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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pílulas do Dia Seguinte: F1 com 3 forças começa a virar realidade

Mecânico da Ferrari acaricia o carro de Leclerc após o abandono no GP da Espanha, em Barcelona - Ferrari
Mecânico da Ferrari acaricia o carro de Leclerc após o abandono no GP da Espanha, em Barcelona Imagem: Ferrari
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

23/05/2022 11h22

As imagens de Leclerc, sereno, abraçando os mecânicos após o abandono em Barcelona, ficaram na minha cabeça. Como assim? Minutos antes ele rumava para uma vitória tranquila, dominadora, talvez mais um Grand Chelem. Agora lá estava nos boxes, com o carro apagado, vendo seus adversários na pista... Como assim? Por que não estava bravo, xingando o mundo?

A resposta só veio horas depois, foi dada pelo próprio ferrarista e abre caminho para uma reflexão importante. "Estou me sentindo melhor agora do que após as últimas duas corridas. Aconteceu um problema no carro e é claro que estou desapontado, mas por outro lado houve muitos sinais positivos. Nosso pacote de atualizações funcionou, o que é uma dádiva. Sofríamos em ritmo de corrida e em consumo de pneus na comparação com a Red Bull. Hoje fomos fortes. Em casos assim, gosto de olhar os pontos positivos. Há muitos";

Piloto é um bicho esquisito. São, em sua grande maioria, superdotados. Operam dezenas de comandos, discutem estratégias pelo rádio e fazem cálculos de campeonato enquanto aceleram a 300 km/h, dividindo curvas com outros malucos iguais ou piores. São, ainda, competitivos desde o berço _o kart, no caso. Os abraços de Leclerc precisam ser entendidos sob esta ótica. Entre estressar com um problema pontual e projetar os ganhos futuros, ele pendeu para a segunda opção. Foi instintivo. E isso nos dá uma dica valiosa, que vai na contramão das aparências e da análise rasa da pontuação na corrida: a Ferrari está segura de si, mais forte em ritmo de corrida, seu calcanhar de Aquiles no começo da temporada;

E a Red Bull? O RB18 sempre foi muito bom. Solucionados os problemas na bomba de combustível, tornou-se também um carro confiável. Some isso aos azares da concorrência e, pronto, lá estão as lideranças nos Mundiais de Pilotos e de Construtores;

Há ainda outro elemento na equação: Pérez. Como em 2021, ele aparece em momentos-chave para resolver a vida do companheiro. Em Barcelona, Verstappen precisou dele duas vezes. A novidade é que, desta vez, o mexicano não gostou e deixou isso claro ao sair do carro;

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Sergio Pérez e Max Verstappen, dupla da Red Bull, na entrevista coletiva após o GP da Espanha
Imagem: Dan Istitene/Getty Images/Red Bull

Mas sua bronca não foi com o rádio nas voltas finais, compreensível diante da luta pelo Mundial. Foi com a suposta quebra de um combinado no meio do GP. Pouco antes do abandono de Leclerc, Pérez estava mais veloz que o companheiro e pediu passagem. Não era, naquele momento, uma briga definitiva por posições. Era uma manobra de que precisava para fazer funcionar sua estratégia: tinha pneus quatro voltas mais novos e não estava conseguindo extrair o melhor deles, embarreirado pelo duelo de Verstappen com Russell. A Red Bull fingiu que não ouviu. É dura a vida de escudeiro...;

Além de acalmar Pérez, a Red Bull terá de usar os próximos dias para resolver o problema no seu "DRS light". O sistema, mais leve, foi instalado apenas no carro de Verstappen em Barcelona. "Neste ritmo de desenvolvimento, você nunca pode colocar uma novidade nos dois carros ao mesmo tempo", justificou Marko. "Quando você tem um problema de peso, começa a fazer peças cada vez mais leves. Chegamos ao limite. Ou as peças dobram ou não têm a rigidez necessária". Voltar ao modelo convencional parece mais lógico, mas Marko ressaltou que "dois quilos a mais ou a menos fazem diferença em Mônaco, é uma corda-bamba". A ver;

E a Mercedes? Ainda não voltou à velha forma, mas está quase lá. O "porposing" foi resolvido e o W13 mudou de turma: hoje está mais próximo das Ferraris e Red Bulls do que das McLarens e Alfas. O ritmo de Hamilton ontem foi encoberto pelo acidente na primeira volta e pelos vaivéns na liderança da prova, mas merece uma atenção. O heptacampeão conseguiu a maior velocidade da corrida no fim de reta, 333,6 km/h, e, segundo cálculos da "Motorsport", brigaria pelo segundo lugar se não fossem os 45 segundos perdidos com o acidente na largada;

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George Russell, da Mercedes, comemora o terceiro lugar no pódio de Barcelona
Imagem: Mercedes

E vale abrir um capítulo para Russell. Com o abandono de Leclerc, o pupilo da Mercedes é o único piloto a pontuar em todos os GPs do ano até agora, sempre no top 5. Já conseguiu dois pódios na temporada e, em Barcelona, liderou uma corrida pela primeira vez desde o GP do Sakhir de 2020. Saindo das estatísticas para a ação, sua defesa de posição contra Verstappen foi magistral, coisa de gente grande. É bom demais, o garoto. Qualidade por qualidade, a Mercedes tem hoje a melhor dupla do grid da F1;

Repararam? Ferrari com ritmo de corrida melhor, Red Bull forte mas enfrentando problemas pontuais, Mercedes evoluindo a olhos vistos. E ainda estamos na sexta corrida de um total de 22. O sonho de uma temporada com três grandes forças começa a se concretizar;

Alonso voltou a pontuar, justamente quando parecia mais improvável: largando em último. Fez uma corridaça. Na primeira volta, era o 15º. Na 22ª, entrou na zona de pontos. Chegou a andar em sétimo na bagunça dos pit stops, terminou em nono. "Larguei algumas vezes em quinto e sexto e não pontuei. Aqui saí em último e cheguei em nono. Assim é o esporte a motor", disse o espanhol, sorrisão no rosto, ao fim da prova;

Uma questão me intrigava na bandeirada. Como Albon conseguiu chegar atrás do Latifi? A resposta está no consumo de pneus. O tailandês precisou fazer quatro pits. "Foi impressionante. Eu estava 20 km/h mais lento do que todo mundo nas curvas 3 e 9. Não foi normal", contou. O canadense parou apenas três vezes. Está explicado;

Agora vem Mônaco. Adoro. É só uma vez por ano, é um cenário deslumbrante, é uma aberração técnica, é um lugar carregado de história. Julguem-me.