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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sobre os 30 anos de jejum e seus motivos

Ayrton Senna antes da largada para o GP do Japão de 1991, prova em que conquistou o tricampeonato - Paul-Henri Cahier/Getty Images
Ayrton Senna antes da largada para o GP do Japão de 1991, prova em que conquistou o tricampeonato Imagem: Paul-Henri Cahier/Getty Images
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

20/10/2021 10h54

20 de outubro de 1991. Há exatos 30 anos, "passou reto Mansell", "Senna faz sinal pra Berger", "eu sabia". Em Suzuka, uma conquista épica, o tricampeonato de Senna ao volante daquela mítica McLaren, uma festa madrugada adentro. O oitavo título brasileiro em 19 anos.

20 de outubro de 2021. Tudo já foi dito sobre aquela corrida, a última que Senna, Piquet, Prost e Mansell disputaram juntos. Foi o fim de uma era para o automobilismo mundial. E o fim de uma era para o esporte no Brasil. Há exatos 30 anos o país não vence um título na F-1.

Por quê?

A primeira resposta é óbvia: porque Senna morreu. Cravar quantos títulos a mais ele ganharia seria especulação. Mas, caramba, ele tinha 34 anos, forma física impecável e obsessão de um maníaco.

Se Hill e Villeneuve foram campeões com a Williams, não parece leviano acreditar que Senna também seria se lá estivesse. (Será, porém, que ele não perseguiria o sonho da Ferrari?)

A segunda resposta tem a ver com os anos que vieram a seguir, de 1995 a 2017. É o período que começa com Barrichello na Jordan tentando carregar um peso impossível e que termina com a despedida de Massa da F-1, pela Williams, em Abu Dhabi.

Tive o privilégio de cobrir in loco boa parte dessas temporadas. Depois do que aconteceu nas décadas anteriores, o Brasil ainda gozava de prestígio no paddock. Pilotos brasileiros eram observados com uma atenção especial, recebiam chances que outros não tinham.

Nesse período, nada menos que 14 compatriotas correram na categoria, outros tantos bateram na trave.

Lembro especialmente de um GP do Canadá, em 2001, em que 5 dos 22 pilotos do grid de largada eram brasileiros: Barrichello (Ferrari), Zonta (Jordan), Bernoldi (Arrows), Burti (Prost) e Marques (Minardi).

Lembro, também, da expectativa de toda a F-1 em torno de Zonta e de Pizzonia. Poucos pilotos na história chegaram lá com currículos tão impressionante nas categorias de base.

O que aconteceu? Nada.

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Schumacher e Barrichello no pódio do GP da Áustria de 2002
Imagem: Reprodução

Não foi por falta de piloto, não foi por falta de chance. Nos casos de Barrichello, Zonta e Pizzonia, foi por pura falta de cabeça. Foi por falta de preparo psicológico, de uma estrutura mais profissional no entorno para suportar as pressões. Cada um, de forma diferente, sucumbiu.

Os dois vices de Barrichello, em 2002 e 2004, convenhamos, são protocolares. Em nenhum momento ele chegou a realmente a disputar aqueles títulos.

É preciso abrir uma exceção honrosa nesse período: Massa em 2008. Ali não faltou nada. Faltaram as circunstâncias encaixarem. Ele perdeu o Mundial por um ponto, na última curva da última volta do último GP do ano. Foi heroico, uma decisão que entrou para a história. Mas a mesma história registra: o campeão foi Hamilton.

E veio o período atual. Desde que Massa deixou a F-1, o Brasil não tem um piloto disputando a temporada. De lá pra cá, Pietro correu aquele dois GPs no Bahrein, substituindo Grosjean, e só.

A minha tese é que a seca atual tem tudo a ver com o período anterior.

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Felipe Massa foi homenageado ao fim do GP de Abu Dhabi
Imagem: AFP / Andrej Isakovic

Emerson, Wilsinho, Pace e sua turma foram frutos de um momento único do automobilismo brasileiro, uma era de pujança das montadoras, de investimentos em competições entre diferentes marcas, de Interlagos vibrando como centro de desenvolvimento de talentos e sonhos.

Piquet e Senna se inspiraram neles. A geração de Barrichello, na anterior.

E a geração atual? Se inspirou em quem? Viu o quê?

Viu Massa ser vice em 2008, ainda bem, mas viu compatriotas subservientes, despreparados, coadjuvantes.

Sem um automobilismo doméstico forte, não tem mágica.

Ou melhor: só com mágica.

O garoto, primeiro, precisa se interessar por automobilismo em meio a um leque de ofertas colossal. Depois, precisa ser dotado de um talento fenomenal. E precisa ser rico, para que o pai possa mandá-lo ainda cedo para a Europa.

Por fim, ainda adolescente, precisa cair nas graças de uma equipe da F-1, entrar para um programa de desenvolvimento de jovens talentos. Do contrário, o caminho é muito mais difícil.

20 de outubro de 2021. Há exatos 30 anos o país não vence um título na F-1. Vamos curtir o dia, vamos rever o que Senna fez em Suzuka, vamos celebrar.

É a solução enquanto não surgir alguém que atenda, simultaneamente, a todos os complicados requisitos acima.

Não é pessimismo, não é opinião. É probabilidade, é matemática: só um fenômeno, só uma conjunção de raras coincidências, poderá colocar fim a esse jejum de título.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL