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Julio Gomes


Neymar tem razão, mas não tem por que gerar climão com o clube novamente

Neymar comemorando seu gol contra o Borussia Dortmund  - Soccrates Images/Colaborador
Neymar comemorando seu gol contra o Borussia Dortmund Imagem: Soccrates Images/Colaborador
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

19/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Neymar foi poupado de 4 jogos pelo PSG e sentiu o ritmo da Champions em Dortmund
  • Clube não quis arriscar perder seu craque novamente antes do mata-mata
  • Roupa suja se lava em casa. Neymar não precisava expor o clube publicamente, como fez

Neymar já expôs seu clube ao ridículo menos de um ano atrás, quando forçou a saída ao Barcelona - não deu certo. Já expôs o clube ao ridículo ao aparecer dançando no Carnaval enquanto o PSG era eliminado de outra Champions. Já expôs o clube ao ridículo ao promover festas de arromba pertinho de jogos. Já foi xingado pela torcida, uma relação que não foi exatamente reatada, apesar do bom futebol mostrado nesta temporada.

A última? Na entrevista que deu após a derrota do Paris para o Borussia Dortmund, pela Liga dos Campeões, Neymar voltou a jogar no ventilador. Após ficar fora dos últimos quatro jogos do clube, indicou que foi poupado contra sua vontade e justificou a falta de ritmo na partida da Alemanha.

"Isso (o veto) foi coisa decidida pelo clube e médicos e tive que acatar. Tive várias discussões, e não curti o que propuseram, mas respeitei. Isso acaba sendo ruim para mim e companheiros. Entendo o medo que o clube sofre, mas não pode ser assim. Só acaba sofrendo o jogador. Para mim foi complicado jogar uma partida como essa sem intensidade, sofrendo. Se tivesse boas condições físicas tenho certeza que seria melhor."

Ele tem razão? Sim, ele tem razão.

Dá para entender o Paris? Dá para entender o Paris.

Afinal, Neymar se machucou e ficou fora dos dois confrontos de oitavas de final nos anos anteriores. No último jogo dele, 5 a 0 sobre o Montpellier, deu carretilha, apanhou e brigou com juiz. Nos dias seguintes, irritou o técnico ao levar o time inteiro para uma daquelas "humildes" festa de aniversário. No histórico de jogadores brasileiros, estão "migués" para driblar os clubes e pular o Carnaval. E, claro, ele é constantemente caçado nos jogos do Campeonato Francês.

Dá para entender o Paris.

Mas Neymar tem razão. Foi nítida a falta de ritmo do brasileiro em um jogo de altíssima intensidade, típico dos grandes duelos europeus, típico também de jogos de clubes alemães. Tuchel, que é alemão, deveria saber bem disso.

Aliás, a escalação do técnico, sem centroavante, sobrecarregando Neymar, Di María e, principalmente, Mbappé, foi um desastre. Se ele queria fazer um jogo mais conservador em Dortmund, uma razão a mais para dar minutos a Neymar antes. Há jogadores que precisam de ritmo, mais do que outros, e Neymar sempre foi um deles.

Agora, o brasileiro precisava vir a público reclamar? Não sabemos todos que roupa suja se lava em casa?

É difícil entender as motivações de fazer isso publicamente. Tirar o corpo fora, para justificar uma atuação abaixo do esperado (apesar do gol)? Duvido que seja isso, pois duvido que Neymar tenha essa autocrítica sobre seu jogo. Seria um recado interno, para jogar alguém contra outro alguém? Seria simplesmente insatisfação de quem nunca pode ser contrariado?

Para nós, da imprensa, é um prato cheio. Neymar dá as informações necessárias para que se especule de tudo. Permite aos jornalistas franceses contestarem as hierarquias PSG. Quando as relações dele com o clube pareciam estar sendo reconstruídas - já saiu até notícia de que ele teria repensado sua posição de sair e estaria negociando renovação -, Neymar joga uma bomba dessas.

Expõe o clube, expõe o técnico, mostra que eles continuam bem longe de um alinhamento. Gera um climão. De novo.

Julio Gomes