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Julio Gomes


Pessoas como Kobe Bryant não deveriam morrer

kobe bryant  - Getty Images
kobe bryant Imagem: Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

27/01/2020 10h01

Kobe Bryant morreu.

Todos morrem, todos morreremos, mas alguns vão cedo demais. É o caso de Kobe. Um ex-atleta, 41 anos de idade, muita saúde, tantas coisas ainda a fazer em nosso combalido planeta.

Assim como Boechat, se vai em um acidente de helicóptero. Uma fatalidade. No meio de tanto egoísmo e maldade, são tão poucos os bons. Por que eles se vão assim?

Kobe jogou basquete como poucos. Ganhou como poucos. E foi humilde como poucos - do seu nível.

Era um exemplo. Foi um exemplo como atleta, para veteranos e jovens, com seu altíssimo nível de foco e comprometimento. Exemplo de espírito esportivo e atitudes em quadra. Exemplo de profissionalismo na relação com fãs, parceiros comerciais e imprensa. Exemplo de consciência social e de como sua figura era importante para inspirar e fazer coisas boas acontecerem.

Ao longo das minhas andanças por aí, nunca gostei de pedir fotos ou autógrafos para esportistas. Sem querer me colocar acima do bem e do mal e dar lição a ninguém, apenas nunca senti que combinasse com o que eu estava fazendo. O jornalismo não casa com tietagem, eu sempre quis me sentir livre para perguntar e falar o que quisesse, e sempre tive a sensação de que pedir uma foto criava uma outra relação, que não era a estritamente profissional, distante e independente. Sempre tive dificuldades até para fazer amizades no meio do futebol, posso contar nos dedos.

Como disse, é algo meu, sem nenhuma pretensão de dizer que é o certo ou dar lição de moral.

Mas toda regra tem exceção. E uma exceção foi Kobe Bryant. Escrevi sobre isso quando ele se aposentou, em 2016, aqui mesmo no blog.

Eu estava em Macau para cobrir treinamentos de atletas brasileiros antes de Pequim-2008, na época trabalhava para o portal Terra. E eis que, por coincidência, o time americano de basquete estava lá pelo mesmo motivo. No meio de tanta marra, havia Kobe Bryant. A simpatia em pessoa, já em um estágio da carreira em que podia ser considerado um veterano, afinal, era apenas adolescente quando entrara na Liga.

Não resisti. Pedi uma foto. Eu queria eternizar aquele momento. Não para postar no Instagram, que nem existia. Apenas para guardar comigo aquele dia.

Kobe eternizou tantos momentos. Fez tanta gente sorrir, fez tanta gente gostar do esporte. É incrível pensar quantos destinos são traçados direta ou indiretamente por causa de figuras como Kobe Bryant.

Alguém que resolve jogar basquete por causa dele. Alguém que resolve virar jornalista por causa dele. Ou alguém que resolve se mudar para Los Angeles para ficar perto dele.

A amiguinha da minha filha tem um cachorrinho chamado... Kobe. Ontem mesmo eu vi o Kobe. Ele me cheirou, lambeu, fiz carinho, nos despedimos. Fazia tempo que eu não via o Kobe. Ele cresceu tanto.

O nome, tão diferente do habitual, está na história. Na minha, na tua, na nossa. Agora ele vai virar nome de rua, ponte, vai ganhar estátuas. O tamanho das homenagens, espalhadas pelo mundo inteiro, feitas por tanta gente importante, mostra que Kobe era um ser supra-basquete. Muito além do esporte que praticou. É um ícone. Um modelo a seguir. Uma pessoa inspiradora.

O corpo de Kobe se vai. Seu legado fica. Mas ele ainda tinha tanto a fazer, tanta gente para ajudar! Pessoas como você deveriam ser proibidas de morrer, Kobe.

Julio Gomes