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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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Red Bull de Max Verstappen passa por cima da Mercedes de Lewis Hamilton no GP da Itália - Twitter/Lewis Hamilton
Red Bull de Max Verstappen passa por cima da Mercedes de Lewis Hamilton no GP da Itália Imagem: Twitter/Lewis Hamilton
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

13/09/2021 08h41

Hamilton x Verstappen tem despertado paixões e ódios, reações às vezes destemperadas de quem não concorda com uma opinião, discussões que resgatam lances do passado, debates que tentam adivinhar o futuro. Melhor assim. Foram anos de campeonatos apáticos, sem grandes disputas, sem grandes personagens. Some isso à chegada de uma nova legião de fãs, arrastada pelo fenômeno "Drive To Survive", e a coadjuvantes de peso como Norris, Ricciardo, Alonso, Vettel e Russell. Pronto: a F-1 voltou a ser assunto. Sorte, aliás, dessa turma que está chegando: estamos vivendo o melhor campeonato em muitos anos;

"Na opinião dos comissários, a manobra foi tentada muito tarde pelo piloto do carro 33 para que ele tivesse direito a espaço." Este é o trecho-chave do comunicado da FIA emitido após o GP, punindo Verstappen com a perda de três posições no grid de largada em Sochi. Mas tem mais: "Embora o carro 44 pudesse ter ido mais para a zebra para evitar o acidente, os comissários entendem que seu posicionamento era razoável e que a culpa foi predominantemente de Verstappen. Os comissários enfatizam que consideraram apenas o incidente em si, não suas consequências";

É exatamente a minha leitura, é o que escrevi no Twitter assim que o choque aconteceu, é o ponto de vista que expus aqui no blog e no Fim de Papo F-1 ao término do GP. Quando Hamilton tomou a tangência e chegou antes à primeira perna da Variante del Rettifilo, ficou claro e cristalino que a posição estava ganha. Menos para Verstappen;

hamvert - ANDREJ ISAKOVIC / AFP - ANDREJ ISAKOVIC / AFP
Carros de Hamilton e Verstappen em Monza
Imagem: ANDREJ ISAKOVIC / AFP

É este o ponto. Ao longo de todo ano, em disputas roda a roda com Hamilton, o holandês vem sofrendo uma espécie de bloqueio: nega a derrota, descarta respirar fundo, resignar-se e tentar de novo na próxima curva, na volta seguinte. Continua acelerando, como que pra ver no que vai dar. Em vários momentos no começo do ano, Hamilton levantou o pé para evitar o choque. Em Silverstone, por correr em casa, diante de sua torcida, o inglês endureceu e deu no que deu: a batida na Copse. Naquele caso, só Verstappen se deu mal. Em Monza, ambos abandonaram. Mas o acidente poderia ter tido consequências muito mais graves;

Comportamentos como o de Verstappen, de continuar acelerando e empurrando o adversário para fora, são comuns no kart. Normalmente, o "empurrador" é o geniozinho da pista, o moleque que só está acostumado a ganhar e que fica fora de si quando vê alguém à sua frente. O holandês já deveria ter passado desta fase faz tempo. E mais: no caso, o cara acostumado a ganhar é Hamilton, não ele;

Repito o que escrevi ontem: Verstappen é excelente piloto, um futuro campeão mundial, um cara que amadureceu muito nos últimos anos. Tem enormes chances de ser campeão nesta temporada. Seu carro é um foguete e ele pilota muito, é dono de um talento impressionante. Mas precisa superar este "blackout" que sofre em disputas com Hamilton. Quem mais tem a perder com esse comportamento é ele mesmo;

Em Silverstone, logo após a batida, Hamilton fez questão de entrar pelo rádio para perguntar como estava o rival. "Ele está ok?", indagou. Em Monza, Verstappen saiu do carro sem nem sequer olhar para o inglês, que estava debaixo do seu carro;

"Fiquei um pouco surpreso, porque acho que quando acontece um acidente assim, a primeira coisa que a gente quer é checar se está tudo bem com o outro cara", disse Hamilton, após o GP. A explicação do holandês foi esta: "Ele estava tentando dar a ré. Quando alguém tenta isso, é porque está bem";

E o halo? Nunca vi algo mais bonito num carro de corrida;

ricci1 - Reprodução/F1TV - Reprodução/F1TV
Daniel Ricciardo, da McLaren, bebe champanhe na sapatilha para celebrar a vitória no GP da Itália
Imagem: Reprodução/F1TV

Ricciardo, claro, merece um comentário à parte. Que figura, que injeção de alto astral ele consegue dar à F-1! Em meio a uma temporada horrível, perdido com o carro e levando um banho do companheiro, o australiano consegue arrancar uma vitória num dos circuitos mais clássicos do esporte a motor. Foram 27 pontos conquistados na Itália, o equivalente a 32% do que conseguiu em todo ano. Até Monza, em 13 provas, Ricciardo havia conquistado 56;

Segue muito boa a disputa entre Ferrari e McLaren pelo posto de terceira força. Em Monza, a equipe inglesa voltou a pular à frente: 215 pontos a 201,5. E pensar que em 2017 a McLaren fechou o ano em nono lugar, atrás da Haas...

Próxima etapa, Sochi. Que o brilho do campeonato consiga ofuscar a tosqueira que é correr num estacionamento de estádio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL