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Julio Gomes


'Caso Ronaldinho' e a lição para Messi, Neymar e seus entornos parasitas

Ronaldinho e Assis chegam algemados para audiência no Paraguai -
Ronaldinho e Assis chegam algemados para audiência no Paraguai
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/03/2020 11h58

Ronaldinho Gaúcho é o bruxo. Para mim, um dos jogadores mais importantes que o futebol brasileiro já teve, por mais que a lista de títulos e de anos no profissionalismo de altíssimo nível não sejam assim tão grandes como de outros.

Ronaldinho é dos poucos brasileiros que pode presumir de ter mudado o destino de um clube. Ele mudou o Barcelona. A imagem carrancuda do clube foi trocada pelo sorriso. As derrotas e a freguesia histórica para o Real Madrid foram trocadas por vitórias, títulos e aplausos no Bernabéu.

Ronaldinho era irreverência sem humilhação, era humilhação com humildade. Magia em campo. E o sorriso. Sempre o sorriso.

Sinto-me um felizardo por ter vivido de perto Ronaldinho no Barcelona. 2004, 2005, 2006, 2007. Eu morava em Madri, mas vivia na ponte aérea, pois aquele Barça era a melhor história a ser contada.

Em 2008, antes de voltar ao Brasil, eu fui a Milanello para uma entrevista, nem lembro com quem. No caminho, parei em San Siro, comprei uma camisa branca do Milan. Quando estacionei o carro no CT, chorei bastante, porque sabia que não voltaria lá por muito tempo (de fato, nunca mais voltei), era um ciclo da minha vida que me encerrava. Fiz o que tinha que fazer. E, antes de ir embora, peguei a camisa e pedi para Ronaldinho assiná-la. Eu precisava levar comigo algo além do que reportagens, entrevistas e textos. Aquele tinha sido o personagem mais importante e bacana com quem eu tinha convivido.

Ele escreveu assim. "Obrigado pelo respeito".

Sempre torci por ele. Torci por ele na seleção, no Flamengo, no Galo.

Uma pena que ele foi quem não se deu o respeito.

Esta matéria do UOL Esporte traz as confusões em que ele se envolveu nos últimos anos. Uma tristeza.

Lembro-me de achar muito pouco profissional o entorno de Ronaldinho. Muito amigo, muito primo, muita gente vivendo às custas dele, os famosos chupins, os parasitas. Tem um termo novo hoje em dia, né? "Parças". Encontrei seu irmão apenas uma vez, Assis, no dia em que fiz uma exclusiva com Gaúcho em Barcelona, durante a gravação de um comercial. É muito complexo julgar alguém que você não conhece muito bem. Mas a impressão que eu tive: alguém de valores discutíveis, de nível não lá muito alto e que ia tentar explorar ao máximo o fato de poder gerenciar a carreira do irmão, que, por sinal, era o melhor do mundo.

Estou aqui falando que Assis é bandido? Não. Estou falando aqui que minha surpresa é próxima do zero ao vê-lo algemado.

A imagem é forte, sem dúvida. A imagem destrói o que Ronaldinho construiu com sua postura dentro de campo. A magia, o sorriso, os gols, tudo isso vai continuar para sempre gravado para quem viu, de perto ou de longe. Mas, em termos de marketing... quem vai querer atrelar sua marca a ele após esse rolo paraguaio?

Eu não sei que tipo de negócio Assis foi fazer no Paraguai, levando o irmão a tiracolo. Mas sei que não haverá muitos mais negócios a fazer depois disso.

Ronaldinho é "tonto", como disse o advogado? Eu diria para vocês que sim. Sempre me pareceu um cara meio alienado, alheio. Um baita gente boa, mas que resolveu terceirizar a vida para a figura paterna que o irmão representava.

Alguma semelhança ocorre para vocês? Garoto, bom de bola, meio moleque demais, que parece não amadurecer, que coloca tudo nas mãos de um familiar...

Eu vejo um zilhão de paralelos entre Assis e Neymar pai, Ronaldinho e Neymar Jr.

Os negócios para lá de duvidosos, a falta de ética, problemas com o fisco, decisões erradas de carreira, a redoma montada em volta, os parças, a superproteção, os elogios vindos de outros jogadores, o linguajar, a imagem de jogador pouco comprometido. Há muitas semelhanças. E há, claro, também algumas diferenças, principalmente na postura dentro de campo. Aliás, eu diria que essa diferença é fundamental - hoje, estamos todos lamentando o que aconteceu com Ronaldinho. Se os Neymares aparecessem algemados, não veríamos só lamentações.

Mas aqui estou tratando das semelhanças.

Não é só Neymar que terceiriza tudo. O próprio Messi já andou rodando em tribunais para explicar sobre o que faz com o dinheiro, tem um pai com toda a pinta de ser picareta, um irmão, dizem, pior ainda. E está cheio de jogador na mesma situação, especialmente brasileiros, gente que pega um foguete da pobreza ao estrelato, tem dificuldades para gerenciar tudo isso e para escolher em quem confiar.

Outro dia estava vendo um brilhante documentário da ESPN sobre Michael Vick, ex-quarterback da NFL, um exemplo de carreira promissora jogada na lata do lixo. São histórias cheias de paralelos.

O que está acontecendo com Ronaldinho no Paraguai deveria servir de alerta para todos eles.

"Manter o foco no futebol" não pode ser desculpa para jogar tudo nas mãos de "pessoas de confiança". Eu também mantenho o foco no meu trabalho e cuido do meu dinheiro. Você aí que está lendo, também. Não são coisas excludentes. Esses jogadores já ganham muito dinheiro, não precisam virar biliardários. Não precisam se envolver em negócios duvidosos. Não deveriam terceirizar tudo às cegas, mesmo que para familiares.

Não quero aqui ser o juiz que vai inocentar um, botar toda a culpa no outro. Mas, quando tudo isso passar, já era hora de Ronaldinho viver uma vida sem parasitas.

Julio Gomes