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Flavio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O curioso desaparecimento das panelas do GP de Mônaco

Divulgação/Mercedes
Imagem: Divulgação/Mercedes
Flavio Gomes

Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. "Um multimídia de araque", diz ele. "Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo."

Colunista do UOL

06/06/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição deste domingo (5/6) da newsletter do Flavio Gomes. Na newsletter completa, apenas para assinantes, o colunista também fala dos pilotos com contratos a vencer na F-1 e recomenda as hilárias imitações do britânico Conor Moore. Para receber o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

Vocês vão me achar completamente maluco depois de ler este texto. Ao final dele, perguntar-se-ão: como fui perder tempo com essa conversa sobre... panelas?

Não tem importância. Assumo sem problema algum a posição de cronista das irrelevâncias. Porque até mesmo elas, as irrelevâncias, têm uma história. E sempre posso usar, a meu favor, o argumento de que a crônica, como gênero literário, agrega ardorosos defensores justamente porque, quase sempre, o autor recorre a um pequeno retrato do cotidiano para, astuto, falar do universo. Nada menos que o universo. Tal astúcia reúne admiradores sinceros. É com eles que conto.

Bem, falemos das panelas.

Há muito tempo, na Fórmula 1, tornei-me um especialista em placas de publicidade & similares. Poderia dizer que tal fetiche não passava de curiosidade, ou tal curiosidade não passava de fetiche, tanto faz, mas de novo a meu favor usarei argumento inatacável: conhecer as propagandas a fundo aguçava minha capacidade de identificar rapidamente autódromos e temporadas a partir de fotos e imagens de TV.

E para que servia isso?

Nada, absolutamente nada. Alimentei por algum tempo a ilusão de que alguém um dia, convidado para jantar na minha casa, batesse o olho numa garrafa de Tio Pepe estrategicamente posicionada e dissesse, espantado, "vejam só, uma legítima garrafa do patrocinador do GP da Espanha!", e a partir daí surgiria uma próspera e edificante conversa sobre os vinhos da Andaluzia, talvez derivando até para os apreciados brandys da lavra Veterano Osborne, de Jerez de La Frontera, onde Senna bateu Mansell em 1986 por 0s014 na linha de chegada e onde Martin Donnelly, em 1989, sofreu um terrível acidente, e em 1997, Schumacher e Villeneuve etc...

Como isso nunca aconteceu, jamais ofereci Tio Pepe a ninguém — apenas aqueles que fossem capazes de reconhecer o chapeuzinho vermelho sobre a rolha e o colete com as mãos na cintura (vejam aqui, não sei se consegui descrever direito) seria merecedor da distinção. Como tampouco desperdicei meus Gauloises, muito menos servi um café sequer no impecável jogo de xícaras Segafredo obtido por meios escusos junto ao garçom de um restaurante em Faenza. Se nem com marca estampada em carro da Toleman de 1984 os indigitados convivas eram capazes de se assombrar, para que perder meu tempo com essa viagem ao redor do mundo através dos afamados patrocinadores da F-1?

Voltemos às panelas, estou me estendendo.

Mônaco era um sítio especialmente fértil para minha tara por patrocínios porque, como se sabe, a publicidade ao longo da pista é comercializada pelo automóvel clube local, oficialmente organizador da corrida. E como se sabe a família Grimaldi, dona do pedaço desde 1297 — quando Francisco Grimaldi, disfarçado de monge, bateu à porta do castelo pendurado no rochedo pedindo refúgio, e os inocentes o deixaram entrar, e ele sacou de uma espada escondida sob o hábito franciscano e passou todo mundo no fio, e aí apareceu seu primo Rainier com uma galera para tomar a fortaleza, e assim nasceu o Principado —, apita em tudo e se o príncipe tem uns amigos dispostos a colocar umas placas e umas faixas pela cidade no fim de semana do GP, não será o contador do automóvel clube que vai negar.

Em minha primeira visita a Monte Carlo para cobrir uma corrida, entendi mais ou menos como funcionava a parada. Cheguei alguns dias antes e fui conhecer o local onde a organização erguia o pódio que nunca foi pódio, no recuo do jardim de um simpático prédio no boulevard Albert 1er, também conhecido como reta dos boxes — hoje os boxes dão as costas para a avenida, mas antes ficavam ali mesmo, improvisados em meio ao passeio público numa zona federal. Era mais simplesinho que a estrutura atual; quase um praticável com uma pequena cabine no alto onde, teoricamente, a família real se aboletava para assistir às provas.

Por ali laborava um senhor afável, de macacão de brim, camisa branca e botas de camponês, que parecia ser o jardineiro do edifício. Procurando não incomodar muito, perguntei sobre o pódio instalado sobre seu local de trabalho, se aquilo estragava seu jardim tão belo, e ele me disse que já estava acostumado, não era nenhum grande drama, e que se as pessoas soubessem que o príncipe nem via as corridas dali, talvez não precisassem montar aquilo todos os anos.

