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Julio Gomes


Convocação de Tite é previsível, mas não tem como fugir disso

Tite, técnico da seleção brasileira - Felipe Moreno / MoWA Press
Tite, técnico da seleção brasileira Imagem: Felipe Moreno / MoWA Press
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

06/03/2020 12h04

No Bandsports News Debate, programa que tem minha presença às segundas e quartas, eu resolvi arriscar adivinhar a convocação de Tite. Coloquei 22 nomes no papel, não quis perder tempo com o terceiro goleiro. Acertei 20. Errei um lateral esquerdo, pois achei que Filipe Luís continuaria, e fiquei surpreso com Éverton Ribeiro (falo mais abaixo).

Tite é previsível.

E isso não é ruim, pelo contrário. Um dos problemas da seleção brasileira é a mudança constante demais de ideias e intenções. A cada troca de treinador, invariavelmente após alguma derrota, o novo entrava com uma obrigação secreta de mudar tudo.

O futebol brasileiro é forte, as seleções vão ser sempre fortes e candidatas. O mais importante é definir uma ideia de jogo e manter alguma estabilidade. Isso aumenta as chances de vitória, hoje em dia entrosamento e conhecimento mútuo entre técnico e jogadores são coisas mais valiosas do que a suposta vantagem técnica que alguns acham que o Brasil ainda tem.

Como Tite já tem bagagem e anos no cargo, já conhece muitos jogadores, ele já tem informações suficientes para restringir seu grupo e ficar menos suscetível a quem está bem, quem está mal.

A história de "tem que convocar quem está melhor" sempre me incomodou. Em alguns momentos, isso até pode acontecer, quando um jogador está simplesmente bem demais - como Gabigol e Bruno Henrique. Mas há muitos fatores importantes além do momento.

Está claro que a casca de banana para Tite é a lateral direita. Daniel Alves nem de lateral está jogando mais e terá 39 anos na próxima Copa do Mundo. Ele serve? Claro que serve. É um jogador importante para o grupo, ainda tem bola (foi destaque da Copa América ano passado) e não terá problema algum para jogar como lateral. Mas é necessário encontrar um substituto, e Danilo não é a resposta.

Tite poderia em algum momento testar jogar sem um lateral ofensivo, com um zagueiro por ali. Militão poderia ser uma opção. Fabinho também já jogou por ali.

Thiago Silva terá 38 anos na Copa, dificilmente chega lá, mas é igualmente importante hoje em dia e tem substitutos mais óbvios para a Copa do Catar.

A única surpresa da convocação, e meu ver, é Éverton Ribeiro. Para mim, um jogador do tipo Danilo (o "Zidanilo", ex-Corinthians e São Paulo). Muito útil, vencedor por onde passa, 'ótimo jogador, mas preterido na seleção por não ter o brilho ou a juventude de outros. É legal que Éverton tenha sido convocado, é uma espécie de justiça histórica.

Mas tampouco vejo Éverton Ribeiro, que terá 33 anos e meio, cumprindo todo esse ciclo que agora se inicia. Para mim, a convocação passa muito mais por encontrar uma opção a Philippe Coutinho, que simplesmente não é confiável.

O grupo de jovens meio-campistas é muito forte, além de jovem. Arthur, Bruno Guimarães, ainda tem Gerson, Matheus Henrique. No futebol de hoje, cada vez mais jogadores como eles têm papel defensivo e também ofensivo, o que pode ser a solução ao "problema Coutinho".

Alguém vai reclamar da ausência de um ou de outro, mas não tem como fugir disso. Era fácil imaginar a convocação de Tite.

Julio Gomes