. Com alguma capacidade entre 10 e 30%, evitando que pessoas fiquem aglomeradas. Uma situação intermediária, com controles de febre, excesso de higiene, etc. Por exemplo, em um estádio com capacidade para 40 mil pessoas, colocarão para dentro uns 5 mil espalhados pelos setores, com X cadeiras de distância entre eles.

E no Brasil? Estamos algo entre um e dois meses atrasados, então nossos picos serão em maio e junho, no inverno. Nosso calendário é bem mais complexo, na Europa, quer queira quer não, os campeonatos estavam já na reta final. Aqui é mais difícil imaginar o que pode acontecer, até porque tem muito incompetente tomando conta de clubes, federações e até do país. Os discursos aqui são antagônicos, então é bem capaz que tentem retomar até alguns estaduais logo mais.

Mas Julio.... como o futebol pode voltar? A prioridade não é a saúde das pessoas?

Sim. Inclusive a saúde mental. O futebol é uma parte importante demais em muitas sociedades europeias e latino-americanas. E outros esportes ocupam esse espaço nos EUA e outros países. A vida do confinamento não seria muito mais suave se houvesse eventos esportivos nas TVs? E seus respectivos programas de debates, análises, etc, etc, etc.

Eu acredito que, por essa razão, o futebol vai voltar. Governantes perceberão a importância de retomar eventos esportivos para tranquilizar e dar entretenimento para as pessoas. Talvez, pensando em Europa, as quarentenas sejam relaxadas no verão, quando os sistemas de saúde estiverem um pouco menos sufocados. Ainda assim, o mundo não voltará ao normal de uma vez. Muitos milhões de pessoas ainda terão de ficar em casa, seja para trabalhar à distância seja por uma quarentena devido ao próprio contágio.

O futebol é parte importante deste controle social.

A Premier League inglesa, por exemplo, já pensa até em fazer sua reta final na China - não poderia haver ironia maior. A Bélgica já anunciou o fim da temporada e deu o título ao Brugge, que liderava com fola - ninguém gostou, a começar pela Uefa, que fala em não dar vagas nos europeus 20/21 para Ligas inacabadas.

E os jogadores no meio de tudo isso?

Essa será a grande conversa quando estivermos lá em junho. Certamente haverá atletas incomodados em terem de voltar ou até se recusando. Há esportes e esportes, convenhamos.

No tênis ou no beisebol, é muito mais fácil haver um distanciamento entre os atletas e veríamos algumas mudanças de hábitos. No tênis, por exemplo: fim do cumprimento na rede e cada um que pegue sua própria toalha. Pegadores de bola com luvas. No futebol ou no basquete, o contato corporal é muito maior.

Possivelmente seriam necessários grandes controles dentro dos próprios clubes em relação a atletas e funcionários. Haverá times super afetados, com quatro, cinco jogadores fora de uma partida X. Sim, os atletas seriam os "sacrificados". Vai ter gente reclamando. E vai ter gente alegando: eles ganham bem para isso e não estão no grupo de risco. Vai até ter gente falando que "atleta não pega". Será um debate quente.

A Europa não é uma massa uniforme, haverá países mais ávidos em voltar ao "normal", outros mais sérios em suas decisões em relação à saúde pública. É capaz que um campeonato volte, outro não.

Mas acredito que, no fim das contas, pelo bem geral das sociedades como um todo, dentro de algo entre dois e três meses, voltaremos a ver bola rolando. Não que eu concorde com tudo isso, é apenas o que acho que vai acontecer.

Julio Gomes