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Julio Gomes


Mourinho e seu ônibus enferrujado precisam de uma revisão

Técnico do Tottenham, José Mourinho  - Andew Couldridge/Action Images via Reuters
Técnico do Tottenham, José Mourinho Imagem: Andew Couldridge/Action Images via Reuters
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

10/03/2020 04h36

Quando o Tottenham entrar em campo nesta noite de terça na Alemanha, para enfrentar o RB Leipzig (17h de Brasília), José Mourinho estará a 90 minutos de colecionar mais um fracasso no clube que assumiu há poucos meses.

Outrora um dos técnicos mais temidos e respeitados da Europa, Mou não conseguiu tirar a roupa do personagem em que se transformou ao longo da década. O cara capaz de ganhar a Europa com clubes como Porto e Inter e capaz de desafiar o que talvez tenha sido o maior time da história virou apenas o cara que... estaciona ônibus na frente do gol.

Se o futebol reativo poderia ser visto como único recurso naquelas situações de enfrentamento com o Barcelona, no início da década, por que não abandoná-lo em outras situações? Por conceito mesmo ou por incapacidade?

Guardadas as devidas proporções e diferenças óbvias, inclusive de estilo, a trajetória de Mourinho lembra demais a de Luxemburgo. Um técnico gigantesco que em algum momento achava que tudo sempre continuaria funcionando da mesma maneira, pouco preocupado em se moldar às novas realidades.

O futebol europeu, dinâmico e cheio de grandes profissionais, simplesmente engoliu José Mourinho e o jogo quadrado de seus times. Ele é um vencedor, claro que é, ainda consegue e conseguirá taças na marra, mas dificilmente voltará a se sentar em um banco de reservas dos clubes mais poderosos do mundo. Não sem uma total repaginação.

Depois da derrota por 1 a 0 em casa, o Tottenham vai a Leipzig amargando uma sequência de cinco jogos sem vitórias, a oitava posição na Premier e uma traumática eliminação da Copa da Inglaterra no meio disso.

O técnico do time da Red Bull é Julian Nagelsmann, de 32 anos. Tinha só 16 quando Mourinho conquistava sua primeira Champions. Um cara de times agressivos e ofensivos, que na primeira temporada em Leipzig está disputando pau a pau o título da Bundesliga e a ponto de chegar entre os oito da Europa. Um futuro treinador do Bayern, talvez da seleção alemã.

Hoje, se você fosse dirigente, apostaria no promissor Nagelsmann ou no motorista de ônibus de passado glorioso e futuro duvidoso?

O pepino com Mourinho é desempenho mesmo. São as dúvidas sobre se seus times são capazes de jogar algo parecido com o futebol que vemos nos melhores clubes europeus.

Em termos de resultado, ele ainda tem que ser considerado competitivo. Desde o título de 2010, com a Inter, Mourinho disputou seis Champions e chegou a quatro semifinais. Desde o título de 2011, Guardiola, a título de comparação, disputou sete Champions e chegou a quatro semis. Nenhum deles voltou à final.

Mas Guardiola segue sendo um gênio da classe, campeão com recordes e mais recordes com o Bayern e com o Manchester City. Nunca foi demitido, escolhe para onde quer ir. É objeto de desejo de grandes clubes, inspiração para técnicos mundo afora.

Mourinho, que 15 anos atrás colocava Porto e Chelsea para jogar para frente, foi engolido pelo personagem. A necessidade de montar retrancas para parar o Barça tomou conta do português, que nunca mais conseguiu sair dessa espiral.

É verdade que ele recolocou o Real Madrid nas semifinais europeias (após seis anos seguidos com o clube sendo eliminado nas oitavas). Não passou disso em suas três temporadas por lá, mas pavimentou o caminho para os títulos que viriam com Ancelotti e Zidane. Foi Mourinho quem buscou Modric, por exemplo.

Ganhou uma liga doméstica com o Madrid, feito repetido com o Chelsea, em 14/15. Também foi a uma semi europeia na segunda passagem pelo Chelsea. E, com o Manchester United, conquistou Europa League e foi vice da Premier.

Como eu disse, ele ainda pode bater no peito, poucos têm o seu curriculum. Mas a última imagem nos dois clubes ingleses foi a da demissão no meio da temporada, a incapacidade de fazer times jogarem bola e de fazer jogadores jogarem por ele, como no passado. Talvez por isso esteja tentando mudar essa imagem de carrancudo e ultrapassado, mostrando-se mais leve no relacionamento com atletas e imprensa.

O Tottenham terá de jogar uma bola redondinha, apesar de tantos desfalques, se quiser voltar classificado de Leipzig. Não tem nenhuma pinta que o fará. O ônibus de Mourinho está enferrujado, ele e seu motorista precisam de uma revisão.

Julio Gomes