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Julio Gomes


Noticiário do Flamengo é um ultraje à memória das vítimas do Ninho

Contêineres que pegaram fogo na tragédia no Ninho do Urubu, CT do Flamengo - Reginaldo Pimenta / Raw Image / Ag. O Globo
Contêineres que pegaram fogo na tragédia no Ninho do Urubu, CT do Flamengo Imagem: Reginaldo Pimenta / Raw Image / Ag. O Globo
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

13/01/2020 12h38

Resumo da notícia

  • Valores milionários de compra e venda são a tônica do noticiário flamenguista
  • Clube ainda não chegou a acordo com as famílias dos 10 meninos mortos no Ninho do Urubu
  • E ainda recorre da decisão que obriga a pagar pensão de R$ 10 mil mensais

Lá se vai quase um ano da tragédia do Ninho do Urubu. Foram 10 mortes. Nomes que precisar ser lembrados todos os dias. Athila, Arthur, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge, Pablo, Rykelmo, Samuel e Vitor. Todos entre 14 e 16 anos. Todos carbonizados.

Mas não são esses os nomes que lemos quando abrimos as páginas de noticiário diário do Flamengo, certo?

São os nomes de Thiago Maia, de Gustavo Henrique, de Pedro Rocha e de Michael, este contratado por 35 milhões de reais. São os nomes de Bruno Henrique, que vai receber aumento salarial, ou de Jorge Jesus, que tem contrato até maio e pode renovar, ou de Pedro, que pode ser comprado junto à Fiorentina por uma quantia milionária.

Quando abrimos o noticiário do Flamengo, lemos que o clube vai receber 12 milhões para uma marca estampar seu nome nas costas dos jogadores, abaixo do número - não exatamente o mais nobre lugar de uma camisa de futebol. Lemos que o orçamento do clube em 2020 prevê receita acima de 700 milhões de reais.

Mas a notícia que mais choca mesmo, quando fazemos a conexão "Flamengo - tragédia do Ninho - indenizações às famílias - orçamento milionário - contratações", é outra.

Quando abrimos o noticiário do Flamengo, lemos que o Real Madrid pagará 136 milhões de reais por Reinier, de 17 anos, que poderia estar lá naquele contêiner na hora da tragédia.

Quantos dos 10 garotos que morreram queimados, sob a tutela do Flamengo, renderiam 136 milhões de reais para os cofres do clube? Talvez nenhum. Talvez mais de um. Nunca saberemos. Talvez uma daquelas nove famílias fosse abençoada e, no esteio do menino, teria a vida financeira resolvida para sempre. Talvez outras nove seguissem na batalha diária do povo brasileiro.

Diante de uma perda deste tamanho, porque quando falamos de dinheiro nos esquecemos por um momento que estamos tratando de vidas perdidas, de corações destruídos, do inimaginável vazio de quem perde um filho antes da hora, não deveria o Flamengo mostrar ser ainda mais enorme do que já é?

O Ministério Público sugeriu uma indenização de 2 milhões de reais por família e uma pensão de R$ 10 mil mensais até que eles completassem 45 anos. O Flamengo recorre. Paga 5. E recorre. E se aproveita de sua força financeira, dos melhores advogados, para fazer acordos bilaterais com famílias e isolar as outras. Chegou até a fazer acordo com "meia família", ou seja, somente com o pai de um casal divorciado.

É um escárnio, é de uma baixeza indescritível.

E se o Flamengo pegasse metade do dinheiro que vai chegar por Reinier e pagasse 6 milhões para cada família, em vez dos 2 sugeridos. E se pagasse 15 mil mensais, em vez de recorrer dos 10 que a justiça determinou?

Seriam apenas gotas no oceano orçamentário do Flamengo.

E seria um ato de grandeza. Resolvendo a vida financeira dessas famílias, já que a vida espiritual terá aquela cicatriz para sempre.

A cada dia que passa, a tragédia vai ficando mais longe. O Flamengo ganha tempo, mas junto com o tempo vem a mancha na história maravilhosa deste clube. Nessa hora, o presidente e os diretores financeiros e jurídicos do clube deveriam ser colocados para negociar no cemitério, na frente de 10 lápides. Para ver se criam vergonha na cara.

Cada valor exposto no noticiário flamenguista, um salário altíssimo, uma contratação milionária, uma venda como a de Reinier, é um tapa na cara que de cada um de nós, de cada um que ama o clube, de cada familiar. De cada cádaver.

Julio Gomes