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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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Lewis Hamilton acerta a traseira de Max Verstappen na 37ª volta do GP da Arábia Saudita -  Lars Baron/Getty Images/Red Bull
Lewis Hamilton acerta a traseira de Max Verstappen na 37ª volta do GP da Arábia Saudita Imagem: Lars Baron/Getty Images/Red Bull
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

06/12/2021 08h25

Não foi um "brake test". Mas quase. "Brake test" é a mais imunda manobra do automobilismo. É quando o piloto da frente enfia o pé no freio para provocar um acidente com quem vem atrás. É a quebra de um código de confiança que deve existir mesmo entre os rivais mais ferrenhos e odiosos. A intenção é maligna. O que aconteceu na 37ª volta de Jeddah teve dinâmica parecida, mas foi diferente nos objetivos. Foi um tentativa de malandragem;

Na abertura da volta, Verstappen mais uma vez endureceu numa tentativa de ultrapassagem de Hamilton. Foi para a área de escape e voltou à pista na frente. A direção de prova determinou que ele deveria devolver a posição, e ele foi informado disso pela Red Bull. A mensagem literal foi essa: "Você tem que deixar Hamilton passar. Obviamente faça isso num ponto estragicamente conveniente". E isso é crucial para entender o que houve;

Os dois chegaram embutidos à curva 26. Ali havia um ponto de detecção do DRS. Depois disso vêm a última curva e a reta. Quem estivesse atrás no tal ponto do DRS teria toda a condição de abrir a asa na reta e assumir a liderança. Foi essa a malandragem que Verstappen tentou: devolver a posição ali para dar o troco metros à frente. Por isso a desaceleração brusca, de 2,4G, segundo a FIA. Hamilton não esperava. A ideia dele era justamente tentar a ultrapassagem na reta. O inglês teve muito reflexo para não encher a traseira da Red Bull;

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Lewis Hamilton, entre Max Verstappen e Valtteri Bottas, no pódio do GP da Arábia Saudita
Imagem: Fórmula 1

Outro ponto crucial no acidente foi a falta de comunicação da FIA para a Mercedes. Se Hamilton soubesse que Verstappen tinha ordem para deixá-lo passar, seu comportamento teria sido outro. Não estaria embutido ali. Esperaria um gesto mais claro do rival. Isso gerou uma discussão acalorada entre Ron Meadows, um dos chefes da Mercedes, e Michael Masi, diretor da FIA. A resposta final de Masi foi "eu só posso apertar um botão de cada vez". Sim, foi tudo muito rápido: cerca de 1min20s entre a escapada de Verstappen na curva 1 e o acidente. Mas teria dado tempo. Se a Red Bull conseguiu avisar Verstappen, Masi conseguiria alertar a Mercedes. O tempo corre igual para todos. A FIA errou feio nessa;

Se era para deixar Hamilton passar, por que Verstappen não se colocou à direita? "Eu queria deixá-lo seguir, fui para a direita, mas ele não queria me passar naquele ponto e acabamos tocando", explicou o holandês após a corrida. Não, ele não foi para a direita. Ficou no meio da pista . E aqui está outro ponto importante para entender o GP da Arábia Saudita e o campeonato como um todo: Verstappen não sabe ceder. Não consegue. Mesmo quando tudo está perdido, quando Hamilton já está com o carro à frente numa curva, ele não alivia. Age como se não tivesse ninguém ao lado, paga para ver, confia que o adversário vai tirar o pé para evitar um acidente. Em Silverstone, Hamilton não tirou e deu no que deu;

Por que Verstappen age assim? Porque tem 24 anos, porque sempre foi tratado como um geniozinho pela Red Bull, porque quer desesperadamente este título e porque confia nas manobras políticas da sua equipe. Horner e Marko são dos maiores falastrões do paddock. Ontem mesmo já saíram falando, armando o cenário para Abu Dhabi. O austríaco acusou a FIA de ser tendenciosa a favor da Mercedes. Horner pegou mais pesado: disse que sente saudades de Charlie Whitting, o predecessor de Masi, morto em 2019;

Acho que toda essa pressão política, todo esse ambiente interno da Red Bull, dá a Verstappen um senso de impunidade. O holandês endurece todas as manobras acreditando que não será punido sempre. Se uma de suas tentativas colar, colou. E pode significar uma vitória. Ontem não funcionou, O "Tuiteiro formely know as Capelli" teve uma belíssima sacada após o GP...

A punição de 10 segundos a Verstappen, emitida já na madrugada de segunda-feira na Arábia Saudita, não mudou o resultado do GP. Como isso, os duelistas pelo Mundial chegarão a Abu Dhabi nesta semana rigorosamente empatados na pontuação: 369,5 para cada;

O holandês leva vantagem no primeiro critério de desempate: tem 9 vitórias no ano contra 8 de Hamilton. Se os dois abandonarem, o título é dele. Some isso ao histórico de Verstappen na temporada e ao que escrevi acima, sobre ele saber que hoje a Mercedes tem um carro melhor. Agora imagine a primeira curva em Abu Dhabi, os dois lado a lado. O que você acha que vai acontecer?

Para mim está claro que, no mínimo, ele vai deixar o toque acontecer. No máximo, pode deliberadamente provocar um acidente. Não seria a primeira vez numa decisão de título, aliás. Prost, Senna e Schumacher já fizeram isso. No atual clima da F-1, há enormes chances de a temporada não terminar no próximo domingo. Se os rivais baterem e abandonarem em Abu Dhabi, podem esperar uma longa e arrastada batalha nos tribunais da FIA;

Por tudo isso, Bottas terá papel fundamental na ultima etapa do Mundial. Nos sonhos da Mercedes, Hamilton garante a pole em Abu Dhabi, com o companheiro em segundo. No pior pesadelo, Hamilton e Verstappen dividem a primeira fila. A ver;

O que mais aconteceu em Jeddah? Com 28 pontos de vantagem para a Red Bull, a Mercedes praticamente garantiu o oitavo Mundial de Construtores. E com 39,5 sobre a McLaren, a Ferrari também praticamente resolveu a disputa pelo terceiro lugar. Ricciardo foi um dos destaques da prova, largando em 11º e terminando em quinto, seus primeiros pontos desde Austin. E Ocon deu uma de sincerão após ser ultrapassado por Bottas e perder o pódio nos últimos metros da corrida: "Vou chorar";

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Valtteri Bottas ultrapassa Esteban Ocon pouco antes da linha de chegada em Jeddah
Imagem: Mercedes

Agora é Abu Dhabi. As próximas Pílulas falarão sobre o campeão da mais empolgante temporada dos últimos anos. Ou não, dependendo do que acontecer. Tentem segurar a expectativa por aí.

Por aqui, vai ser difícil levar a semana...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL