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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lentidão da FIA atrapalha popularização da F-1

O australiano Michael Masi (de azul), diretor de corridas da FIA, durante inspeção antes do GP de São Paulo  - Beto Issa/GP de São Paulo
O australiano Michael Masi (de azul), diretor de corridas da FIA, durante inspeção antes do GP de São Paulo Imagem: Beto Issa/GP de São Paulo
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

24/11/2021 08h32

Em Interlagos, as decisões sobre irregularidades na asa de Hamilton e sobre os toques de Verstappen no carro do rival atravessaram a noite. Começaram no fim da tarde de sexta e só terminaram no início da tarde de sábado.

Em Losail, no último fim de semana, cenário parecido: Verstapppen, Bottas e Sainz foram investigados por desrespeitar bandeiras amarelas na classificação. A checagem começou no sábado, o resultado só veio no domingo, menos de duas horas antes da largada, mexendo com estratégias de equipes e pilotos.

Tudo isso em meio a um campeonato indefinido, com os protagonistas separados por poucos pontos. Qualquer decisão para um lado ou para o outro pode alterar os rumos do campeonato. Tanta demora só aumenta a tensão.

Mais: como já debatemos tantas vezes aqui no blog, há uma legião de novos torcedores acompanhando o campeonato. Burocracia não deve ser o atributo que eles buscam na F-1. O nome disso é anticlímax.

Também pode chamar de tiro no pé.

Mas o que está acontecendo? Por que tanta demora nas decisões?

Diretor de corridas da FIA desde 2019, responsável pelo trabalho dos comissários e fiscais nos GPs, Michael Masi foi questionado sobre isso no Qatar. E deu suas justificativas.

"A imprensa sempre pediu mais detalhes sobre as decisões, não apenas comunicados dizendo 'este piloto é culpado' ou 'este é inocente'. Vocês sempre querem uma melhor compreensão dos processos", disse, numa roda de repórteres.

"Os comissários tentam. Mas há muitas nuances. Leva tempo para escrever um rascunho, reescrever... São duas coisas diferentes. Uma é a tomada de decisão. A outra é a necessidade de ouvir as equipes. No Brasil, ouvimos a Mercedes por duas horas e meia. Essas audiências precisam ser encaixadas entre os treinos, numa programação que já é muito apertada."

O australiano também falou sobre Losail. "Você precisa olhar onde os carros estavam na pista, voltar, checar as câmeras de todos os 10 carros, que foi o que fiz, olhas os dados da telemetria... Obviamente isso consome muito tempo, mas é preciso ter certeza sobre quem fez o quê, o que foi mostrado, o que não foi mostrado, para que os comissários possam decidir."

comufia - Reprodução - Reprodução
Comunicado da FIA anuncia punição a Hamilton em Interlagos após quase 20 horas de investigação
Imagem: Reprodução

Todo cuidado é necessário e bem-vindo. Como escrevi acima, qualquer decisão à esta altura do campeonato pode mudar os rumos da disputa entre Hamilton e Verstappen. Mas Masi e seus comissários precisam ser mais ágeis.

Esporte se consome ao vivo. O torcedor quer justiça, mas também quer saber se aquele resultado que ele acabou de ver na TV está valendo.

Fazer os fãs irem dormir sem uma informação tão básica como o grid de largada é um contrassenso para uma categoria que tanto vem se esforçando para ser mais popular.

Entendo que a tecnologia tornou os julgamentos mais complicados. Hoje há muito mais elementos disponíveis para analisar do que há 20 anos: dezenas de câmeras on-board, imagens feitas por torcedores, recortes finos de telemetria. Mas tem de haver um limite.

A FIA sabe disso. Ao negarem o recurso da Mercedes sobre a manobra de Verstappen contra Hamilton em Interlagos, os comissários fizeram uma analogia com o futebol.

"Haverá sempre novas imagens, em novos ângulos, que não estavam disponíveis para os comissários no momento da decisão. Certos ou errados, assim como decisões de juízes no futebol, os detalhes dos veredictos dos comissários não podem ficar sempre sujeitos a revisões por até duas semanas após cada fato", escreveram no documento.

É isso. Por mais que a F-1 seja uma categoria repleta de detalhes técnicos, é preciso estabelecer um limite de tempo para informar os torcedores sobre as decisões. A justiça precisa ser a justiça possível naquelas duas ou três horas.

Mais do que isso é tribunal, não esporte. É melhor ir assistir "Law & Order".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL