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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

F-4 Brasil é, acima de tudo, esperança

Carros da Fórmula 4 Brasil antes da largada para a primeira corrida da história da categoria - F-4 Brasil/YouTube
Carros da Fórmula 4 Brasil antes da largada para a primeira corrida da história da categoria Imagem: F-4 Brasil/YouTube
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

17/05/2022 17h00

"Estou bem ansioso, vai ser bem legal, tá super disputado, todo mundo tá andando super bem". É bom ouvir esse tipo de declaração, sem filtros e media training, sincera sobre a ansiedade, prosaica até. Uma declaração típica de adolescente. Como é Pedro Clerot.

À frente do brasiliense de 15 anos no grid de largada da primeira corrida da F-4 Brasil, sábado, em Mogi Guaçu, apenas o safety car. Atrás, outros 14 carros: 13 garotos e 1 garota.

Todos eles sabiam estar vivendo um dia histórico para o automobilismo brasileiro, ouvem isso há meses. Mas talvez ainda não tenham toda a dimensão da importância do momento.

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Estreia da F-4 Brasil, no último fim de semana, no autódromo Vellocita, em Mogi Guaçu
Imagem: F-4 Brasil/Divulgação

A F-4 é a melhor notícia para o automobilismo brasileiro em mais de uma década. Desde que Felipe Massa lançou a Fórmula Futuro, em 2010, os kartistas do Brasil não tinham uma opção realmente válida para aprender e se preparar para o nível de competição no exterior.

Infelizmente a empreitada do então ferrarista durou pouco. No início de 2012, ele anunciou o fim da categoria. A alegação foi que os investimentos eram pesados e a conta não fechava. Uma pena, mas que não surpreendeu. Empreender no Brasil, sabemos, é um açoite diário.

Sair do país passou a ser o único caminho para os kartistas que sonhavam em crescer no esporte. Mais caro, mais difícil, prematuro demais. E obviamente não era para todos.

O funil fechou cedo demais, antes que os garotos pudessem errar, aprender, errar, aprender... Fechou antes que pudessem se desenvolver. Sonhos ficaram pelo caminho. Não por coincidência, ninguém da geração de kartistas brasileiros da última década chegou à F1.

A F-4 Brasil é, acima de tudo, esperança.

Os carros que estrearam no fim de semana são exatamente os mesmos que rasgam pistas em países como Inglaterra, Itália e Alemanha: chassis Tatuus, motor Abarth de 180 cavalos e pneus Pirelli. Foi emocionante demais vê-los largando no Vellocitá, tinindo de novos, dividindo curvas, medindo freadas, já provocando os primeiros _e inevitáveis_ enroscos.

Um dia, aqueles que progredirem e tiverem condições terão de sair do país. Mas chegarão lá fora muito mais bem preparados. Como já estão numa categoria homologada pela FIA, parte da escadinha oficial para a F1, passam a acumular pontos na superlicença, a correr em circuitos de alto padrão, a entender os acertos e as manhas aerodinâmicas.

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Pedro Clerot comemora a vitória na primeira etapa da F-4 Brasil, em Mogi Guaçu, no sábado
Imagem: F-4 Brasil/Divulgação

Os 15 de agora estão tendo a mesma chance que tiveram Barrichello (F-Ford), Christian (F-Ford e F-3 sul-americana), Castroneves (F-Ford e F3 sul-americana), Kanaan (F-Ford e F-Chevrolet), Da Matta (F-Ford e F-3 brasileira), Massa (F-Chevrolet), Di Grassi (F-Renault)...

Aplausos para quem de direito: a F-4 é uma iniciativa da Vicar, com patrocínio master do Banco BRB e apoio da Confederação Brasileira de Automobilismo.

Comecei citando Clerot, que dominou a primeira corrida, mas para registro histórico vale citar a turma toda. O primeiro fim de semana da F-4 brasileira reuniu ainda Lucas Staico, Ricardo Gracia, Nicholas Monteiro, Lucca Zuchini, Nelson Neto, Felipe Barrichello Bartz, Fernando Barrichello (respectivamente sobrinho e filho de Rubinho), João Tesser, Victor Backes, Nicolas Giaffone (filho de Felipe), Richard Annunziata, Aurelia Nobels (uma garota no grid, que venham outras!), Vinicius Tessaro e Luan Lopes.

Que agarrem a chance. Que aproveitem. Que aprendam. Que sejam felizes.

Se conseguirem tudo isso, nós todos, fãs de automobilismo, também sairemos ganhando.