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Julio Gomes


Por que Messi tem menos Champions do que deveria?

Messi lamenta chance perdida na partida contra Liverpool, pelas semifinais da Champions, ano passado - Phil Noble/Reuters
Messi lamenta chance perdida na partida contra Liverpool, pelas semifinais da Champions, ano passado Imagem: Phil Noble/Reuters
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

25/02/2020 03h12

A pergunta incomoda principalmente o torcedor do Barcelona. "Poxa, temos o melhor do mundo há quase 15 anos, deveríamos ser campeões da Europa ano sim, ano também".

Quando pisar no gramado do estádio San Paolo hoje (a partir das 17h), em Nápoles, a casa de Maradona, Messi recomeçará a luta para levar o Barça ao topo do mundo.

Maradona jogou duas vezes a antiga Copa dos Campeões com o Napoli e não passou nem perto de ser campeão. Eram outros tempos, em que só, de fato, os campeões nacionais tinham direito de disputar o título máximo do continente. Hoje, muitos se classificam e clubes como o Barcelona não ficam de fora.

Desde que estreou no time principal, um pouco mais de 15 anos atrás, Messi jogou todas as edições da Champions League. Ganhou quatro. Uma como coadjuvante do time de Ronaldinho (2006), outras três como ator principal (09, 11 e 15). O pepino é que lá se vão quatro Champions seguidas sem o Barça chegar à decisão - nas últimas duas, foi eliminado por Roma e Liverpool após ter construído ótimo resultado na ida e ser goleado de forma inexplicável nas partidas de volta.

Quando olhamos para a história, enxergaremos apenas uma final e um título do Barcelona nas últimas 8 temporadas - foi em 14/15, na primeira temporada com o trio Messi-Suárez-Neymar junto.

Somente 11 jogadores na história ganharam cinco ou mais Copas da Europa. Depois dessa turma, vem Messi e mais um monte de gente, com quatro. Ou seja, não é pouco, dirão muitos. Caramba, o cara ganhou quatro Champions!

Mas estamos falando de Messi. De um ET que passa o ano fazendo gols, dando passes de gol, enchendo os olhos do mundo inteiro. Sim, o Barça deveria ter feito mais.

Quais as razões de apenas um título nos últimos oito campeonatos?

É fato que, de alguns anos para cá, Messi passou a ser um jogador menos intenso em termos de pressão e desmarques. Recebe mais bolas no pé (e faz as coisas acontecerem, lógico, como gênio que é). Mas corre menos, faz um jogo menos dinâmico coletivamente. A consequência disso é que ele precisa de mais ajudas. E aí o Barcelona pecou demais.

O trio MSN jogou mais duas temporadas junto - sem sucesso europeu. Neymar foi embora em 2017, e o clube nunca conseguiu passar perto de encontrar um substituto. Tentou Coutinho, tentou Dembélé, agora tenta com Griezmann, mas nenhum deles teve consistência e entrosamento com Messi.

Desde a saída de Guardiola, em 2012, Messi já teve cinco treinadores no Barça, o que é muita coisa. Xavi, Iniesta e Daniel Alves saíram, outros três jogadores importantíssimos, sócios de Messi em campo, que o clube nunca conseguiu substituir à altura. As saídas de Neymar e Dani Alves podem ir para a conta da diretoria, que não soube segurá-los.

Houve problemas com impostos, transparência, denúncias de fraudes, ebulição política na Catalunha. Enfim, não foram exatamente os anos mais tranquilos na história do clube.

Os times montados pelo Barça nos últimos anos foram capazes de ganhar algumas Ligas espanholas, com alta dose de Messi-dependência. Mas, na Europa, o nível é outro. O patamar é bem diferente, e o mata-mata exige concentração e esforço máximos.

De 2007 em diante, quando passa a ser indiscutivelmente um craque mundial e "dono" do Barça, Messi ganha seis Bolas de Ouro, mas o clube ganha três Champions. A conta não bate.

Respondendo à pergunta que proponho lá no alto, creio que Messi tem Champions de menos porque os times do Barcelona não eram tão bons quanto outros e ele não foi mais capaz de resolver tudo sozinho. Qual a parcela de culpa dele nesses processos todos? É difícil avaliar. Há quem diga que é preciso ser amigo de Messi para jogar no Barça - ele nega enfaticamente exercer esse tipo de influência. Para mim, o Barça escolhe mal treinadores e gasta mal em contratações, o clube não soube potencializar Messi nos últimos anos.

A partir desta noite, contra o Napoli, serão sete jogos para o Barcelona reconquistar a Europa. Será que Messi levantará a orelhuda?

Julio Gomes