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Flavio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não achem a F-1 chata: o melhor a fazer é admirar gênios como Verstappen

Max Verstappen, da Red Bull, comemora sua 26ª vitória na F-1: entre os dez mais - Divulgação/Red Bull
Max Verstappen, da Red Bull, comemora sua 26ª vitória na F-1: entre os dez mais Imagem: Divulgação/Red Bull
Flavio Gomes

Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. "Um multimídia de araque", diz ele. "Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo."

Colunista do UOL

20/06/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição deste domingo (19/6) da newsletter de Flavio Gomes. Na newsletter completa, apenas para assinantes, o colunista também divulga o lançamento de seu quinto livro, uma coletânea de textos da Era Schumacher. Para receber o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

Ao vencer o GP do Canadá neste final de semana, em Montreal, Max Verstappen atingiu a marca de 26 vitórias na carreira. Entrou para o top10 de maiores vencedores da história da F-1, agora isolado em nono lugar. Deixou para trás Niki Lauda e Jim Clark, que ganharam 25 cada. O próximo da fila é Jackie Stewart, o Escocês Voador, tricampeão mundial e 27 vitórias no currículo.

O céu parece ser o limite para este holandês de apenas 24 anos, atual campeão mundial e favorito absoluto ao bi nesta temporada. A Ferrari, que começou o campeonato de modo avassalador, parece que estacionou. A Mercedes não tem carro para fazer frente à Red Bull. Ficou fácil.

Max chegou a estar 46 pontos atrás de Charles Leclerc na classificação depois da terceira corrida do ano, na Austrália. O monegasco tinha duas vitórias e um segundo lugar, 71 pontos. Verstappen aparecia com 25, na sexta colocação na tabela.

De lá para cá, foram seis etapas. Ele ganhou cinco, mais a "sprint" de Ímola — a minicorrida que a partir deste ano confere oito pontos ao vencedor. Serão mais duas ainda em 2022, na Áustria e no Brasil. A Red Bull venceu todas as provas desde o GP da Emilia-Romagna, em 24 de abril.

Com a vitória em Montreal, Max foi a 175 pontos no Mundial. O vice-líder, seu companheiro Sergio Pérez, tem 129. São os mesmos 46 pontos que ele tinha de desvantagem no início de abril. Em dois meses, virou a mesa e apontou a proa para o título.

Já há quem diga que o campeonato está chato. Que o novo regulamento não serviu para nada. Que a Fórmula 1 é uma bomba. Claro que as coisas não são assim tão simples.

Para quem começou a acompanhar a categoria recentemente, a referência mais próxima é a temporada passada, das mais belas de todos os tempos — decidida na última volta da última corrida graças a uma decisão mais do que polêmica do diretor de prova em Abu Dhabi. Mas querer que todo ano algo parecido aconteça é exagerar um pouco nas expectativas. Campeonatos assim são bem raros. E se neste ano não teremos nada parecido, podemos colocar a culpa na conta da Mercedes.

Oito vezes campeã de construtores e com sete títulos de pilotos a partir de 2014, a equipe alemã errou a mão no seu carro deste ano e até encontrar um caminho para melhorar seu desempenho leva tempo. Fora da briga por vitórias sabe-se lá até quando, o time prateado praticamente entregou de bandeja o campeonato à Red Bull — que, por sua vez, teve de engolir a superioridade dos rivais por anos a fio depois do tetra conquistado entre 2010 e 2013.

A F-1 é assim. Vive de ciclos muito claros, embora nem sempre tão longevos quanto a inédita hegemonia da Mercedes estabelecida com o início da era híbrida dos motores. É preciso entender a dinâmica do esporte para não se precipitar no julgamento sobre sua qualidade.

A McLaren foi dominante no final dos anos 1980 e início dos 1990. Depois foi a vez de a Williams engatar uma série de títulos. Mais tarde veio a Ferrari nos anos Schumacher, e depois a Red Bull, aí a Mercedes, agora os austríacos das bebidas energéticas se aprumaram novamente, e assim é.

Não adianta reclamar. Ainda que um campeonato se torne precocemente previsível quanto ao resultado final, cada corrida tem sua história e é preciso saber enxergar a beleza da categoria em pequenos momentos, como o segundo lugar no grid de Fernando Alonso debaixo de chuva no sábado, dez anos depois de largar na primeira fila pela última vez. Aos 40 anos de idade, o asturiano da Alpine fez suspirarem de saudade os fãs mais veteranos, que lembraram seus melhores momentos na Renault, no começo do século.

A terceira fila da modesta Haas, também no sábado, igualmente encheu de alegria aqueles que torcem pelos mais fracos. Assim como o oitavo lugar do chinês Zhou na corrida, estreante que vem conquistando o paddock com sua simplicidade, simpatia e seriedade. Mesmo Hamilton, acostumado a levantar taças, conseguiu encontrar algum motivo para sorrir no Canadá com um singelo terceiro lugar.

E não se pode sonegar nenhum elogio a Verstappen depois de vê-lo, em Montreal, segurando Carlos Sainz por 16 voltas com o espanhol menos de um segundo atrás dele sem cometer nada parecido com um erro. O nível é altíssimo. Então, o melhor a fazer é admirá-lo. E é um privilégio acompanhar, em tempo real, carreiras como a de Max na F-1. Gênios aparecem de tempos em tempos no esporte. Ele é um desses.

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