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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para manter crescimento, F1 precisa se livrar da FIA

Robert Shwartzman, piloto de testes da Ferrari, no modelo SF71H, de 2018, nesta quarta-feira - Ferrari
Robert Shwartzman, piloto de testes da Ferrari, no modelo SF71H, de 2018, nesta quarta-feira Imagem: Ferrari
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

26/01/2022 10h31

Acontece o tempo todo. Dois conhecidos fazem uma sociedade e decidem tocar um negócio. Digamos que seja um bar. Um deles assume o lado promocional da empresa e faz tudo direitinho: a fachada é atrativa, o balcão fica lindo, as redes sociais bombam, especialistas publicam notinhas, as pessoas começam a prestar atenção. O outro sócio cuida do chamado "core business": o cardápio, as compras, os contratos com fornecedores e garçons.

Daí o bar abre. As pessoas começam a ir. Encantam-se ao ver aquele ambiente, "igualzinho ao Insta". E passam a fazer seus pedidos. "A coxinha acabou". "Desculpe, mas não sei como é este prato". "Perdão, senhora, mas não temos mais gin". "É que o cozinheiro não veio hoje". E o chope está quente. E o sócio-gerente não sabe responder se a maquininha aceita crédito.

Qual é a sua reação? Você volta lá? E o sócio que fez tudo certo? Como fica?

Questionamentos assim certamente circulam pela Liberty Media, a sócia que faz tudo certo. Não é preciso estar lá dentro para imaginar a insatisfação crescente com a FIA, aquela que faz tudo errado, que se atrapalha a cada momento decisivo, que não tem respostas para nada.

Passou despercebido, mas a lambança com a Ferrari neste início de semana parece esquete de programa de pegadinhas. Dentro do prazo estipulado pelo regulamento (72 horas), a equipe avisou a FIA que andaria em Fiorano com o modelo de 2021. Na segunda, avisou a imprensa.

O artigo 8.2 do Regulamento Esportivo de 2022 permite isso. Pode checar aqui, está na página 49. Mas na F1 a regra não é clara, como já me disse o Arnaldo. Este ponto do regulamento ainda precisa ser aprovado pela Comissão de F1 da FIA e pelo Conselho Mundial, em fevereiro.

A dúvida bateu. Vale o que está no regulamento? Ou vale uma combinação entre as equipes? Andar com o carro de 2021, que é completamente diferente dos modelos de 2022, poderia acarretar alguma punição? Como é este prato? Aceita crédito? Tem coxinha? Ninguém da FIA soube responder.

Para não arriscar, a Ferrari adiou o início dos testes para esta quarta-feira, tirou a poeira do carro de 2018 (!!??) e o levou pra pista.

Fosse um episódio isolado, seria estranho. No contexto atual, é um desastre.

masi21 - Clive Rose/Getty Images - Clive Rose/Getty Images
Michael Masi, diretor de provas da Fórmula 1, alvo de críticas após decisões tomadas no último Mundial
Imagem: Clive Rose/Getty Images

Masi está sob bombardeio intenso depois que conseguiu estragar o final do campeonato mais competitivo da história. Faltou-lhe coerência, isso é claro. Mas ele é apenas o cozinheiro. Quem não comprou a farinha e o frango para a coxinha foi o sócio que não faz nada. Quem não provê ao diretor de provas e aos comissários um regulamento claro é a federação.

Desde que assumiu a F1, há pouco mais de cinco anos, a Liberty revolucionou o esporte. Transformou um bar antigo e decadente num point vibrante, frequentado por jovens. Levou a F1 para as redes sociais, para o streaming e apostou em seus personagens.

Ao longo de 2021, este blog destacou várias outras iniciativas positivas, e as 400 mil pessoas nos três dias de GP dos EUA são o melhor exemplo dessa revolução. Na segunda-feira, levantamento da "Forbes" destacado pela Máquina do Esporte apontou a Liberty como o maior conglomerado esportivo do mundo, com valor de mercado de US$ 17,2 bilhões.

Do outro lado há uma instituição centenária, que tem outras preocupações como mobilidade urbana, acessibilidade e sustentabilidade, e que se move com a agilidade de um mamute. Que não consegue acompanhar o ritmo do sócio. Que, depois de 72 temporadas, não conseguiu escrever um regulamento claro, com respostas às situações de pista.

O desfecho da sociedade parece claro para mim. O atual modelo de gestão da F1 não se sustenta. São visões conflitantes. O choque é inevitável, se é que já não está acontecendo.

E aí, no embate entre tradição x dinheiro, entre história x resultados, imagino o segundo grupo levando a melhor. O sócio que não faz nada pode até continuar por ali, fazendo figuração, aparecendo nas fotos e promovendo a premiação de fim de ano. Mas é o outro que dará as cartas, inclusive na cozinha.

Já é assim nas ligas americanas, com o dono do dinheiro tomando conta do negócio de ponta a ponta. Para manter a analogia com os bares, é a velha máxima empresarial da "barriga no balcão". Para manter o crescimento, a F1 precisa se livrar da FIA. Ou, ao menos, escanteá-la.

Alguém acha que a Liberty já não está pensando nisso?