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Julio Gomes


Mourinho volta ao estádio onde mais brilhou - e hoje é odiado

José Mourinho durante partida do Tottenham contra o Brighton & Hove Albion pelo Campeonato Inglês -
José Mourinho durante partida do Tottenham contra o Brighton & Hove Albion pelo Campeonato Inglês
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

21/02/2020 20h09

Resumo da notícia

  • Chelsea e Tottenham duelam pela Premier League, separados por um ponto
  • Mourinho volta ao estádio em que ganhou títulos e 81% dos pontos pelo Chelsea
  • Desde que assumiu o United, acabou a relação de amor entre Mou e a torcida azul

José Mourinho e o Stamford Bridge. Um caso de amor que durou bastante, mas acabou. Neste sábado pela manhã (9h30 de Brasília), o Chelsea receberá o Tottenham em jogo crucial do Campeonato Inglês. O Chelsea, do técnico Frank Lampard, é o quarto colocado, um ponto à frente do Tottenham, de Mourinho.

Como técnico do Chelsea, Mourinho foi campeão inglês três vezes e ficou sem sofrer uma derrota sequer no estádio (em jogos da Premier League) nas primeiras 77 partidas. Isso mesmo! Foram 77 jogos sem perder em casa.

A marca durou as temporadas 04/05, 05/06, 06/07, parte da 07/08 (até ele ser demitido pela primeira vez do clube) e parte da 13/14 (em sua segunda passagem). A primeira derrota de Mou no estádio foi para o Sunderland, em 19/4/2014, e foi crucial para o Chelsea perder a vantagem que tinha naquela Premier. Ganharia o título na seguinte, em 14/15, e Mou seria demitido de novo em dezembro de 2015.

No total das duas passagens pelo clube, cinco temporadas inteiras e duas interrompidas, Mourinho teve aproveitamento de 81% em Stamford Bridge na Premier League. Foram 79 vitórias, 22 empates e 5 derrotas - e é bom notar que quatro das cinco derrotas vieram no horrível início da temporada 15/16, quando ele acabaria demitido.

Houve algumas outras derrotas em casa pela Champions League, como para o Barcelona, em 2006, e para o Atlético de Madrid, em 2014, mas que não mancharam a incrível história do técnico pelo clube.

Quando treinava a Inter de Milão, em 2010, ele ainda visitou Stamford Bridge e venceu por 1 a 0, classificando a Inter na caminhada rumo ao título europeu. Naquela ocasião, a torcida azul, que abraçou o apelido de "Special One", aplaudiu Mourinho, apesar da derrota do time londrino.

O amor acabou quando Mourinho assumiu o Manchester United, no início da temporada 16/17, seis meses após ser mandado embora do Chelsea. Ele foi considerado um traidor, ainda que sejam times de cidades diferentes.

A primeira visita pela Premier acabou em goleada: 4 a 0 para o Chelsea, então dirigido pelo italiano Antonio Conte. Mas a grande ruptura veio no jogo seguinte, em 13 de março de 2017, pelas quartas de final da Copa da Inglaterra. O Chelsea venceu por 1 a 0, e a torcida pegou no pé do treinador.

Mourinho, bem a seu estilo, mostrou três dedos para os torcedores, sinalizando as três Premier Leagues conquistadas pelo clube com ele no comando.

Enquanto reclamava pela expulsão de um jogador do United, os torcedores do Chelsea o chamaram de "Judas" e cantaram "você não é mais especial", além de tê-lo xingado com o tradicional "F**k off, Mourinho". Depois do jogo, o português declarou: "Quando eles arrumarem alguém para ganhar quatro Premier Leagues, eu serei o número dois. Até o momento, o 'Judas' aqui ainda é o número um".

Resumindo: magoou.

Sob o comando de Conte, o Chelsea voltaria a ganhar duas vezes do United de Mou. Pela Premier, 1 a 0 em novembro de 2017. E depois (mas em Wembley, não em Stamford Bridge), outro 1 a 0 na final da Copa da Inglaterra, em 2018, que fez com que Mou terminasse sua segunda temporada em Manchester sem títulos. Em outubro de 2018, o Chelsea, já comandado por outro italiano, Sarri, ficou no 2 a 2 com o United. Em dezembro, Mourinho perderia o emprego novamente.

O português só foi se recolocar um ano depois, no Tottenham.

No comando do United, portanto, foram três derrotas e um empate no estádio em que ele só costumava ganhar. Se juntarmos com a última passagem dele pelo Chelsea, Mourinho ganhou 3 e perdeu 7 dos últimos 11 jogos que fez no estádio, que fica em uma zona nobre de Londres.

Frank Lampard, que cresceu demais como jogador de Mourinho no Chelsea, hoje é o técnico do clube. E, com ele, o Chelsea perdeu 7 dos 19 jogos que fez em casa nesta temporada.

Pela Premier League, foram 5 derrotas em 13 partidas em seu estádio. Lembram do dado mais acima neste post? Mou, no Chelsea, perdeu 5 jogos em casa pela Premier em... 106 partidas.

O Tottenham é o maior rival do Chelsea, mais até do que o Arsenal, outro clube londrino, e algumas publicações de torcedores do clube se recusam a usar o termo "Spurs" (o apelido do Tottenham Hotspur) e a citar nomes de jogadores que tenham trocado o Chelsea pelo rival.

Quando Mourinho assumiu o Tottenham, o clube do norte da cidade tinha 12 pontos a menos que o Chelsea - hoje tem um. Mas no primeiro duelo entre eles, no campo dos Spurs, Lampard deu um nó tático em Mourinho, e seu time venceu por 2 a 0 (em dezembro).

Depois de ter perdido Kane, seu melhor jogador, Mou perdeu o coreano Son, que quebrou o braço. No meio de semana, perdeu para o RB Leipzig, em casa, pela Champions League. Mas, ao final da temporada, ele não será julgado pela campanha europeia e, sim, pelo que fizer na Premier. O grande desafio é ficar entre os quatro primeiros - o portuga disse que, se conseguir, terá sido o maior feito de sua carreira.

Um claro exagero. Mas, de números a expressões, nós já sabemos que José é mesmo um homem exagerado.

Julio Gomes