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Julio Gomes


Dez anos atrás, um vulcão de nome esquisito mudava o destino da Champions

O Eyjafjallajökull mostrou ao mundo o que as cinzas vulcânicas são capazes de afetar pessoas a quilômetros de distância. As nuvens densas expelidas por esse vulcão da Islândia mergulharam a Europa em um caos aéreo em março de 2010, após obrigar o fechamento de aeroportos em vários países e o cancelamento de milhares de voos. Martin Rietze fez essa foto do glaciar Solheimajökull, cerca de 60 quilômetros de distância do vulcão - Martin Rietze
O Eyjafjallajökull mostrou ao mundo o que as cinzas vulcânicas são capazes de afetar pessoas a quilômetros de distância. As nuvens densas expelidas por esse vulcão da Islândia mergulharam a Europa em um caos aéreo em março de 2010, após obrigar o fechamento de aeroportos em vários países e o cancelamento de milhares de voos. Martin Rietze fez essa foto do glaciar Solheimajökull, cerca de 60 quilômetros de distância do vulcão Imagem: Martin Rietze
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

24/03/2020 04h00

Fale rápido: o Eyjafjallajökull entrou em erupção!

Desculpem, mas duvido até que os islandeses consigam falar fácil, de bate pronto. Impossível! Deve ser o nome próprio com maior quantidade de control+c control+v da história, porque o nome desse vulcão é simplesmente impronunciável e tem letra demais para saber escrever.

Mas o glorioso Eyjafjallajökull (control+v!) entrou para a história. Poucos deram bola quando, em 20 de março de 2010, há exatos dez anos, ele entrou em erupção na Islândia. A fumaça foi gigante, os ventos não ajudaram, as cinzas tóxicas sobrevoaram a Europa, e o vulcão acabando gerando caos no continente.

Claro que o coronavírus está aqui (e ali e ali e lá e acolá) para nos mostrar que caos de verdade é outra coisa. Mas, dez anos atrás, os problemas gerados pelo Eyjafjallajökull foram consideráveis. Mais de 100 mil voos foram cancelados, afetando mais de 10 milhões de passageiros e gerando um prejuízo estimado de 1,7 bilhão de dólares para o setor aéreo. O impacto se estendeu a outras indústrias, inclusive fora da Europa, e houve uma enorme quantidade de eventos culturais e esportivos cancelados.

Aproveito o aniversário da erupção para lembrar de um evento esportivo que NÃO foi cancelado - mas que deveria ter sido.

Semifinais da Liga dos Campeões da Europa. Jogos de ida, Inter de Milão x Barcelona, Bayern de Munique x Lyon.

Devido ao fechamento do espaço aéreo europeu, o Barça precisou fazer uma viagem de 1000 km de ônibus até Milão. O Lyon, um pouco menos: 700 km até Munique. O Bayern ganhou as duas partidas contra o Lyon, então pouco se fala deste duelo.

Já o outro...

Era o mês de abril, o vulcão não descansava, voos eram cancelados e o Barcelona esperava que a Uefa encontrasse uma nova data para a partida contra a Inter de Milão. O tempo foi passando, a Uefa manteve o jogo, e o Barça precisou encontrar uma solução. Para piorar as coisas, havia uma greve de ferroviários na França, o que inviabiliza a viagem de trem.

No domingo à tarde, dois dias antes do jogo, o Barcelona saiu de ônibus rumo a Milão. Percorreu 634 km até Cannes, na Riviera francesa. Os jogadores dormiram lá e, na segunda, seguiram mais 351 km até Milão. Dias que seriam de treinos, estudos e concentração viraram dias de um deslocamento nada usual para um time de futebol. Na terça à noite, teve jogo.

A partida foi desastrosa para o Barcelona, de Guardiola. A Inter era treinada por José Mourinho e impôs um ritmo forte do início ao fim. Ainda assim, o Barça saiu na frente - para levar a virada, perder por 3 a 1 e reclamar da arbitragem. "Ainda vão dizer que tenho um amigo no vulcão e que eu provoquei a erupção", ironizou Mourinho após a partida. "(O Barcelona) é um clube que ganha sempre e às vezes não sabe perder".

Mourinho havia trabalhado no Barcelona, uma história já bem conhecida de todos, como auxiliar de Bobby Robson, nos anos 90. Como não teve espaço no clube catalão, foi alçar voo solo, conquistou a Champions com o Porto e acabou no Chelsea. Ali, começaram os duelos tensos entre ele e o Barça. Naquela semifinal de 2010, entre Inter e Barça, o jogo de volta acabou com vitória por 1 a 0 do time de Guardiola, que não foi suficiente para reverter o placar do "jogo do vulcão".

A comemoração efusiva de Mourinho no Camp Nou praticamente eliminou para a eternidade qualquer chance de vê-lo como técnico do Barcelona. Ele seria campeão europeu com a Inter e imediatamente anunciado pelo Real Madrid - e aí vieram os anos que marcaram o ápice das hostilidades Mou-Barça.

O Barcelona de Guardiola ganhou as Champions de 2009 e 2011, perdeu as de 2010 e 2012. Durante estas quatro temporadas, foi o melhor time do mundo. Talvez a longa viagem de ônibus tenha sido o detalhe decisivo para a Inter fazer o resultado que fez na partida de ida, em Milão. Talvez não. Nunca saberemos.

Mas, no nível altíssimo do futebol europeu, em uma semifinal, qualquer detalhe importa. Talvez fisicamente todos os jogadores que atuaram naquela partida estivessem bem. Mas, psicologicamente, o time de Guardiola sentiu. Entrou em campo com a justificativa pronta em caso de mau resultado.

Naquela altura, só mesmo um vulcão para parar um time com Messi dez anos mais novo.

Julio Gomes