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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Schumacher" deixa mistério no ar e ignora brasileiros da Ferrari

Michael Schumacher comemora vitória no GP da China de 2006 em Xangai, sua última na F-1 -
Michael Schumacher comemora vitória no GP da China de 2006 em Xangai, sua última na F-1
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

15/09/2021 11h35

"Schumacher", que estreou hoje na Netflix, é sobre transformação.

Transformação de um garoto classe média baixa da Alemanha, que buscava pneus no lixo para correr de kart, em estrela maior da F-1.

Transformação de uma Ferrari caótica, em crise e cercada de dúvidas, na maior vencedora da história da categoria.

Transformação de um simpático jovem promissor em piloto dominante do esporte, alguém com atitudes às vezes agressivas e que se julgava infalível.

Transformação de um ídolo mundial em mistério. Que fica no ar. O filme não traz nenhuma novidade sobre o estado de saúde do heptacampeão, acidentado em 2013 numa pista de esqui nos Alpes franceses.

Produzido pela mesma equipe de documentaristas alemães que lançou "Boris Becker, o Jogador", em 2017, o documentário tem quase duas horas e segue um fio cronológico: da infância em Kerpen ao isolamento atual, embora dedique menos de 10 minutos ao drama dos últimos anos.

Emociona, traz detalhes saborosos sobre a juventude do alemão, aponta o dedo para erros e atitudes antiéticas cometidas nas pistas, mostra cenas inéditas e divertidas da vida com a família, mas falha naquela que deveria ser a missão prioritária de um documentário: informar.

As últimas cenas do filme, com o clamor de Corinna Schumacher por privacidade, soam como uma justificativa dos produtores para a ausência de fatos novos. É, no fim das contas, uma videobiografia autorizada pela família.

sennachu - Reprodução - Reprodução
Ayrton Senna tira satisfação com Michael Schumacher após batida no GP da França de 92
Imagem: Reprodução

O filme mostra um Schumacher obsessivo por vitórias, que se recusava a admitir os erros. E traz uma reveladora entrevista com Ross Brawn sobre o acidente com Damon Hill em 1996.

Mostra um Schumacher que saiu da Benetton pelo receio de se acomodar, mas que se assustou com a bagunça que encontrou na Ferrari.

Uma das melhores imagens é dele no cockpit do carro vermelho, em cima de um guincho-plataforma, voltando para os boxes de Magny-Cours após o motor explodir antes mesmo da largada do GP da França de 1996.

Estava completamento desolado.

E neste ponto é interessante o paralelo com a dureza dos tempos de kart.

Schumacher, na Ferrari, teve que arregaçar as mangas. Treinava até anoitecer e quebrava a cabeça com mecânicos e engenheiros em busca de milésimos de segundo. Gosto, particularmente, de uma cena corriqueira, rápida até: ele se agacha para conferir alguma coisa embaixo do carro. Não lembro da última vez que vi um piloto fazendo isso.

Ayrton Senna ocupa papel central no enredo. Até 1991, era uma espécie de ídolo inalcançável para Schumacher. No ano seguinte, tornou-se seu adversário nas pistas, com direito a uma discussão acalorada no GP da França. Foi tudo muito rápido. Imola-1994, claro, está no filme, assim como a crise de choro do alemão ao igualar as 41 vitórias do brasileiro na F-1.

Entre os entrevistados, além de Corinna e dos filhos, Mick e Gina-Maria, o filme traz personagens importantes da carreira do alemão, como Jean Todt, Eddie Irvine, Flavio Briatore, Bernie Ecclestone, Mika Hakkinen e David Coulthard.

Senti falta de Jacques Villeneuve, de Juan Pablo Montoya e de Eddie Jordan. E, claro, dos dois brasileiros que foram seus parceiros de equipe: Rubens Barrichello, o mais longevo companheiro de toda a sua carreira, e Felipe Massa, espécie de pupilo na escuderia italiana.

Lacunas à parte, é um filme essencial para quem gosta de F-1, tanto fãs veteranos como para a bem-vinda "geração Drive To Survive".

Porque certamente o filme nos faz entender melhor Schumacher.

E entender melhor Schumacher é fundamental para conhecer melhor a F-1 e o que é necessário para transformar um garoto sem recursos num imbatível multicampeão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL