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Julio Gomes


Messi "sincerão" quer paz, mas volta a atacar dirigentes e pedir Neymar

Messi e Neymar comemoram classificação do Barça contra o PSG em 2017 - Xinhua/Hollandse-Hoogte/ZUMAPRESS
Messi e Neymar comemoram classificação do Barça contra o PSG em 2017 Imagem: Xinhua/Hollandse-Hoogte/ZUMAPRESS
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

20/02/2020 05h13

Neymar e Lautaro Martínez. Se estivéssemos perto do Natal, seriam os pedidos de Messi na cartinha para o Papai Noel. O melhor jogador do mundo segue em sua fase "sincerão", se expondo mais, falando mais, assumindo algumas responsabilidades e distribuindo muitas outras. Ele atira os dirigentes do Barcelona ao centro do Coliseu. Se as coisas continuarem mal, a sociedade catalã já sabe quem deve cobrar - afinal, o Barça é mais que um clube.

Em entrevista exclusiva ao jornal catalão "El Mundo Deportivo", Messi falou abertamente de reforços, de Cristiano Ronaldo e disparou alfinetadas para todos os lados.

Ele deixou claro que não gostou nada da demissão de Valverde e a troca de técnico no Barça. E simplesmente tirou o próprio time da lista de favoritos da Champions League - na semana que vem, o Barcelona estreia no mata-mata jogando em Nápoles.

"Era um grande treinador e uma grande pessoa, perdemos jogos em que nós fomos mais responsáveis do que ele. Jogávamos de um jeito com Valverde e agora nos pedem outras coisas. Não é fácil a adaptação. Se queremos ganhar, temos que melhorar muito. Na Liga (espanhola) vamos estar aí disputando com o Madrid, é uma liga irregular dos dois. Mas se queremos a Champions temos que melhor muito, hoje não estamos em um nível para poder brigar pelo título. Liverpool, Juventus, Paris e Madrid são os mais fortes hoje", disse Messi.

O argentino pede paz e tranquilidade daqui até o final da temporada. Mas, ao mesmo tempo, inflama o ambiente. Ataca dirigentes pela demissão de Valverde, critica duramente Abidal (seu ex-colega de time, hoje diretor) por "atacar o vestiário" e não se acanha ao pedir reforços, o que também é uma forma de apontar o dedo para dirigentes.

A saída de Neymar em 2017 não teve a ver só com dinheiro e querer sair da sombra de Messi, muito se falava da má relação (do pai) com a diretoria.

"Ney é um dos melhores e me encantaria que voltasse. É compreensível que as pessoas estejam chateadas com ele, pela forma que saiu. Eu também fiquei chateado naquele momento, tentamos convencê-lo. Agora ele quer muito voltar, já se mostrou arrependido e fez muito ano passado para voltar. Neymar tem um nível muito alto, é um jogador diferente."

Outro que Messi elogiou muito foi o jovem atacante Lautaro Martínez, hoje na Inter de Milão, a quem chamou de "muito completo" e disse que tem muitas características parecidas às de Suárez. Foram tantos elogios que dá para interpretar como um pedido claro do camisa 10.

O tom de Messi na entrevista foi tranquilo, cordial e amigável, mas o conteúdo está cheio de recadinhos para uma diretoria que não agrada ninguém em Barcelona.

A polêmica da semana foi a suposta contratação de uma agência digital para fazer disparos nas redes elogiando dirigentes do clube e atacando ídolos do passado e do presente, incluindo Messi. O presidente do clube conversou com o argentino, que, por sua vez, não mostrou exatamente confiança na palavra do mandatário.

"É um pouco estranho tudo isso. Mas disseram que têm provas (sobre o que fez o clube). Tem que esperar para ver se é verdade ou não. Não podemos falar muito, vamos esperar para ver."

O tempo vai passando, e o clube que tem Messi não dá a Messi o que ele precisa - tanto que ganhou apenas uma das últimas oito Champions disputadas. Muita confusão, muitas contratações ruins e pouca estabilidade esportiva.

"Minha ideia é ficar aqui, enquanto o clube e as pessoas quiserem, da minha parte não haverá problema. Quero ganhar outra Champions aqui. Já tive muitas chances de sair e nunca me ocorreu sair. Repito, se o clube quiser, não há problema", fala Messi. Se ele sair um dia, portanto, já estão assinalados os culpados.

Já são tantos anos de Messi - mais de 15 - que é difícil imaginar o que será do Barça sem ele. A relação é muito mais umbilical do que era a do Real Madrid com Cristiano Ronaldo. Mesmo assim, se nota como o time da capital sofre desde a saída do português. "Perdeu muito gol e era óbvio que ia acontecer", analisou Messi. "O Madrid tem grandes jogadores, mas Cristiano te dá 50 gols por temporada. Ele é um predador, qualquer dia que jogue bola vai fazer um gol".

A entrevista na íntegra está aqui.

É bom ver Messi falando. Pelo menos para nós. Para os dirigentes do Barça, tenho lá minhas dúvidas.

Julio Gomes