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Julio Gomes


Estreia mostra que favoritismo do Flamengo é tão real quanto irrelevante

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

05/03/2020 04h00

A estreia do Flamengo na Libertadores da América, com a vitória por 2 a 1 sobre o Junior Barranquilla, na Colômbia, foi um cartão de visita e tanto na tentativa de conquistar o bicampeonato.

A Libertadores é uma Copa especial, muito menos linear que a Champions League, sua irmã europeia. Aqui, como lá, há um grupo de favoritos, os mesmos de sempre. Mas aqui, ao contrário de lá, o abismo entre favoritos e não-favoritos não é tão profundo. E aqui, ao contrário de lá, há estádios mais hostis e arbitragens mais voláteis.

O Junior Barranquilla não vai chegar a lugar nenhum, mas, assim como o Emelec, nas oitavas do ano passado, e assim como o Independiente del Valle, na disputa da Recopa, apresentou problemas ao timaço do Flamengo.

Em momentos do duelo, o Flamengo jogou de uma maneira pouco agradável, contra o próprio campo, precisando se defender com linhas baixas. Não é fácil trocar quatro elementos do sistema defensivo e manter o alto nível. Ganhou o jogo por 2 a 1, poderia até ter vencido por mais, se Gabigol tivesse um pouquinho mais calibrado, mas poderia nem ter vencido - o primeiro gol flamenguista nasce em lance irregular e Diego Alves fez três defesas importantes.

No fim, falou mais alto a qualidade flamenguista, e é por isso que alguns times são considerados favoritos, e outros, não.

Mas ficou provado aquilo que já estamos carecas de saber (talvez eu mais careca do que a maioria de leitores). Os jogos de Libertadores da América são casca de ferida, podem ser bastante chatos. Camisa não ganha jogo, tem que ir lá e conquistar o que você quer, nada vem de graça.

O favoritismo do Flamengo é real? Sem dúvida.

Assim como o River Plate era o time a ser batido no ano passado, desta vez o time a ser batido é o Flamengo. O atual campeão, com os melhores jogadores e com continuidade.

Mas o mata-mata equilibra muito as coisas, e o futebol sul-americano é simplesmente volátil demais para fazer qualquer previsão sobre o segundo semestre. Nem mesmo o futuro de Jorge Jesus está definido. Há lesões, cansaço, mercado. Como estarão Boca e River? Palmeiras, Grêmio, Inter e até o São Paulo podem estar fortes o suficiente para ir longe. Sem contar os times de outros centros, com seus estádios cheios e condições de jogo específicas. No mata-mata, pequenos erros podem ser fatais.

Ontem, os pequenos erros do Flamengo não tiveram consequências. Mas já pudemos ver que o Flamengo ganhou status no continente - a comoção de torcedores jovens por Gabigol foi impressionante - e que todos os adversários farão "o jogo da vida" contra a constelação de Jesus.

O favoritismo está aí. Mas ele é tão real quanto irrelevante. Cada jogo é jogado e, lá na frente, haverá times mais preparados para enfrentar o Flamengo do que no ano passado. Culpa do próprio Flamengo, que elevou a competição para "oto patamá".

Julio Gomes