Como assim, não vê as corridas?, perguntei. E ele me contou que Rainier III, o soberano do Principado que morreu em 2005 depois de 56 anos de reinado, assistia só à largada, deixava a turma de puxa-sacos lá na cabine, saía de fininho e subia no apartamento de um amigo que morava naquele prédio para ver tudo pela TV tomando cerveja e comendo amendoim. Depois voltava para a cerimônia dos troféus e encerrava o domingo feliz e contente.

Não sei se era verdade a história do jardineiro, vocês sabem como os jardineiros adoram uma fofoca, mas imediatamente associei o hábito do príncipe às faixas publicitárias de uma cerveja australiana espalhadas pelo circuito, Foster's, que talvez fosse sua preferida e ele tivesse proposto uma permuta à fábrica: coloca umas placas aí e me manda uns engradados.

E assim, durante anos, fantasiei as inofensivas artimanhas do príncipe para descolar um "recebido", como se diz hoje, às custas do uso do espaço que, afinal, pertencia a sua família desde 1297, tempo mais do que suficiente para se sentir no direito de dele usufruir como bem entendesse. Era o que explicaria aquele Cofap na Loews ("tô precisando de uns amortecedores, tem jeito?"), o Campari na Rascasse ("pode mandar só duas caixas, depois pego o resto"), a ellesse na curva do cassino ("só o agasalho tá bom, mas é G, não M!"), a Hitachi na Mirabeau ("garantido até a próxima Copa, hein?"), a enorme placa de Gitanes Blondes na largada ("pode ser sem filtro mesmo").

Então, chegamos nas panelas.

Desde 2000, talvez um pouco antes, talvez um pouco depois, botei reparo nas gigantescas faixas de uma marca que me era estranha: Zepter. Largada? Zepter. Dentro do túnel? Zepter. Saída do túnel? Zepter. Guard-rail da piscina? Zepter. Que diabo era Zepter?

Placa de publicidade da Zepter na saída dos "esses" da piscina no GP de Mônaco - Divulgação/Zepter International - Divulgação/Zepter International
Imagem: Divulgação/Zepter International

Adivinharam. Panelas.

Fundada em 1986 na Áustria por um sérvio de nome Philip Zepter, a marca de panelas tornou-se onipresente em Mônaco, para onde a família do empresário se mudou em 1990. Para ser preciso, o clã foi morar ali perto, numa vila em Roquebrune-Cap Martin, balneário vizinho do Principado. Como é difícil acreditar que uma fábrica de panelas gere receita suficiente para espalhar placas de publicidade num GP em Mônaco, concluí que elas tenham caído nas graças do príncipe Rainier, e que ninguém se atrevesse a interromper seu fornecimento de caçarolas, sauteses, woks, galeteiros e frigideiras enquanto ele fosse vivo. Ademais, a empresa estava crescendo e entrando no ramo de perfumes, óculos de sol, relógios e eletrodomésticos em geral. Príncipes adoram essas coisas. Todo mundo gosta.

Semana retrasada, notei que não havia mais nenhuma placa das panelas Zepter ao longo dos pouco mais de 3 km da pista monegasca. Justo num fim de semana em que se intensificaram as discussões sobre a continuidade do GP de Mônaco no calendário da F-1.

Aqui é preciso que se diga que a marca não se limitou a espalhar seu nome pelo circuito citadino — já foi até patrocinadora-master do GP do Brasil lá para o início deste século; e esteve também nos carros da Jordan e da Arrows em priscas eras. Uma das justificativas para a ameaça de exclusão da corrida era justamente o fato de as placas de publicidade não renderem um centavo para a Liberty, dona da categoria. Para piorar, uma das grandes patrocinadoras do evento em 2022 foi a TAG Heuer, marca de relógio que concorre no mercado de luxo com a Rolex — parceira oficial da F-1. Um acinte. Coisa desses príncipes birutas, devem ter pensado os executivos norte-americanos que hoje tomam conta do negócio.

Seria um pecado, claro, tirar Mônaco do campeonato porque o príncipe e sua família curtem um escambo — ou uma "publi", para usar termo em voga entre, vá lá, influencers. Rainier III deixou seu filho Albert como sucessor e talvez os utensílios de cozinha tão prestigiados no passado já não comovam tanto o varão. E a Zepter sumiu.

Talvez eu tenha sido a única pessoa do planeta a notar a ausência das panelas em Mônaco na última corrida. Mas gostaria de deixar registrado aqui, especialmente aos diligentes operários de suas fábricas, tão zelosos em sua feitura, acabamento e finalização, que reparei, sim.

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