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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ferrari e AlphaTauri usam regulamento para testar na Itália

Carlos Sainz, da Ferrari, em ação durante o fim de semana do GP de São Paulo, em Interlagos - Duda Bairros/AGIF
Carlos Sainz, da Ferrari, em ação durante o fim de semana do GP de São Paulo, em Interlagos Imagem: Duda Bairros/AGIF
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

24/01/2022 15h55

Tem um retrogosto, mas é notícia nova e pode provocar chiadeira das rivais: Ferrari e AlphaTauri iniciam nesta terça baterias de testes em pistas da Itália.

Por quatro dias, Sainz, Leclerc e o novo piloto de testes da escuderia italiana, Shwartzman, andarão com o modelo de 2021 em Fiorano, que fica ao lado da fábrica de Maranello. Já a equipe satélite da Red Bull, sediada em Faenza, vai treinar por três dias em Imola com o carro que utilizou na temporada de 2020.

"É algo que já se tornou uma pequena tradição, com pilotos, engenheiros e mecânicos se reunindo para voltar a sentir o ritmo de um GP", informou a Ferrari, num comunicado à imprensa, deixando claro que usará o modelo SF21, que a levou ao terceiro lugar no Mundial de Construtores. "O novo carro, que tem número de projeto 674, só será mostrado em algumas semanas. No dia 17 de fevereiro, mais precisamente."

Vice-campeão da última temporada da F2, Shwartzman vai abrir e fechar os trabalhos: está escalado para terça e sexta-feiras. Na quarta será a vez de Leclerc. Sainz testará na quinta.

A AlphaTauri não divulgou quem estará no cockpit do AT01, mas a imprensa europeia cita apenas os titulares, Gasly e Tsunoda.

Os cinco não pilotam um F1 desde os testes com as novas rodas de 18 polegadas, em Abu Dhabi, na semana seguinte ao último GP do ano passado. Já se vão mais de 40 dias.

Até os primeiros anos do século, testes privados eram comuns. As equipes colocavam seus carros nos caminhões, viajavam para lugares da Europa em que o inverno era menos rigoroso, como Jerez, Barcelona e Paul Ricard, e passavam dias queimando gasolina e gastando borracha. Isso pra não falar das semanas que as equipes passavam em Jacarepaguá quando o saudoso circuito carioca tinha a honra de abrir o Mundial. Era uma festa...

Mas isso consumia dinheiro. Quem tinha mais gastava mais e, por consequência, reunia maiores chances de começar a temporada na frente. Hoje, a expressão "teto de gastos" tornou-se uma das preferidas dos gestores da categoria. Há várias regras que limitam os recursos que podem ser usados pelas equipes. E testes estão neste balaio.

Mas existe uma brecha. O artigo 8.2 do Regulamento Esportivo da categoria abre a possibilidade de testes com carros usados nos três anos anteriores.

Há, claro, uma série de exigências.

"Os testes só podem acontecer com carros construídos segundo as especificações daquele período e com pneus produzidos para este propósito", diz um dos pontos. A regra ainda estipula que o departamento técnico da FIA deve ser informado com pelo menos 72 horas de antecedência e que, no pedido, a equipe deve descrever "a precisa especificação dos carros a serem utilizados" e indicar, ainda, "o motivo" do teste.

Ok, a regra está lá, tudo muito bom, tudo muito bem.

Mas a pergunta que precisa ser feita é: quem fiscaliza?

Quem garante que a Ferrari ou a AlphaTauri ou qualquer outra equipe que lançar mão desta regra não usará por baixo da carenagem um componente do carro novo?

O Regulamento Esportivo não diz nada.

Já estou nesse negócio há um bom tempo e não deveria me surpreender com isso, principalmente depois da confusão de Abu Dhabi. Mas é uma constante: uma categoria com tanto dinheiro, tão tecnológica e tão antiga ainda tem um regulamento cheio de furos.