PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Julio Gomes


Desafio de Luxemburgo está na comunicação, não no futebol

Felipe Melo e Vanderlei Luxemburgo em treino do Palmeiras - Bruno Ulivieri/AGIF
Felipe Melo e Vanderlei Luxemburgo em treino do Palmeiras Imagem: Bruno Ulivieri/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

15/01/2020 16h38

Resumo da notícia

  • Felipe Melo vai ser zagueiro com Luxemburgo
  • A teoria tem todo o sentido do mundo
  • Mas o desafio de Luxa é comunicar e convencer

Felipe Melo, para Luxemburgo, tem de jogar de zagueiro. "Ele é muito alto e muito pesado. Pode jogar de volante, mas a velocidade e a intensidade do jogo são diferentes. Ele vai perdendo a intensidade, no terceiro bote toma amarelo. Quando traz cinco, dez metros para trás, ele vai deixar de correr 60% do que corria. Com a inteligência, a qualidade, pode se tornar um grande zagueiro."

Essa é a explicação do novo técnico do Palmeiras.

Perfeito, no meu ponto de vista. Luxemburgo sabe muito de futebol e, ao longo de sua carreira, já fez várias pequenas alterações de posicionamento que ampliaram a vida útil de muitos jogadores.

Muller, em suas mãos, virou cerebral. Rincón virou volante. Dá para fazer uma lista enorme.

Quem sabe, não desaprende. O tempo, logicamente, exige mudanças. Antigamente, um jornalista precisava ser bom na máquina de escrever. Hoje, precisa saber digitar rapidamente no mini teclado do celular. Em qualquer profissão é assim. Na de técnico de futebol, também.

Treinadores vão se adaptando ao longo dos tempos. Mas conhecimento do jogo em si? Isso, para quem domina, é fácil. É tranquilo acompanhar outros campeonatos pela TV, trocar algumas ideias com colegas e ir aprendendo e adaptando.

Sinceramente, acho que Luxemburgo não terá problemas nesse sentido. E é por isso que vemos alguns técnicos se sentirem até ofendidos quando se fala em reciclagem, atualização, etc.

O grande X da questão, a meu ver, está na comunicação. Isso é mais delicado. Porque as gerações mudam, o jeito de pensar, de falar, os gostos, interesses, distrações, canais de comunicação. E isso é mais difícil de acompanhar. Nós somos quem somos, fomos moldados um dia e muitas vezes é difícil estabelecer essa tão necessária química entre gerações.

Não é à toa que pais sofrem tanto para estabelecer uma relação saudável com filhos adolescentes.

Luxemburgo tem o conhecimento. Mas será que ele vai conseguir convencer Felipe Melo de que a mudança para a zaga é o melhor para ele e para o time?

Esse é o grande desafio. Não adianta teorizar, você precisa conquistar corações.

Daqui a uns meses, eles podem ter virado "best friends". Mas podem, também, estar cada um em um lado da sala, e aí o trabalho do treinador vai sendo minado, outros jogadores não compram as ideias e tudo degringola.

Luxemburgo e Felipe Melo são seres diferentes. Como ambos se posicionaram politicamente nos últimos anos, sabemos que estão em pólos opostos, com visões de mundo distintas. No entanto, ambos são produtos do Rio de Janeiro e do futebol, certamente têm uma porção de coisas em comum.

Se o "pofexô" conseguir transmitir suas ideias, suas vontades e entrar na cabeça desta geração de jogadores, como entrava antigamente, as coisas vão funcionar para o Palmeiras.

Saber fazer o time jogar bem, isso ele sabe. Mas quem joga são os caras, não ele. Essa é a grande barreira para Luxa, talvez em sua última chance de conquistar coisas grandes.

Julio Gomes