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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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Lewis Hamilton deixa o cockpit da Mercedes após a vitória no GP do Qatar, em Losail  - Mercedes
Lewis Hamilton deixa o cockpit da Mercedes após a vitória no GP do Qatar, em Losail Imagem: Mercedes
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

22/11/2021 08h00

"Despertaram o leão no sábado de Interlagos. Ele está absolutamente dedicado, com brutalidade e sangue frio. É o melhor Lewis que já vi, e sabemos o que ele fez no passado";

A declaração é de Wolff, o chefe da Mercedes, tentando colocar em palavras o estado de espírito de Hamilton nos últimos dois fins de semana. Em Interlagos, ele superou duas punições, largou lá de trás e venceu. Em Losail, ele dominou a classificação, largou na pole e venceu. Enredos diferentes, dinâmicas de corrida diferentes, mas com o mesmo resultado. Em oito dias, reduziu sua desvantagem no Mundial de 21 para 8 pontos. Despertaram o leão;

Se dentro do carro Hamilton está tomado de ira e com sangue nos olhos, nas entrevistas ele não demonstra isso. Pelo contrário. Há tempos não entra em provocações. Seus discursos em fins de semana de GP chegam a ser previsíveis: agradece o apoio incrível dos fãs, diz que aquele lugar é fantástico e elogia o trabalho da equipe. Isso se chama maturidade;

No primeiro GP da história do Qatar, venceu um piloto usando um capacete com as cores do arco-íris. O país proíbe união entre pessoas do mesmo sexo, com penas que vão da prisão à sentença de morte. Hamilton disse que há meses vinha pensando nas questões levantadas pelas três últimas corridas do ano, disputadas em países que são grandes ofensores dos direitos humanos. Ou seja, deve repetir a dose na Arábia Saudita e em Abu Dhabi;

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Max Verstappen, segundo colocado no GP do Qatar, nos boxes da Red Bull em Losail
Imagem: Mark Thompson/Getty Images/Red Bull

É difícil, o próprio Verstappen sabe disso, mas há chances de o holandês conquistar o Mundial na Arábia Saudita. A própria F-1 fez a matemática e jogou nas redes os quatro cenários que encerrariam a disputa em Jedá:

  • Vence com melhor volta e Hamilton é no máximo sexto
  • Vence e Hamilton é no máximo sétimo
  • Segundo colocado com melhor volta e Hamilton é no máximo décimo
  • Segundo colocado e Hamilton não pontua

Vai terminar lá? Este Mundial mostra que as chances são pequenas. Foram 20 provas até agora. Apenas uma produziu resultado que daria o título a Verstappen em Jedá. Aconteceu em Mônaco: o holandês venceu e Hamilton foi sétimo. Mas foi um fim de semana totalmente fora da curva para a Mercedes, com o inglês perdido no acerto e com toda aquela dificuldade de ultrapassar nas ruas do principado;

Um lance curioso depois do GP do Qatar: Horner foi chamado à sala dos comissários por ter chamado de "trapaceiro" o fiscal que agitou as bandeiras amarelas para Verstappen na classificação, no sábado. Precisou pedir desculpas e se comprometeu a participar de um programa de treinamento de fiscais, em fevereiro;

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Fernando Alonso celebra o 3º lugar em Losail
Imagem: Alpine

Foi muito legal ver Alonso exultante ao fim da corrida. Foram sete anos e 105 GPs de espera até esse pódio. De lá para cá, o espanhol sofreu com uma McLaren em crise, deixou a F-1, venceu duas vezes Le Mans e uma vez Daytona e correu duas vezes em Indianápolis. Como escrevi meses atrás, este novo Alonso que retornou à categoria é um cara muito mais relaxado, de bem com a vida e que talvez só precise se divertir. Ontem ele se divertiu muito;

No outro extremo está Gasly, a imagem da decepção no Qatar. O francês brilhou nos treinos e na classificação, andando sempre entre os primeiros. Largou na primeira fila pela primeira vez. Mas a partir daí, viveu um inferno. "Nosso ritmo de corrida foi um choque. Não temos uma resposta ainda. Tentei ficar próximo de Alonso no começo da prova, mas não consegui. Fomos então para uma estratégia agressiva, de dois pit stops, mas meu carro simplesmente não tinha ritmo". Terminou apenas em 11º. Tsunoda, que largou em oitavo, foi 13º;

Quando o mesmo pneu apresenta problema em três carros diferentes, os olhares se voltam para a fabricante. Bottas, Russell e Latifi estavam em estratégias idênticas, de uma parada, e tiveram as corridas arrasadas por estouros do pneu dianteiro esquerdo. "Este pneu foi afetado porque, nesta pista, é o mais sujeito a esforços", disse Isola, o chefe da Pirelli. Ele anunciou uma investigação, mas já sugeriu que os impactos nas zebras de Losail, que danificaram asas dianteiras e chassis, podem estar entre as causas do problema. Norris, que conseguiu chegar aos boxes no limite, estava bem bravo: "Eles deveriam fazer pneus melhores. É perigoso para nós, pilotos. Se você não pode pilotar um carro de F-1 por um circuito, o que fazer? Foram só 20, 25 voltas com aqueles pneus. Não foi nenhum trecho muito longo";

Apenas 30 km separam a fábrica de Mercedes, em Brackley, da sede da Red Bull, em Milton Keynes. Fico pensando no clima em cada uma nos próximos dias. Na Mercedes, imagino aquele trabalho de polir o carro, separar o motor de Interlagos e esperar o embarque para Jedá. Na Red Bull, cérebros e braços trabalhando para tentar encontrar algum ritmo extra no carro para as duas últimas etapas. A pressão já esteve 30 km para lá, agora está 30 km para cá. E uma das duas estará em festa daqui a três semanas. Que enredo!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL